Traidores do movimento - bandas de rock que "se venderam" nos anos 80
Por Yuri Apolônio
Postado em 07 de julho de 2023
Os anos 80 representaram para o mundo da música provavelmente a maior mudança desde a popularização do rádio, algumas décadas antes. Boa parte disso, devido ao grande aumento no uso da gravação digital, permitindo a popularização de gêneros musicais muito mais voltados para o uso de instrumentos totalmente eletrônicos. Essa mudança acaba por desbancar o rock do topo da maioria das listas de mais tocadas e da venda de discos.
Vendo sua popularidade ruir, muitas bandas de rock fizeram uma coisa, para muitos, imperdoável, que foi mudar quase que totalmente sua sonoridade, buscando uma aproximação com estilos que estavam em evidência e, claro, davam muito mais dinheiro.
Minha intenção aqui não é acusar ninguém. Afinal, em paralelo, os anos 80 proporcionaram muitas novas opções de sonoridade, em especial pela citada gravação digital. Logo, se algumas bandas mudaram por uma razão ou outra, fica para o julgamento de cada um.
Neste texto, citarei duas bandas que tomaram tal atitude durante os anos 80.
Jethro Tull
Pode parecer estranho para quem não conhece muito a fundo o "Jethro Tull" imaginar que os ingleses famosos pelo rock progressivo com altas doses de folk pudessem ir tão longe. Mas eles foram, e o auge dessa aventura resultou no estranhíssimo (para dizer o mínimo) Under Wraps, de 1984.
A questão é que assim como na outra banda que citarei neste texto, o som do Jethro vinha mudando ao longo dos últimos álbuns. O disco de 1982, o "The Broadsword and the Beast", é claramente uma uma transição, com o Tull utilizando baterias eletrônicas e mais teclado do que nunca. No ano seguinte, Ian Anderson ainda lança seu primeiro álbum solo, o "Walk into Light", onde abraça de uma vez por todas a sonoridade digital.
O bizarro é que essa obra solo ainda soaria melhor que o "Under Wraps", cuja textura das baterias e dos sintetizadores mais parecem com trilha-sonora de jogos de nintendinho. Pelo menos, juntamente com a sonoridade "moderna", entre muitas aspas, as letras da banda se afastaram de temas folclóricos e tratam de questões mais contemporâneas.
Judas Priest
O caso do Judas Priest é provavelmente um dos mais famosos do rock, afinal com o "Turbo", de 1986, fãs chegaram a queimar disco da banda devido à insatisfação com a mudança, que além da sonoridade, se via clara nas roupas e nos cabelos emplumados.

O "Turbo" é recheado de guitarras sintetizadas e baterias puramente eletrônicas. Até mesmo o baixo será substituído, em alguns casos, por sintetizadores. Apesar de certa insatisfação por parte de alguns fãs, o disco vendeu bem e gerou uma baita turnê para o Priest.
Fato inegável é que o Judas Priest, apesar de ser uma das bandas criadoras do heavy metal clássico, em algumas obras anteriores já era demonstrado a apreço do grupo por canções simples e refrões mais pegajosos, com destaque para o clássico "British Steel", de 1980, e o "Point of Entry", do ano seguinte.
A ideia inicial era lançar um disco duplo, sendo uma bolacha com canções mais rápidas e outra com uma pegada mais comercial, como o nome de "Twin Turbos". Ocorre que a gravadora desaprova a ideia, o que leva Judas a focar nas canções mais acessíveis para o álbum.
Para tornar-se mais acessível aos ouvidos daquela época, os guitarristas K.K. Downing e Glenn Tipton optaram por sintetizar parcialmente as guitarras, e não buscar o som somente a partir de teclados. Talvez desse certo se a tecnologia para isso já estivesse totalmente desenvolvida e não obrigasse os músicos a tocarem de um jeito muito específico para poder obter alguma resposta positiva.
Como se não bastasse, Rob Halford confessa não ter contribuído para o Turbo como gostaria. O vocalista havia passado um bom tempo entre o "Defenders of the Faith" e o "Turbo" abusando de substâncias químicas, o que o obrigou a ficar internado por cerca de um mês. No mesmo período, ele ainda veria seu primeiro namorado sério tirar a própria vida.
O lançamento do Turbo, somente um mês após o clássico do thrash metal "Master of Puppets", do Metallica, acentuou ainda mais o estranhamento por parte dos fãs. Ainda assim, com os clipes de Turbo Lover e Locked In tendo grande visibilidade na MTV, o Priest obteve sua posição mais alta nas paradas musicais até o ano de 2005, com o "Angel of Retribution", disco que marcou a volta de Halford para o grupo.
Após o "Turbo", o Judas lançaria o "Ram It Down", com parte das canções mais rápidas daquela leva do "Twin Turbos". A turnê deste ainda debocharia dos daqueles que destratam anteriormente a banda, ao ser nomeada de "Mercenaries of Metal".
No vídeo a seguir, falo destes dois discos e ainda trago outros três exemplos de bandas de rock que causaram polêmica ao abraçar a sonoridade eletrônica.
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