O baterista que Neil Peart disse que "não veremos outro igual"
Por Bruce William
Postado em 11 de janeiro de 2026
Neil Peart foi daqueles músicos que deixavam a própria obra falar por ele. Mesmo assim, vez ou outra aparecia uma pista do que ele observava como baterista - não só técnica, mas visão de conjunto, espírito de banda, a função do instrumento dentro da música. E, quando o assunto era influência, ele nunca escondeu o impacto que teve ao ouvir o The Who.
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A admiração, no entanto, vinha com uma ressalva curiosa: Peart queria tocar em bandas que faziam covers do Who, mas não necessariamente queria tocar como Keith Moon. Ele mesmo resumiu esse choque entre paixão e prática de um jeito bem direto: "É irônico que eu quisesse estar numa banda que tocasse músicas do The Who e, quando finalmente entrei em uma, descobri que eu não gostava de tocar bateria como Keith Moon. Eu tive a sorte de ver o The Who muitas vezes no fim dos anos 60 e no começo dos 70, e foi muito triste ver ele declinar e morrer consumido pela pura exuberância da vida dele. Houve muitos outros grandes bateristas que me ensinaram coisas e me inspiraram, mas um como ele, não veremos outro igual."
O ponto aí não é "quem era melhor", porque Peart e Moon operavam em chaves diferentes, esclarece a Far Out. No Rush, muitas viradas e desenhos rítmicos do Peart funcionavam quase como composição: você pensa em "Tom Sawyer" e o cérebro já puxa aquela quebra de bateria no meio, antes do verso final. É uma assinatura que não depende de volume nem de "força", e sim de arquitetura - a bateria como parte do argumento da música.
Com Moon, a sensação é outra: ele empurrava o instrumento para a frente, como se a bateria também fosse um "solista" dentro da banda. Em "Won't Get Fooled Again", tem um momento que sempre chama atenção justamente porque, antes do trecho mais conhecido da música, ele despeja uma sequência de viradas que parece não acabar, e quando o resto da banda entra junto dá aquela impressão de porta se fechando no lugar certo, na hora certa.
Peart enxergava o que muita gente percebe intuitivamente ao ouvir Moon: não era "bagunça" por falta de controle, era um jeito de tocar em que a energia manda, e o risco faz parte do resultado. Só que isso tem um preço - e o próprio Peart menciona que foi duro assistir à decadência do baterista do Who naquele período, como se a mesma exuberância que encantava no palco cobrasse juros fora dele.
Ainda assim, dá para notar como certos traços desse espírito entram em Peart, mesmo quando ele faz o oposto do "improviso total". Em solos, por exemplo, ele preferia organização, construção, começo-meio-fim. Mas quem presta atenção consegue perceber aquela ideia de "bateria como narrativa", que no Moon parecia espontânea e, no Peart, virava algo lapidado, encaixado no desenho do show.
Tem uma parte triste inevitável nisso: muita gente nova nunca vai ver Keith Moon em sua forma mais explosiva, porque isso ficou preso a um tempo, a um palco e a um corpo que já não existe. Ao mesmo tempo, ficou o que o próprio rock tem de mais concreto: gravações, registros, vídeos, e aquela sensação de urgência que atravessa décadas quando você dá play e entende por que um músico do nível do Peart olhou para aquilo e disse, sem rodeio emocional, que "um como ele não veremos outro igual".
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