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Janis, Kaleidoscópio e Jethro Tull

Por Luiz Carlos Barata Cichetto | Em 27/03/03
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"Não, você nunca é velho demais para o Rock'n'Roll se é jovem demais para morrer." - Ian Anderson

::: FAL'A BARATA

Esta é quarta edição da Colun'A Barata no Whiplash! À parte as dificuldades pelas quais passamos todos nós que ousamos divulgar cultura este pais sob que forma for devo aqui, usando o espaço do Whiplash, me dizer totalmente feliz por ainda existirem pessoas que acreditam em nosso trabalho, que usam a Internet para acrescentar conhecimentos, informações. Recebi inúmeros e-mails comentando sobre esta coluna o que me deixa bem mais do que com o ego arrebentando igual uma cigarra, me deixa esperançoso de que ainda podemos, com nosso trabalho de formiguinha (baratatinha?) mudar o mundo, sim. Podemos mudar o mundo a partir do momento em que conseguimos mudar uma pessoa. Sempre acreditei no sonho, e vou continuar acreditando. Afinal, "Sonho que se sonha só..." e Rock é Atitude! . Agora, boa leitura e vou andando que pedra que rola não cria limo! Até a próxima.


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::: PROS'A BARATA

O DIA EM QUE TRANSEI COM JANIS JOPLIN

Era uma estranha máquina, ali estática cheia de lâmpadas piscando. Andei de um lugar ao outro procurando por alguém que explicasse que diabos de trambolho era aquilo. Ninguém. Ou quase! Parado em um canto um pequeno camundongo de jaleco branco, usando um par de óculos sem aro e uma pinta bem acima do focinho, coçou com sua patinha o olho por baixo das lentes e disse:

- É uma máquina do tempo!

- Quê? - Perguntei.

- Uma máquina do tempo, seu estúpido! Gritou bem irritado o camundongo.

- Mas...

- Ora, ora, seu estúpido... Acaso não sabes o que é uma máquina do tempo...? Uma máquina que pode viajar pelo tempo...

- Sei, sei. Sei o que é uma máquina do tempo... mas...

- Mas... ah, já sei, nunca escutou um camundongo falar, é isso?

- É, nem quando dou uma "cheirada"... Acho que aquela maconha tinha alguma coisa estranha...!

- Hã hã....! Não tinha nada errado com aquela maconha...Eu mesmo usei e era da boa!

- Ah, sei... é um sonho! Ou pirei de novo! Ah, não... aquele manicômio é tão esquisito... Dão choques na gente... e nos culhões... E tem umas baitas ratazanas nojentonas que tá loco...! Ah desculpe, não queria ofender tua mãe...

- Pára com essa conversa... Tá me enchendo! Vai querer saber mais sobre a máquina ou não?

- Claro, claro! Mas quem é você?

- Um camundongo, seu burro...! Tá bom desculpe... sou na verdade uma cobaia de laboratório. O cientista que construiu essa máquina, em 2070, me mandou para cá.

- 2070!!!! Caralho! (o caralho eu só pensei, não falei, pois meu amigo poderia não entender nem gostar).

- È, 2070. O cara é fissurado, maluco, usa droga pra caralho... (ih, ele disse "caralho").

- Mesmo? Um cientista chapado...

- É... ele usa uma droga chamada macraina, que é uma mistura de maconha, crack e cocaína e leva uma pitada de bosta de nenê... Uma grama e o cara pira um mês...

- Porra! E você tem alguma aí?

- Não! O cuzão do cientista usou tudo! Vai ficar louco uns dez anos. Dá pra eu viajar no tempo uma porrada de tempo e ele nem vai perceber.

- É mesmo!?

- Bom, chega de conversa besta! Você vai querer saber mais da máquina ou não?

- Por que eu?

- É que você tem uma coisa desenhada na camisa que tinha em vários lugares dentro do laboratório. - Disse o camundongo apontando minha camiseta onde estava estampada uma foto de Janis Joplin.

