Eu sei que este papo de minimalismo já teve o seu auge. ”Menos é mais” brandia o arquiteto Mies Van der Rohe em seu famoso apartamento vazio onde só existia uma cadeira, vidros e uma caixa de charutos. Philip Glass nos 80 já entorpeceu muitos corações e mentes com a repetição exaustiva de temas e começos que vão e vem desde o Bolero de Ravel.
Mas o papo aqui é outro apesar da base ser a mesma. O nosso caso é guitarra, sim, a velha guitarra elétrica que virou ícone da contracultura e do delírio. Quantos de nós se não todos nos pegamos em pleno vôo onírico a bordo de uma air guitar enquanto um hero subia e descia escalas ensandecidas rumo ao nirvana. Pois é, sem desprezar os reis do excesso e os virtuoses do instrumento, sem falar nas focas amestradas que abandonam a música e partem pro malabarismo circense, vamos falar daqueles que costumam viajar nas entrelinhas, nos ritmos diferenciados, nos climas, nas atmosferas, e abrem mão da pirotecnia em nome do bom gosto, do detalhe e da sutileza.
Eu particularmente adoro guitarristas econômicos. Gente que pára e pensa e retira ao invés de acrescentar aquela nota desnecessária que quase sempre acaba em clichê gorduroso. Existem inúmeros destes guitarristas baixos teores, alguns notórios e geniais como Pete Townshend por exemplo, mas vou tocar em quatro que me falam especialmente ao coração. Músicos que costumam necessitar de mais atenção e repetidas audições para se perceber a genialidade que muitas vezes fica embutida na estreiteza de efeitos mas se mostram na riqueza e fineza dos detalhes.

Está em grande forma depois de um período de reclusão, o que pode ser constatado nos seus últimos trabalhos – "To Tulsa and Back" e "The Road to Escondido", em duo com Clapton. Recomendo com louvor, inicialmente pode não mostrar seus encantos mas é como a comida daquele pé sujo de beira de estrada. Simples e honesto.


Gosto muito de inúmeros discos dele e com tanta diversidade é obvio que alguns experimentos foram mais bem sucedidos que outros. Especial recomendação pra quem não conhece é o álbum duplo "Music By Ry Cooder" que reúne suas trilhas sonoras e o antigo (72) "Boomer´s Story".

Por último deixei uma das minhas paixões mais intensas: O Rei da Telecaster, o homem que já participou de mais de 2.500 gravações: Cornell Dupree. Participante ativo das maiores bandas de Soul Music criadas (os Kingpins de Aretha Franklin e King Curtis) Cornell é um guitarrista rítmico genial que sola maravilhosamente bem normalmente de forma inesperada. Quando você imagina que ele vai para um lado ele vai para outro.

Na verdade, a questão é essa. Tem muito guitarrista virtuose que faz oitocentas escalas por segundo e malabarismos variados e você acaba de ouvir e vem a sensação de já ter escutado aquilo melhor ou pior em algum lugar. O difícil e raro é a surpresa. Não basta equilibrar a bola no focinho da foca, tem que tirar o coelho da cartola quando você espera que saia um pombo.
Propor novas texturas. Muitas vezes, nestes casos o velho Mies tem razão e o que é menos pode se transformar em mais.
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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