On The Road: Elogio do Ócio

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Por Cláudio Vigo
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O início do ano está difícil. Um torpor lamacento me leva a uma imobilidade digna de chamar Dorival Caymmi de "The Flash". Nessa já vão quase três meses sem escrever nada. Até de Decano do Ócio já andaram me chamando. Na verdade ando carregando uma dúzia de pianos todo dia, chega à noite e o máximo que dá pra fazer é ver um filme ou ler um livro escutando um som. Botei uns discos de Zydeko que andaram me emprestando e vamos ao movimento antes que o sangue fique mais turvo que as águas deste Mississipi.

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No meio de tudo isso alguns bálsamos do espírito andaram aliviando este imobilismo estático. Um deles foi o filme (que recomendo) chamado "Beat" do diretor Gary Walkow com a rainha do biscate que atende por Courtney Love e o pé na jaca Kiefer Sutherland que fazem o papel do casal Burroughs (William e Joan) no México quando recebem a visita de Allen Ginsberg e Lucien Carr. Daí ocorre o famoso episódio em que Bill mata a mulher numa alucinação em que resolvem brincar de Guilherme Tell. Joan coloca o copo na cabeça e acaba levando uma azeitona fatal na testa. Burroughs acabou se livrando da cana dura e se transformou em um dos maiores escritores do século passado. Este episódio está relatado em um trecho do ultracitado poema Uivo (Howl) de Ginsberg assim como milhões de outros. O filme é bem interessante, sem ser genial e surpreende com a atuação de Courtney Love até contida na boa reconstituição de época. Vale a pena alugar (já saiu em DVD) e assistir pegando gosto pra encarar os livros do homem.

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Continuando no clima Beat foi fundamental também a leitura do clássico de Carl Solomon "De repente acidentes" que nada mais é do que uma coletânea (excelente) dos exercícios auto-biográficos meio esquizóides desta mistura de Genet, Michaux, Artaud e bicha louca que era este amigo mor de Ginsberg (companheiro de internação) pra quem Uivo (ah de novo) foi dedicado. Antipsiquiatria prática e ululante este livro é uma porrada na cara do mundo WASP dominante, sendo que a baixaria e o lirismo convivem em suas páginas sem nenhum problema, totalmente complementares. Saiu em edição de bolso pela LPM (baratinho). Recomendo como tônico ante marasmo.

Não se pode falar de ócio sem lembrar de Ruan Rulfo, escritor mexicano que era considerado um dos melhores latino americanos tendo publicado apenas dois livros (Pedro Paramo e Planalto em chamas). Os dois (fininhos) são realmente excelentes e complementam um clima onírico delirante e fantástico com a secura de um chão árido. Como se Graciliano Ramos tivesse tomado mescal ou coisa parecida. Mas o mais interessante é que depois destas publicações Rulfo passou muitos e muitos anos vivendo da fama alcançada sem conseguir produzir uma linha sequer. Isto curiosamente passou a ser um charme extra e tal qual um oráculo mudo gerou inúmeras interpretações e expectativas sobre o que estaria por trás daquele silencio. O que poderia (e deveria) ser mero bloqueio criativo passou a ser incensado como uma opção estética. Uma escassez Zen. Andei relendo Rulfo também depois de muitos anos. O que cá entre nós, não estimula muito a fecundidade.

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Após todo este longo prólogo divagante e antes que uma viúva da objetividade venha me acusar de digressão vamos aos fatos se é que isto é possível depois de tanta preguiça.


Depois de muitos anos ouvindo falar a respeito, finalmente caiu na minha mão a porra louquice estilizada de uma banda emblemática da loucura sessentista chamada Bonzo Dog Doo Dah Band. Só pelo nome da pra sentir, num é? Formada em 66 era um núcleo de Dadaístas amantes do Jazz e de um vaudeville hilário. Tem de tudo um pouco: imitações alucinadas de Elvis, gargalhadas, jazz tradicional, pianolas inconseqüentes e aberrações freak em geral. O nome do disco (primeirão da turma de 67) é "Gorilla" e tem me feito rir bastante.