- Tá falando dessa foto? Da Janis?

- É isso aí! O Dr. Hendrix é fissurado por essa mulher ai!

- Dr. Hendrix!!! - Dei um berro. - É esse o nome do cara? Tá me gozando, o rato paspalho!

- Tô não! Por quê?

- Deixa pra lá...É uma história longa demais pra te explicar agora! Mas o cara, em 2070 é fissurado em Janis? Não acredito!

- Ele dizia que tinha inventado a macraina pra poder ficar igual a ela. E que queria construir a porra da máquina do tempo e voltar cem anos no tempo pra conhecer a tal Janis.

- Putaquepariu! - Gritei.

- Isso aí, meu chapa! E não é só ele, tem muita gente lá que curte Janis, Stones, Lou Reed, Bowie, todos esses caras...

- 2070, 2070, 2070, 2070, 2070. - Fiquei repetindo que nem besta. - Curtem Janis em 2070!

- Mas e aí, você não vai me ajudar?

- Como assim, te ajudar?

- Seguinte, o porra do Dr. Hendrix tava muito louco quando me colocou dentro da máquina. Meu destino era a época em que a tal Janis estava viva. Eu tinha que levar alguma coisa pra mostrar que era possível chegar. Ai eu voltava e ele se picava para a época. O problema é que ele esqueceu de programar a época certa... e ai eu vim parar aqui... O problema é que não sei direito a época...

- Ok! Te digo a época. Pode colocar aí...

- Espera aí... você acha que eu vou sozinho?! Tá louco? Acha que vou confiar em você?

- Mas não é isso...

- Você vai comigo...! Afinal você também parece que gosta da tal.

- Tá...gosto! Quer dizer amo!...Quer dizer... mas viajar nessa engenhoca... junto com um...

- "Camundongo branco de jaleco branco e óculos, que fala". É isso que você ia dizer, né? Preconceituoso!

- Porra, não é preconceito. É...

- O quê, então?

- Deixa quieto! Mas eu não caibo dentro dessa porra dessa máquina!

- Deixa de ser burro! Você pensa que vai entrar dentro da máquina? Isso não é ônibus, compadre!

- Mas que rato petulante, você, não?!

- Hahahahaha! - O camundongo soltou uma gargalhada. - Vai querer ir ou não?

- Vamos nessa! Afinal a possibilidade de conhecer Janis pessoalmente com certeza me faz correr qualquer risco.

O camundongo pulou perto da máquina, apertou um botão e uma espécie de escotilha abriu exibindo uma espécie de teclado e monitor de computador.

- Vamos lá! Pra que ano nós vamos?

Pensei um pouco sobre as várias épocas em que seria legal conhecer Janis. "Monterrey Pop, em 68? Não! Woodstock, em 69, também não, muita gente nesses dois lugares...Ah, já sei, em 1970, meses antes dela morrer. Rio de Janeiro, Carnaval...". E berrei para o camundongo que me olhava com uma enorme interrogação estampada e com os bigodes se mexendo sem parar:

- Fevereiro de 1970, Rio de Janeiro!!!

- Mas ela não era americana, de uma cidade chamada Port Arthur, no estado do Texas? Pelo menos foi isso que o Dr. Hendrix descobriu.

- É isso. A informação é correta, mas ela esteve no Brasil ... deixa quieto. Você vai ver!

O camundongo apertou umas teclas com suas miúdas patinhas e de repente um mapa da cidade do Rio de Janeiro pulou na tela.

- È isso! Gritei. Vamos, vamos! - Comecei a ficar cada vez mais ansioso. - Vai logo com isso!

- Calma, cara! Pensa que isso aqui é o metrô! Tem muitos ajustes de freqüência pra fazer, senão a gente acaba indo para um lugar totalmente errado, ou se misturando... e eu não estou a fim de ficar com uma cabeça enorme de humano no lugar de minha pequena e delicada cabecinha.

