Nada mais depressivo que um domingão chuvoso. Já se escreveu uma penca de tratados sobre isso. O tal radinho do porteiro, a pizza engordurando os corações e mentes, um gosto de cabo de guarda chuva na boca e a lembrança que não vai ser nesta segunda feira que sua vida vai mudar definitivamente. Antes que o leitor pegue aquela cartela inteira de Lexotan e mande pra dentro junto com uma garrafa de conhaque Palhinha, só posso dizer: muita calma nesta hora... afinal de contas quem sabe não te dá uma louca e você acorda amanhã a bordo de uma Harley achando que o Alabama é aqui?
Pelo menos o período eleitoral e seus simulacros canhestros se foram. Os canastrões de sempre e alguns novos devem estar comemorando a proximidade do botim. Enquanto a malta se estapeava no vídeo atrás do meu voto eu lia e ouvia algumas coisinhas lançadas recentemente que só de lembrar dá pra iluminar um pouco este ocaso domingueiro. Vamos comentar?
Sempre que alguém enche muito minha paciência com cobranças e conselhos costumo ter uma fantasia escapatória que costuma funcionar. Penso comigo: porque eu não viro um Hell Angel, deixo a barba crescer até o pé e vou de moto até o Alaska? A figura do motoqueiro sem destino (verdadeiro cavaleiro andante do Séc XX) povoou as mentalidades ocidentais desde o Selvagem de Marlon Brando que já havia inaugurado uma maneira de ver o mundo com aquelas camisetas aparentes (até então roupa intima igual cueca) no Bonde Chamado Desejo. Daí em diante, James Dean, Jack Nicholson e toda sorte de rebeldes sem causa partiram para a fama e pro primeiro plano. Revolta, roupas justas, ataques de siricotico existencialista. Hoje tudo isso é mainstrean, naquela época novidade absoluta. Contra cultura dominante, a margem das margens, ou seja, coisa de marginal. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial uma nota destoava o coro dos contentes do dourado apogeu Yankee. Uma galera que voltou uma tanto traumatizada de tanto sangue, suor e lágrimas e viu que a guerra era um pouco além do que mostrava Hollywood, resolveu simplesmente andar pro sonho americano e sair por aí sem nenhum compromisso que não fosse queimar gasolina e tudo mais que estivesse disponível.
Uns caras violentos, individualistas, com pouca cultura, racistas, verdadeiros anjos tortos de um inferno que pouca gente enxergava na época quando o mundo todo parecia cor de rosa. Até que o mofo subterrâneo da torta americana começou a trazer um gosto estranho e os desvios do caminho principal ficaram evidentes. Como de hábito o próprio sistema fagocitou o vírus e devolveu sob forma de sensacionalismo e propaganda.

São histórias e mais histórias, detalhes sórdidos e um belo panorama histórico do fenômeno. Sempre li bastante sobre Hell Angels, Altamont, Acid Tests etc, mas foi a primeira vez que pude sacar de perto o que vai pela cabeça (se é que algo vai) dos caras. Como nunca estive nos EUA a minha experiência com Hell angel´s não vai além das oficinas da Rua Ceará e da lembrança de um show no Circo voador onde Serguei adentrou como Cleópatra dos trópicos carregado por parrudos Angels tatuados e barbudos. Seria curioso se não fosse hilário. Outro dia na Dutra vi um bando de senhores grisalhos todos de preto ou de jaquetas jeans surradas com o fatídico emblema com um monte de bonecas e caveiras penduradas nas motos fazendo uma cara de mau terrível. Não pude deixar de rir (muito) e compartilhar o fascínio com meu filho de seis anos que estava junto. Os caras pareciam vilões de desenho japonês.
E o livro? Ora o livro é excelente e devorei numa noite ouvindo um monte de coisas da época pra dar um clima. Detalhe: me recusei a escutar Steppenwolf e "Born to be Wild". Clichê tem limite!

Eu que nestes dias tinha tanto horror da Disco Music quanto do punk enquanto me entupia de Yes e Pink Floyd pude fazer uma mea culpa retrospectiva e verificar (com mais propriedade e elementos) o quanto de carne existia debaixo deste angu. Imperdível para quem gosta de rock ou se interessa por fenômenos de cultura de massa ou simplesmente quer se entreter com o relato de quantas vezes Lou Reed se entregou para aquele marinheiro sueco.

Para não dizer que todas estas dicas são pra ler a seco vamos as recomendações do que andava nos meus fones enquanto lia estes inventários de beira de abismo.


Se há dez mil anos (com queria Nelson Rodrigues) o mundo começou em Flax Flu, mais ou menos na mesma época a humanidade foi dividida entre a Verve e a Blue Note. Pois bem... neste inventário de cicatrizes que vivemos tem uma montoeira de DJ boys escarafuchadores de catálogos em busca de um semitom, um clima cool, uma pose heterodoxa pra misturar com uns baticuns e fazer o modelito arte do futuro (alta gastronomia de microondas) e viajar na maionese do passado.
Estariam passando do ponto? Enquanto isso tome releituras. Pois me chegaram no ouvido duas reciclagens destas. Uma bem mais encorpada funky e jazzy, coisa de negâo (Blue Note Revisited) onde Kenny Dope, quatro Hero, Madlib, Kyoto jazz Massive etc... revisitam e requentam pérolas de Donald Byrd, Horace Silver, Brother Jack Mc Duff, Grant Green e Wayne Shorter. O resultado ficou bom, apesar de às vezes o original ser solicitado imediatamente e a versão sem glacê ser mais encorpada e menos calórica (Donald Byrd, por exemplo, naquelas crioulices seventies). Às vezes o excesso de creme atrapalha, noutras dá um sabor inusitado. A capa - Uma crioula difícil (salve Tião Macalé - Nojento...) um Porshe e umas poses, totalmente setenta. Vale a pena, mesmo que a dose tenha que ser diluída em água.
A Verve... bem, a verve era a pátria do cool e da branquelada junkie west coast. Pois não é que depois dos dois volumes de Verve Remixes e muitas outras aventuras os sujeitinhos modernetes do Thievery Corp (os trip hop greats) fizeram uma seleção latinosa e estilenta. Hummm... tem de tudo um pouco, até Astrud Gilberto cantando "Light My Fire" com voz de pouco fogo, muitas coisa brazucas e cubanitas. Isso era o que meus pais ouviam enquanto almoçávamos no Le Petit Paris que tinha como pianista um cara barbudinho que atendia por Sergio Mendes... Entreguei a idade? Pois é... ou era...

Nem tudo que se recomenda é confiável. Alguns destes acepipes pode entalar nas gargantas mais sensíveis. Mas para quem encara aquela calabresa requentada no domingo vendo resenha esportiva onde um cara de peruca e unha pintada vocifera contra a decadência do Futebol Brasileiro e fala em nome de Jesus, no mínimo tem que experimentar. O cara da peruca acaba inevitavelmente candidato. E quase sempre inicia uma vertiginosa carreira política. A pizza causa aquele desconforto no dia seguinte e domingo a noite costuma repetir toda semana. Se a ressaca é inevitável pelo menos vamos alegrar um pouco o caminho e esquecer do Lexotan e do conhaque Palhinha.
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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