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On The Road: Steely Dan - Pop Perfeito

Por Cláudio Vigo
Em 27/08/01

Muito já se disse desta banda. Com uma seleta legião de fanáticos seguidores de seu aclamado "Pop Perfeito" o Steely Dan é uma ilha de bom gosto no mundo da musica de consumo. Com um molho especial, calcado no melhor do Jazz, os melhores músicos de estúdio do planeta e composições do nível de um Cole Porter, produziu uma dúzia de discos antológicos que deram a diretriz de quase tudo feito no gênero a partir dos anos 70. Deu pra sacar que sou fã de carteirinha? Pois é, O Steely Dan é a minha "Emilinha" nesta vida.

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Com o nome tirado do romance "Beat Naked Lunch" de William Burroughs, o Steely Dan na verdade é o projeto de uma dupla de geniais compositores nova-iorquinos chamados Donald Fagen (1948) e Walter Becker (1950) que se conhecem desde os tempos de colégio. Eram jovens suburbanos típicos que passavam o dia estudando e as noites viajando com muito Charlie Parker, Duke Ellington e John Coltrane enquanto se entupiam da melhor literatura beat underground como Kerouac, Corso, Ginsberg etc... Depois de inventarem uma multidão de bandas com nomes estranhos e tentarem a cena teatral da Broadway, se mudam para o Brooklin e conhecem o produtor Gary Katz, que propôs a formação de uma banda pop para dar vazão ao excesso de sofisticação da música da dupla e ganhar um qualquer com isso.

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Em 1972 com a companhia do maluco beleza e posterior Doobie Brother e grande guitarrista Jeff "Skunk" Baxter, Dennis Dias na outra guitarra, Jim Hodder na bateria e David Palmer nos vocais, mais o baixo de Becker e os teclados de Fagen, era lançado o primeiro Lp chamado "Can't Buy a Thrill", que trazia na capa uma colagem de símbolos pop art entre halterofilistas e uma rua cheia de biscateiras e uma coleção de hits que permanecem nestes quase trinta anos de lançados. Experimente colocar "Do it again" pra tocar em qualquer ambiente ou circunstância: a mistura de suingue com a levada fantástica da percussão faz mexer até uma múmia paralítica, não há quem fique parado! "Reelin' in the Years" tem um faiscante solo de guitarra de Eliott Randall que permanece genial, assim como "Brooklin", "Only a Fool" e todo o disco.

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Após o estrondoso sucesso e a inevitável excursão para divulgar o álbum, o caráter egocêntrico e perfecionista da dupla Becker e Fagen começou a tornar o clima insustentável para David Palmer, que largou o grupo deixando os vocais unicamente a cargo de Fagen, tornando clara uma tendência que irá acompanhar o grupo até os dias de hoje: o entra e sai de componentes, a paranóica "mão de ferro" com o qual a dupla comanda e a fantástica sucessão de guitarristas convidados nos álbuns posteriores.

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Em 1973 aparece "Countdown to Ecstasy", o segundo álbum, já sem Palmer, mas com convidados do calibre de Vitor Feldman, Ray Brown e Rick Derringer. As guitarras duelando em "Bodhisattva", que abre o disco são algo inesquecível, e os arranjos elaborados continuam a fórmula do anterior.

Para muitos fãs foi em 74 que a banda atingiu a perfeição com o terceiro e clássico disco "Pretzel Logic", com as presenças de Jeff Porcaro e Michael McDonald, e uma sensacional versão pro standart de Duke Ellington, "East St Louis Toodle-oo" onde o talking Box come solto. "Rikki Don't Lose That Number" e "Pretzel Logic" são os grandes hits.

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O próximo aparece com uma multidão de músicos convidados e traz um resultado um pouco desigual. Foi lançado em 75 com o nome de "Katy Lied" e já não conta com Baxter, que nesta época já estava incorporado definitivamente ao Dobbie Brothers, mas sim com a presença marcante de Larry Carlton, que nesta época era um guitarrista de primeira e não o rei do musak odontológico que se transformou a partir dos anos 80.

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Em 76 fizeram seu primeiro trabalho oficialmente como duo (não tinha ninguém que agüentasse a cada vez mais paranóica mania de perfeição e ataques de 'pelanca' de Fagen) e para mim sua obra prima definitiva chamada "The Royal Scam". Se você puder comprar apenas um disco do Steely Dan compre este. É o que tem o trabalho de guitarras (o forte da banda) mais elaborado, a cargo de Carlton, Becker, Dennis Dias e Elliot Randall, e mais a multidão de músicos de estúdio (incluindo velhos Jazzmen) de costume. "The Fez", "Haitian Divorce", "Kid Charlemagne" e uma sucessão de pérolas com solos de tirar o fôlego, simplesmente imperdível.

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Aja, seu disco de 77, foi o mais comercial e paradoxalmente o mais elaborado, com arranjos bem ricos. Sua gravação foi um verdadeiro parto com as manias da dupla chegando no auge: havia palavras 'proibidas' no estúdio, uma série de esquisitices e o tratamento dispensado a alguns críticos convidados pra assistir as gravações foi algo perto de um cão leproso em fim de carreira. "Peg" com sua batida funk foi um sucesso instantâneo e a levada de Steve Kahn gruda no ouvido. Foi o primeiro disco de platina da banda e conta com as presenças ilustres de Joe Sample, Wayne Shorter e Tom Scott.