- Ok, camundongo! Cara chato!

O camundongo ficou ali, quieto, vez ou outra ajeitando os óculos, mexendo umas teclas, apertando uns botões. Depois de um certo espaço de tempo, soltou um barulho que parecia mais o relincho de um cavalo.

- Yeah! Está pronto! - Apertou um botão e uma espécie de plataforma saiu de dentro da máquina - Suba aí!, Ordenou o camundongo.

Uma sensação de medo me fez tremer e gelar por completo e pensei em desistir.

- Tá com medo, palhaço? - O camundongo agora ria.

- É tô sim! - Mas um filme, aquele mesmo que já assistira centenas de vezes, "Janis", começou a passar dentro da minha cabeça, numa velocidade espantosa. - Onde subo? Aqui?. - E dei uns dois passos e subi na plataforma.

O camundongo apertou uma tecla e rapidamente veio se instalar sobre o meu ombro esquerdo.

- Yuhaaaaaaaaaaaaaaa! - Gritou ele. - Janis Joplin, aqui vamos nós.

Depois de alguns segundos e sem que eu tenha notado nenhum barulho, luzes ou qualquer outra anormalidade, me vi, com meu amigo camundongo no ombro, parado em plena Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. De repente, levei um encontrão de uma mulher que cambaleava bêbada, e quando me virei, pronto para xingá-la, vi que era...

- Puta que pariu! Janis!!!!!!! - Soltei um berro.

- Do you know me? - Ela perguntou. Mas, ao mesmo tempo olhou para minha camiseta que tinha sua foto embranqueceu. - Oh, shit! It's me in you T-shirt?

- Yes, it´s you! I love you! "Combination Of The Two", "I Need A Man To Love", "Summertime", "Piece Of My Heart", "Ball And Chain", "Me And Bobby McGee", "Cry Baby", "Mercedez Benz", "Trust Me", "Kozmic Blues", "Cry Baby", "Move Over"... e comecei a recitar os nomes de todas as suas músicas, excitado, quase às lágrimas; parecia que meu coração e minha cabeça iam explodir...

- Yes, man!!!!!!!!! Uau!!!!!!!! Mas tem música ai que é do meu próximo disco, o "Pearl"... como você conhece?

E ai sem mais nem menos ela começou a conversar comigo em um bom e velho idioma de Camões...

- Janis, eu a conheço e a amo há trinta anos!

Janis deu uma gargalhada, daquelas que lhe são peculiar e disse:

- Como você pode me conhecer a trinta anos, se eu tenho 27?

Ai me dei conta da mancada e tentei disfarçar.

- Não, Janis, não trinta, no thirty. Thirteen, treze!

- Oh, yeahhhhhhhhhh! Ela disse. De Port Arthur?

- Port Arthur, Texas! - Tentei caprichar um sotaque de cowboy texano.

Enquanto ela falava eu não despregava os olhos de seus eretos mamilos explodindo pela blusa rendada. Não podia acreditar no estava acontecendo. Janis, ali, parada em minha frente, com seus mamilos eretos, seus óculos redondos, cabelos despenteados... e um enorme bafo de bebida!

- Me paga uma bebida, man?

- Claro, Janis!

Entramos em um fedorento e imundo boteco, o primeiro que encontramos e começamos a beber. Claro que Janis chamou a atenção, mais pelas suas roupas e modos. Não podemos esquecer que estamos em 1970 e além de suas roupas e atitudes serem totalmente estranhas por aqui, ainda, ela era praticamente uma desconhecida. E muita gente também não entendia porque eu tinha a foto da minha amiga estampada numa camiseta. Ri em pensamento daquela situação. Janis ria muito, falava sem parar e num dado momento, sem mais nem menos, soltou: "Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz? /My friends all drive Porsches, I must make amends. / Worked hard all my lifetime, no help from my friends, So Lord, won't you buy me a Mercedes Benz? ..." . Cantou "Mercedes Benz" ali, de pé naquele bar, com um copo de Fogo Paulista na mão e um cigarro na outra.

