Não foi por falta de aviso, tenho um grande amigo e mentor nas sendas vacilantes das artes marciais em que fui me meter depois de velho. Disciplina e método para a eterna tormenta interior. Mentor e discípulo, sempre me mostrava o caminho do Festival de Jazz & Blues de Rio das Ostras, um lugar que já foi caidinho e hoje se transformou na Meca do Groove.
Tudo conspirava contra, apesar do feriadão (Corpus Christi) minha habilitação vencida, carro sem vistoria, comecei minha peregrinação telefônica em busca de uma alma caridosa que me levasse junto. Cheguei a cogitar o ônibus mas uma confusão generalizada me paralisava.

Chegamos ao cair da tarde de um dia belíssimo com um pôr do sol que se anunciava inesquecível e pudemos ver que o palco estava em uma pedra que avançava mar adentro. Um vento salino levava pra longe a fumaça do meu cachimbo, que acendi imediatamente. Tudo conspirava a favor. Sentamos em uma pedra na beira do palco e esperamos em silêncio com a ansiedade que precede todo acaso ou ocaso perfeito.

Foram durante oito anos (a idade do moleque) uma banda eminentemente instrumental. Era o que eu esperava ouvir enquanto já via os preparativos de Alan e principalmente Neal que alucinava em linhas de baixo tiradas direto de sua tecladeira. A maré começou a subir e o povo a chegar. De tudo um pouco em muita quantidade. Famílias, senhores encanecidos que só faltavam trazer um exemplar de "Kind of Blue" debaixo do braço, neo hippies descalços e um ou outro que pareciam (tanto pela idade quanto pelo olhar) ter chegado de Woodstock a pé. A Maresia começou a dominar e me deparei com uma figuraça esguia que estava literalmente dentro dágua (em todos os sentidos) procurando com um cajado multicolorido possivelmente a direção da Jamaica. Dreads na cabeça, um colar que estampava a Mama áfrica no peito e óculos escuros que refletiam o brilho de um poente agora eminente.
Enquanto limpava as cinzas do cachimbo ouvi meu celular gritando. Meus amigos que estavam lá assistindo o Festival inteiro, convivendo com os músicos, tomando café junto, me encontraram no meio da muvuca heterogênea. Dois Bodhisattvas do Rock Carioca, um iluminado Chico Zé (o maior conhecedor de Johnny Winter da história) e meu mestre em Karatê e rei do Boogie Woogie vulgo Zema San.


Meu filho estava em êxtase nirvânico e perguntava literalmente o que era aquilo? Eu não precisei responder, pois eles resolveram tocar uma versão vitaminada de "The Ocean" (logo o que em que lugar) do Led. Aí foi demais e o público ensandecido gritava como um mantra profano: “Soulive, Soulive”. Resolvi responder ao meu filho e disse que é dessas coisas que faz viver a alma.
Fim de show, hora de voltar pra casa. Um papo rápido com meus amigos, uma visita ao palco principal, um pouco longe dali pra imaginar os shows que eu não iria ver. De novo On The Road.
O carro ia rasgando a escuridão da estrada e íamos conversando sobre o que havíamos acabado de ver. Resolvemos parar pra comer num boteco na beira da estrada e pedi um sanduba que se anunciava light que consistia em ovo frito, lingüiça e queijo. Pensamos o que seria a versão heavy e seguimos em frente. Já quase chegando, percebi o quanto eu havia me enganado no som e no sanduíche. O que se prometia uma tarde jazzy baixos teores se transformou em um festim dionisíaco e funky. Pesado e flutuando no oceano como se fosse um Zeppelin de Chumbo, só que negro, apontando pra Jamaica, como queria Toussaint vasculhando o mar com seu cajado na hora que eu acendia meu cachimbo. Deve ser disso mesmo que a alma vive.
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Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.
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