On The Road: Funky Friends

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Por Cláudio Vigo
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Sabe o que é um negão de calça boca de sino e uma Telecaster nervosa na mão fazendo "chacundum" prá todo lado enquanto um outro estala o baixo (slap) e um alucinado grita as dores da Mama África? Isto é Funk, minha gente... E do bom, não esta mistureba de lixo que andou agradando entre um bonde e outro nas periferias há um tempo atrás. Dois episódios estes dias me levaram direto pro "funk way of life", o que só me restou deixar cair e como um Sly Stone qualquer dizer: "Yeah... Yeah!"

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Se formos fazer o inventário das origens do gênero, este texto vai ficar didático e sacal (nada menos Funk que isto). O papo vai começar com umas quebradas de notas de Horace Silver, Ramsew Lewis, o Soul Jazz, James Brown e muita, muita gente... Gosto demais de tudo isso e sou um ouvinte inveterado do bom e clássico Funk dos sessenta e setenta, coisas como Kool & The Gang, Graham Central Station, Funkadelic & George Clinton, Earth, Wind & Fire, Tower of Power, Mother's Finest, Mandrill e tantos outros, que têm o poder de me remoer as vísceras e não deixar pedra sobre pedra nas guitarradas de gente como Johnny "Guitar" Watson. Pois é. Sem falar nos brazucas: a fantástica e ancestral Banda Black Rio e o impagável síndico de todos os condomínios e barracos: Mr.Tim Maia.

A primeira história traz como personagem central meu editor aqui no site, um mito do Hard Rock, o antológico Marcos "Socram" Cruz que, quando lembra, têm como hábito sagrado de todos os sábados uma santa trilogia composta de três imutáveis ítens: depois de um restaurador banho gelado às onze da matina (quando abre um olho) nosso herói enverga uma cueca arrematada em um leilão (Ebay) que pertenceu a Mark Farner (modelo samba canção psicodélico) e coloca suas inúmeras tattoos pra quarar no sol do interior paulista, enquanto monta e desmonta sua Harley Davidson com o "Live Álbum" do Grand Funk aos berros...


Dois mistérios insondáveis permanecem: como a vizinhança (um coronel PM aposentado) suporta e como que sempre sobrando de duas a três peças na remontagem da moto ela continua andando cada vez melhor! Uma vez perguntei sobre o enigma e ele, com uma expressão digna do Dalai Lama, soltou o veredicto: "O coronel se amarra no Grand Funk e a Harley eu tô aperfeiçoando". Depois dessa me calei, sentei na sombra e prestando atenção em um enorme gárgula tatuado que lhe varre os bíceps e tríceps, ouvi o inacreditável relato que se segue:

"Pois é... Vigo, tava eu remontando a caixa da reversão do câmbio convexo, olhando aqueles quatro parafusos que 'tavam ali me desafiando com sua inexplicável existência, quando entre um fabuloso solo e outro da guitarra do Farner, ouvi de longe palmas no portão... pensei comigo: 'caraca, é o comandante Jorge meu vizinho, que exagerou no aperitivo e começou a acompanhar o som nas palmas enquanto a patroa ferve o feijão'. Que nada, era um casal com cara de quem ia pedir pra capinar meu jardim, ou quem sabe, Testemunhas de Jeová que ao testemunhar a visão da minha pessoa nas cuecas psicodélicas, a graxa e os tattoos fossem iniciar um exorcismo imediato. Como já passava das duas da tarde o segundo olho já se abrira e eu consegui enxergar melhor e ouvir a pergunta: 'sabe seu moço nóis sempre passa aqui na frente e fica ouvindo aquela musiquinha pela janela e minha mulher ouvia muito isso...'


Caramba Vigo... pensei que ia pirar! Que som era esse? Será que essa mulher era a Grace Slick que já tava neste estado? O tempo passa né? Que som era este? Foi quando ouvi a capiau geriátrica entoando o mantra sinistro: "uh uh uh... que beleza!". Tava desfeito o enigma, era o disco do Tim Maia, do tempo que ele fazia parte da seita Universo em Desencanto."

Epa! Disse eu, aí o bicho pegou. Esta seita tinha como luminares nos anos setenta figuras como Lady Francisco, João Roberto Kelly e o Tim e se baseava na leitura de uma interminável coleção de livros onde estavam desvendados todos os enigmas da vida. Só de imaginar Lady Francisco desvendando os enigmas da vida me correu um suor gelado espinha abaixo.