- Gostou? - Ela perguntou.

- I love! - Respondi-lhe sem conseguir conter minhas lágrimas. "Mercedes Benz" é minha predileta.

E Janis pediu outra bebida e ficou ali, tamborilando os dedos no balcão com os braços cheios de pulseiras, vez ou outra balançando os quadris ao som de uma música que só ela ouvia. E eu ali, extasiado, até que uma hora não agüentei mais e segurei-a pelos ombros e soquei-lhe um sonoro beijo na boca.

- Ooh! - Oh, man! Do you love me? - Ela soltou.

- Yes, Janis! I love you. "Take another little piece of my heart now, baby!"

Uma sensação estranha tomou conta de mim, um misto de alegria incontrolada e tristeza. Irrompi em um choro quase convulsivo. Abracei Janis e banhei seu rosto com minhas lágrimas. Ela perguntou,

- Porque, cara, está chorando!

- Emoção, Janis! Emoção! Canta "Ball And Chain".

Janis pediu uma vodka, ajeitou-se e sublimemente soltou a voz:

"Yeah! Alright!/ Sittin' down by my window, / Honey, lookin' out at the rain. / Lord, Lord, Lord, sittin' down by my window, / Baby, lookin' out at the rain. / Somethin' came along, grabbed a hold of me, /And it felt just like a ball and chain. (..)"

As pessoas que estavam ali naquele bar, garçons, putas e o próprio dono se levantaram e urraram. Começaram a trazer bebidas e então ficamos nós, ali, bebendo e fumando. Janis cantou outras músicas e depois saímos andando até o hotel onde ela estava hospedada.

Apanhamos as chaves e subimos as escadas, bêbados e abraçados. Janis entrou no quarto, foi até o bar e pegou outra bebida e me ofereceu um trago. Bebemos ali, no mesmo copo e ela começou a cantar "Summertime":

- "Summereeeeeeeeeeeeeeertime!, time, time, / Child, the living's easy. /Fish are jumping out /And the cotton, Lord, /Cotton's high, Lord, so high. ..." E o verão carioca nunca foi tão quente.

- Cryyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy Baby! /Honey, welcome back home. (...)"

Nesse momento, Janis começou a chorar e falar:
- "I Need A Man To Love". Tentou começar a cantar: "Who, I need a man to love me. / Don't you understand me, baby? /Why, I need a man ...", então encostou o rosto em minha camiseta onde estava estampada a sua foto e permaneceu ali durante alguns minutos, quieta, apenas soltando pequenos gemidos.
E depois o mundo silenciou! Aquele dia, bebemos e nos amamos.

- "Like a ball and chain!"

E depois nada mais parecia existir. Aquele dia eu nasci!

- "All is loneliness /Loneliness here for me /Loneliness here for me ..."

E depois meu coração quase parou!

- "Everybody's got it, / They're all trying to feel it /Everybody's dancing and singing romance /And they want to feel more, baby!..."

E que nunca existiu uma mulher como Janis. E a última coisa que me lembro, daquela noite foi "Down on me, down on me, / Looks like everybody in this whole round world /They're down on me. ..."

Quando acordei de manhã, Janis tinha sumido. Vesti minha camiseta e sai do quarto. Procurei-a durante muito tempo e então lembrei-me que como eu havia chegado até ali. Onde estaria o camundongo de óculos? Em meu êxtase por encontrar Janis, esqueci-me completamente dele. Repentinamente, olhei sobre meu ombro esquerdo e ele estava ali.

- Ei, cara!

- Onde você esteve?

- Sempre estive aqui!

- Sério? Até mesmo...

- Mesmo lá!

- O que achou dela?