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A partir daí a mistura desandou e o clima ficou pesadíssimo, e após um álbum desigual em 80 (Gaúcho) a banda terminou, deixando órfãos uma multidão de fãs de sua mistura perfeita de Jazz e Pop Music com solos de guitarra.

Os anos 80 foram uma década perdida para o Steely Dan. Donald Fagen cada vez mais perfecionista e obcecado com a qualidade, depois de muito sofrimento, lançou o fantástico disco solo "The Nightfly" produzido pelo mesmo Gary Katz e com uma seleção de músicos alucinante (Porcaro, Brecker Bros, Carlton, Marcus Miller, Derringer etc...) e um resultado bem próximo do habitual. Passou a tocar em lugares menores e reuniu a nata dos músicos de soul de Nova York no projeto "New York Rock & Soul Revue", que gerou um concerto com as presenças de Boz Scaggs, The Rascals, Charlie Brown e Michael McDonald registrado em um disco ao vivo chamado "Live at Beacon". Mais uma aparição na trilha do filme, desenho, viajação Heavy Metal e só. Becker simplesmente sumiu e ficou todo mundo com aquele gosto de nunca mais.

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Dez anos após seu primeiro álbum solo Fagen reaparece produzido por Becker em um álbum conceitual chamado "Kamakiriad" reacendendo a chama da esperança de um retorno. No ano seguinte aparece o primeiro e surpreendente álbum solo de Walter Becker ("11 tracks of Whack"), produzido por Donald Fagen e aí o pavio estava aceso. Após muita conversa e intermináveis ensaios, a banda estava de novo na estrada em uma excursão totalmente sold out por onde passasse. Infelizmente o Brasil estava longe destes destinos e só me restava ficar babando a distancia até quase surtar quando vi o lançamento do primeiro disco ao vivo chamado "Alive in América".

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Pois bem, parecia que era só, até o lançamento no ano passado, depois de vinte anos do primeiro trabalho de estúdio da dupla, do cd só com inéditas chamado "Two Against Nature" que ganhou uma montoeira de Grammys surpreendentes e os colocou no topo do sucesso de novo. O mais engraçado é que os discos (todos eles) parecem de uma mesma época, havendo uma variação muito pequena entre um e outro. Se ouvirmos o "Can't Buy a Thrill" parece atual e o último parece antigo. O compromisso paranóico com a qualidade fez gravarem muito pouco (é relativamente barato ser fã do Steely Dan) e segurarem a vontade tão comum de mandar qualquer coisa pra cumprir o contrato.

O primeiro vinil que eu comprei dos caras foi Aja em 79; comecei ouvindo meio desconfiado, e achei meio "pop" demais pro meu bico habituado então a emoções fortes. Na segunda audição do disco (que demorou a acontecer) comecei a prestar atenção nos arranjos e ver que não tinha ninguém enrolando por ali. E tinha uns solos ótimos de guitarra, na medida certa. Resolvi escutar os outros anteriores e aí foi paixão a primeira (ou segunda) ouvida. Na era CD, quando tudo foi relançado, comprei todos os títulos, tanto os oficiais da banda quanto os solos e posso ser considerado um fã entusiasmado.

Não me perguntem porque, mas a musica do Steely Dan me lembra dias ensolarados, Mar Mediterrâneo, Livros de Paul Bowles, Paul Auster, Jazz, Nova York, Soul Music e mais um monte de boas lembranças desses mais de vinte anos ouvindo a música da dupla. Parece que eles voltaram de verdade e um novo cd está a caminho.

Outro dia estava lendo o jornal e tomei um susto, substituído por gargalhadas quando vi uma foto do veterano maluco beleza e genial guitarrista Jeff Baxter no meio do alto comando do Pentágono Americano. Pois bem, o doido é especialista em estratégias militares e virou consultor informal do alto comando guerreiro da maior potência militar do planeta! A foto daquele bigodudo tatuado cercado de generais ouvindo com atenção suas teorias foi uma das maiores surpresas que já tive.

Uma vez estava numa festa, e já meio pra lá de mais ou menos, fui apresentado ao Eduardo Dusek, de quem acho o trabalho hilário e sensacional. Pois bem, danei a comentar por horas um show dele com Emilinha Borba que havia assistido, com especial ênfase no fã clube da favorita da Marinha, e que tinha me feito gargalhar por horas na época no meio de faixas, serpentinas e gritos de "É a maior! É a maior!". Ele, muito debochado, não perdeu a oportunidade e mandou: "Afinal, você é meu fã ou da Emilinha?" Taí uma pergunta que nunca soube responder! Realmente, ser fã é um mico total!

Não é por nada não, mas o conselho do dia é pegar o "Royal Scam", ouvir inteirinho e depois me contar. Só não vale sair de faixa e serpentina gritando: "É o maior!"


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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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