Lembrei também na hora de um episódio recente, quando uma banda de coreto alucinada invadiu o parquinho onde estava com meu filho, e o moleque se amarrou na evolução das bandeiras coloridas e no hinário doido puxado por um sujeito de quepe de general que vim a reconhecer como um louco completo que havia estudado comigo e era a coisa mais freak da escola. Tava lá todo estufado de General da Banda naquela de "me leva eu". Saí dali com a criança apavorado.


Os discos que Tim Maia gravou nesta época tem letras inacreditáveis e uma sonzeira de primeira, parece bastante com o que os Isley Brothers estavam fazendo na época. Muito legal mesmo.

Pois bem, voltando ao impasse, eis que o nosso mecânico Hard Zen descobriu que a tal senhora havia passado seus momentos mais felizes embalada no mais puro Funk brazuca e que estes discos eram sua Madeleine (ou Broa de Milho) proustiana e que a busca do tempo perdido estava em ação.

O fim da história foi inusitado, com um K7 gravado com os mantras black carregado como relíquia pela senhora, enquanto nosso amigo era convidado para participar de um típico arrasta-pé, que podia ser no Apollo Theater ou na pracinha que o Funk tava comendo. Tal qual um midnight rider, dizem que nosso herói chegou roncando sua Harley (três quilos mais magra de peças) em busca da perfeição imaginária, e que depois de uma seção de pinga com groselha teve uma miração e os portais do universo em desencanto se abriram com Lady Francisco dizendo: "Vêm que têm...

Caramba.... Fiquei até arrepiado com a história. Reza a lenda que o fruto desta experiência fez milagres e o segundo olho do rapaz já abre antes das onze da manhã. Nem São John Coltrane é capaz de explicar isso. Impressionante!

(Nota do Editor: não acreditem em tudo que Mr.Vigo diz, parece que aquele "chazinho" que tomou quando esteve em casa bateu legal, a ponto dele enxergar gárgulas tatuados e acreditar que minha moto é uma Harley...)


A outra história têm como personagem outro antológico e mitológico amigo, o falso blueseiro e rei do air guitar Chicozé, uma das lendas vivas (ou quase) do underground Carioca.


Pois bem, uma estranha experiência ocorreu dia destes na minha casa. Estávamos ouvindo entre um comentário e outro o décimo show de Johnny Winter seguido (uma obsessão do homem) quando, depois de comparar as nuances mínimas de inúmeras versões de "Jumping Jack Flash" que só um João Gilberto poderia perceber, eis que me revoltei e sem nenhum espírito democrático resolvi colocar à força um disco ao vivo do mago do Jazz Funk, o vibrafonista Roy Ayers. Aí se deu o milagre, quando "Everybody Loves The Sunshine" começou com o indefectível acento Funk e aquela levada ensolarada, meu amigo foi acometido de uma síncope de treme-treme digna de uma malária ou algum outro mal tropical. O homem mexia todos os músculos convulsivamente, enquanto o beiço ia crescendo, o cabelo eriçando e no fim o boogie man (quase um redneck sulista) havia se transformado num James Brown, quase um Toni Tornado!

Depois de passado o susto, quando me vi no espelho estava igual e enquanto um solava alucinadamente na guitarra o outro elegantemente mandava ver nos vibes sintetizados. Se Caetano e FHC dizem ser neguinha porque nós não podemos?


Pra quem não conhece ainda, só posso dizer que Roy Ayers é simplesmente imperdível e seus discos ao vivo no Ronnie Scott londrino são impossíveis de ouvir parado. Meu amigo saiu de lá enlouquecido e hoje é possuidor de inúmeras destas pérolas (me cedendo gentilmente uma cópia de cada uma).

(Nota do Editor: "Cedendo gentilmente"? Tou sabendo que Chicozé teve de ir resgatar os discos munido de um AR-15... Por outro lado, que história é essa de dois branquelões como vocês se sentirem como legítimos negões black-power? Que que 'cês andam tomando por aí?).

Uma mistura bastante equilibrada de virtuosismo instrumental (o guitarrista, o saudoso Zachary Breaux era animalesco), grooves e apelo comercial na medida certa.


Estas duas histórias funky destes dois amigos me encheram de entusiasmo e estou combinando com Chico uma visita urgente ao nosso amigo Hell'Angel no interior paulista, aquela pobre senhora não pode passar o resto de seus dias na ignorância do Roy Ayers. Mas confesso que tenho receio de alguns detalhes: da visão da cueca do Mark Farner, do vizinho PM e que na miração fruto da pinga com groselha, quando os portais do desencanto se abrirem quem apareça é o fantasma do Tim Maia falando: "Vêm que têm!"


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Sobre Cláudio Vigo

Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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