- Ela é fantástica, sublime, maravilhosa, sensacional. Quando voltar e contar a Dr. Hendrix ele vai entrar em êxtase. E sem a macraina.

- Só fico triste em saber que daqui a poucos meses ela estará morta!

- Não fique triste, cara! Ela vai ser eterna em sua mente, em seu coração, vai alimentar os sonhos, as alegrias e tristezas de muitas e muitas gerações ainda. Em outras palavras, ela é eterna.

- Ok, camundongo... alias, acho que preciso voltar pra minha época.

- Certo. Vamos ajustar as coordenadas.

Dito isso, o camundongo apertou algumas teclas, baixou aquela plataforma e em no segundo seguinte eu estava naquele mesmo local onde eu o encontrara.

- Bom, cara, preciso voltar. O Dr. Hendrix já deve ter acabado sua viagem de macraina e preciso contar a ele sobre nossa jornada.

- Ok. Mas não me dei conta, como é seu nome, camundongo?

- Sergei! O Dr. Hendrix disse que é também em homenagem á ela.

- E é! - Falei.

Sergei levantou os óculos redondos, deu uma piscada e depois teclou a configuração de seu retorno. Pude ver na tela do seu monitor o destino.

- Mas, esse endereço, Sergei... de onde é esse endereço?

- Do laboratório do Dr. Hendrix.

- Não pode ser!

- Porque não?

Gelado, dos pés á cabeça, quase não conseguindo falar, mal balbuciei:

- Porque esse endereço é exatamente o da minha casa, hoje!!!

O camundongo permaneceu um instante em silêncio, depois apertou a última tecla e... sumiu.

Ajoelhei no chão e com a mente queimando espalmei as mãos em minha camiseta. Algo estranho tinha acontecido com ela. Retirei-a do corpo para poder examiná-la mais de perto e percebi que em lugar daquela estampa industrial existia uma imagem real, parecendo ter sido estampada com sangue diretamente pelo rosto de uma pessoa. Segurei aquela camiseta e em prantos consegui ainda gritar:
- Jaaaaaaaniiiiiiiiiiiiiiiiis!

Minha mãe me chacoalhou:

- Esta na hora de acordar, vai dormir o dia inteiro? Tem que trabalhar!

Transpirando muito, com as roupas empapadas de suor, resmunguei:

- Já vou, mãe! Tava tendo um sonho legal!

- É, é só isso que você faz, mesmo! Sonhar!!! Pára de sonhar!!!

"Puxa", ainda pensei, "Que pena que foi apenas um sonho."

Nesse momento, minha mãe olhou em direção a minha camisa e espantada resmungou:

- Que merda você fez com sua camiseta? Tá toda suja de sangue.

Olhei para minha camiseta que tinha esquecido de tirar antes de dormir, uma camiseta com a foto de Janis Joplin estampada e percebi que e lugar daquela estampa existia uma imagem real, parecendo ter sido estampada com sangue diretamente pelo rosto de uma pessoa...

E de algum lugar, vinha um som, e parecia que era de dentro da minha cabeça:
"Yeah!!! /Yeah!!! / Whoaa ... yeah!!! / You thought you had found yourself a good girl, / One who would love you and give you the world. / Then you find, babe, that you've been misused, / Come to me, honey, I'll do what you choose. / I want you to / Well, tell mama / Tell all about it. / Well, tell mama / What you need / Tell your mama, babe, / What you want. / Tell your mama, babe".

Luiz "Barata" Cichetto
12/08/2001


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::: POESI'A BARATA

PINTAR DE BRANCO
(Não Mais Um Triste Blues)

Estou cansado de ser triste e deprimido
Ter alegria apenas em um comprimido
Cansado de beber até cair bêbado no chão
E cansado de rolar na cama, cair do colchão.

É, é, estou cansado de cair na beira do esgoto
Cansado de ter o desejo ressecado no escroto
Quero dinheiro e gastar com as putas das ruas
Dinheiro, e gastar, e gastar comprando peruas.