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O vocalista Viv Stanshall era uma figurinha impagável que costumava colocar camundongos pra passear na sua cabeça. Prá quem gosta de Zappa, Sparks e quem não tem medo do ridículo é um prato cheio. Espanta o tédio e dá logo vontade de levantar da cadeira e fazer discurso contra o senso comum.


Outro petisco que ando ouvindo, bem mais confortável, quase almofadado, é o disco único do saxofonista, vocalista e tecladista chamado Pete Belasco, lançado no já distante ano de 1997. Como não tenho notícia que tenha lançado outro, deduzo tratar-se de um ocioso amante das poltronas e dos travesseiros de pena. Assim como o som é uma relaxante mistura de smooth jazz, soul music e pop bem feito. Ouvem-se ecos bem fortes de Marvin Gaye e Curtis Mayfield, o que já é um excelente sinal, mesclados com uns arranjos bem jazzy e uns falsetes que deviam ser obrigatórios em qualquer local onde se queira praticar o tantra yoga ou outras variedades sexuais mais simplificadas. Quando no meio daquela cama de cordas e hammond entra um vibrafone tocado na sutileza a gente abre um sorriso e porque não, chega à conclusão que a preguiça não e só um pecado, mas também uma forma de arte.


No meio de todas estas divagações sobre o fazer e o não fazer e as oportunidades criativas do lazer e do ócio, enquanto brincava de Titanic no Iceberg olhando pro copo de uísque, toca o meu telefone e aparece do outro lado da linha, clamando por atividade, o nosso conhecido bass blues man Ugo Perrota (Big Allanbick) que para minha enorme surpresa avisa que está confirmada uma tour brasileira (com Ugo tocando) do rei da cocada da guitarra hendrixiana nos dias que correm, o fantástico Eric Gales. Pra quem não conhece só há um conselho possível: Conheçam! O cara é inacreditável e foi praticamente adotado pela família de Jimi. Homônimo de um dos meus guitarristas de jazz preferido (o grande Eric Gale) comprei seu disco inicialmente por engano apesar de achar Gale um tanto remoçado na foto. Quando botei no cd player esperando aquelas oitavas bluesy e aquele fraseado característico tomei com uma pedaleira no pé da orelha e aí fui entender o que estava acontecendo. Guitarrista de rock e blues negro, pertence a uma dinastia de grandes guitarristas (seus irmãos Eugene e Many) que faziam parte dos The Gales Bros, uma usina azeitada de solos pra todo lado. O disco "Left Hand Brand" é uma Disneyworld pra quem gosta de guitarras. Tem umas influências de Vernon Reid e muito, muito Jimi. "That's what I Am" de 2001 foi produzido por Janie Hendrix (irmã do próprio) e é uma bela coleção de climas e solos lancinantes bem ao estilo do mestre dos mestres.

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No meio do nosso papo telefônico o Ugo chegou a dizer que num ato de suprema audácia e coragem o Homem (Gales) andou excursionando com Buddy Miles & Billy Cox reeditando a Band Of Gipsys. Né por nada não, mas este cara tem peito. Pois bem, os shows serão em início de junho e já me vejo sentado na primeira fila. Este não dá pra perder, não é mesmo?


Para quem tinha se programado para escrever sobre Tortoise, Eno e ambient music até que saí bastante do roteiro original, mas é que foi dando uma lezeira... Pensando bem esse papo de que o que move o mundo é o trabalho é coisa de quem quer te ver trabalhando. Uma boa parte de ócio é necessária para a gestação de grandes idéias e quem anda pra cima e pra baixo não tem tempo de prestar atenção no que vale a pena.

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"Habitante de orgias sonolentas, criador de um número infinito de teorias sobre o sono. Sono que não te leva à parte alguma, só para dentro... distâncias infinitas. Num pequeno navio de todas as nações levando piratas de um outro país".

(Carl Solomon)

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Sobre Cláudio Vigo

Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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