Muito cansado mesmo é de chorar meu cansaço
E cansado de não correr depois do gol pro abraço
Estou cansado, de cantar apenas tristes melodias
Quero cantar a alegria do sol, a alegria dos dias.

Cansado de chorar em um canto, em canto chorar
Quero agora meu encanto, meu encanto quebrar
Deixar meu pobre blues, meu blues de outra cor
Pintar de branco, porque é a branco é cor do amor.

Luiz "Barata" Cichetto
15/12/2002


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::: CRÔNIC'A BARATA

UM KALEIDOSCÓPIO SONORO

Escolha a sua trilha sonora: Premiata Forneria Marconi - "Celebration", Focus - "House Of The King, Ufo - "Lights Out", Black Sabbath - "Black Sabbath", Jethro Tull - "God" e "Aqualung", Aerosmith - "Dream On", Iron Butterfly - "In A Gadda Da Vida", "Bad Company", do Bad Company Qualquer uma do Walter Franco ou do Jorge Mautner...

Meia noite, ao som de "House of the King", do Focus ou "Celebration" do Premiata Forneria Marconi (uma banda do chamado "rock progressivo" italiano) ia ao ar, pela Rádio América de São Paulo, o Kaleidoscópio, apresentado por um sujeito misterioso de nome Jacques.

Entendendo o contexto:

- A época era o fim dos anos 70.

- Não existiam praticamente emissoras de FM, e o que existia era apenas som ambiente.

- A Rádio América era uma rádio com programação popular, "brega" mesmo.

- Rock era coisa fechada, de grupos seletos, a mídia (especialmente a grande) o ignorava.

- Existia uma cultura realmente alternativa, com poetas querendo mudar o mundo com poemas mimeografados.

- Artistas como Walter Franco, Jorge Mautner e outros faziam shows em teatros pouco maiores que a sala da sua casa.

- Internet e Informática eram sonhos, fantasias distantes.

- John Lennon ainda pregava o sonho que se ainda podia imaginar.

- Raul Seixas ainda perambulava bêbado pelas ruas de São Paulo.

- A ditadura no Brasil ainda não tinha acabado.

É neste cenário que surge um programa de rádio apresentado por um locutor de fala mansa, sempre "acendendo um cigarro", que entrevistava músicos desconhecidos, poetas mambembes (gente como Walter Franco, o poeta Nano e outros) e tocava o bom e querido Rock and Roll.

Jacques era um cara muito louco, parecido com John Lennon pós Beatles e a gente ficava acordado até as 2 da manhã (haja sono no outro dia) para escutar seus papos, entrevistas e muito Jethro Tull, Pink Floyd, UFO, Stones, Focus, Status Quo, Iron Butterfly, Premiata e outros num rádio de pilha. O programa durou muito pouco, mais ou menos um ano, se transferiu para a então Rádio Excelsior AM (que era a segunda emissora da Globo e é a atual CBN). Excelsior e Difusora, também em AM, (a Difusora era a segunda da Tupi), disputavam a hegemonia e eram as únicas rádios com programação musical.

O programa durou poucos meses ali e após algumas tentativas de pasteurizado simplesmente desapareceu sem deixar vestígios. A gente passava noites girando o botão do rádio, procurando sem sucesso. Muitos boatos surgiram, como:

1) Jacques havia morrido de "overdose" em pleno ar, e a emissora escondera.

2) Por causa do consumo de drogas em pleno programa teria sido sumariamente demitido.

3) Jacques teria sido seqüestrado por um disco voador.

4) Ele próprio era um extraterrestre e teria sem maiores avisos retornado ao seu planeta.

5) Jacques nunca existiu, era uma criação da mídia, uma espécie de pré-Max Headroom.

6) Idem, foi apenas fruto de minha imaginação e de algumas outras pessoas.

Hoje mais de 20 anos depois, ao fazer mais uma descoberta em meu Baú, quero compartilhar com vocês, mais alguns momentos de sonho. Meu Baú foi aberto, minhas recordações, meus sonhos estão todos aí.

E caso alguém compartilhe com algum desses sonhos e lembranças, tenha outras peças que possam ser juntadas ao meu Baú, entre em contato. Se Jacques estiver vivo e na Terra por favor, mande-me um e-mail.

Luiz "Barata" Cichetto
02/05/2000


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::: LETR'A BARATA

TOO OLD TO ROCK AND ROLL,
TOO YOUNG TO DIE

(Tradução Livre: Ian Cichetto)

VELHO DEMAIS PARA O ROCK AND ROLL,
JOVEM DEMAIS PARA MORRER

O velho roqueiro tinha os cabelos longos demais,
tinha a bainha da calça apertada demais.
Fora de moda no fim - bebia cerveja leve demais.
Cinto com fivela de caveira - sonhos de ontem -
Um profeta do apocalipse trabalhando numa transportadora.
Sem anunciar mudanças em suas costuras duplas,
em seu brilho de filho do pós-guerra.
Agora ele está velho demais para o Rock'n'Roll,
mas está jovem demais para morrer
Houve uma época em que ele teve
uma Harley-Davidson e um Triumph Bonneville.
E contava seus amigos em velas [de motor]
queimadas e orações que sempre queria.
Mas ele é o último dos garotos sujos de sangue azul.
Todos os seus companheiros estão aproveitando a vida:
casados com três filhos na estrada,
venderam suas almas no fim das contas.
E alguns deles têm carrinhos esportivos
e se encontram no Clube de Tênis.
Para beber no domingo - trabalham na Segunda-Feira.
Eles jogaram fora seus sapatos de camurça azul
[alusão a Blue Suede Shoes, de Elvis Presley
Agora está velho demais para o Rock'n'Roll
e velho demais para morrer.
Então o velho roqueiro põe sua moto pra fora
para dar um rolé antes de puxar um.
Lá pela A1 perto de Scotch Corner, como costumava ser.
E enquanto ele voa - com lágrimas nos olhos -
suas palavras, sopradas pelo vento, ecoam seu ato final
e ele atinge a auto-estrada
fazendo cerca de 120 e sem como frear.
E ele era velho demais para o Rock'n'Roll,
mas ele era jovem demais para morrer.
Não, você nunca é velho demais para o Rock'n'Roll
se é jovem demais para morrer.

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Sobre Luiz Carlos Barata Cichetto

Sou Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal, do ano da Graça do nascimento de Madonna, Michael Jackson, Bruce Dickinson, Cazuza e Tim Burton. Sou poeta, escritor, produtor e apresentador de Webradio, produtor de eventos e procuro pagar as contas trabalhando com criação de sites. Crescí escutando Beatles, Black Sabbath, Pink Floyd e Led Zeppelin. Participei da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos, deixei de ser poeta e fui tentar ser homem, o que no entender de Bukowiski é bem mais difícil. Escrevo poemas desde que comecei a criar pêlos.... nas mãos. Trabalhei como office-boy, bancário, projetista de brinquedos e analista de qualidade. No final do século XX, acordei certo dia de sonhos intranquilos e, transformado em um ser kafkiano, criei um projeto cultural na Internet nos moldes dos antigos panfletos mimeográficos. Mesmo antes de meu processo de metamorfose, nunca deixei de cometer poemas, contos e crônicas. E embora tenha passado dos três dígitos o numero de textos escritos, nunca ganhei um prêmio literário. Fui apaixonado por Varda de Perdidos no Espaço, Janis Joplin, Grace Slick e Sonja Kristina; casei quatro vezes e tenho dois filhos, Raul e Ian. Atualmente sou também editor, costureiro e colador de livros, num projeto de editora artesanal.

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