Essa é, com a mais absoluta certeza, a resenha mais difícil que fiz até hoje em todos estes anos colaborando para o Whiplash. Porque escrever dentro do nicho underground, minha casa por excelência, é tranquilo, mas me endereçar a uma verdadeira nação de fãs, como a do Manowar, é bem mais complicado - ainda mais quando o resultado final é negativo. Vamos, portanto, destrinchar essa apresentação bem passo a passo…
O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash! ou de seus editores.
Antes de mais nada, todos sabem que eles são uma banda de extremos: você ama ou odeia com todas as forças. Eu era do segundo time, mas com o passar dos anos, escutando com atenção, lendo as letras e testemunhando a devoção emocionante de seus fãs, virei casaca e me tornei um grande admirador - e só depois das duas vezes em que estiveram por aqui e não os vi. Posto isso, minha expectativa era enorme para com dois fatores: primeiro, conferir o repertório que executariam (uma vez que o recente, na Alemanha, não era lá muito animador) e, segundo, ver como o Eric Adams se sairia ao vivo - uma vez que seu vocal, ao menos nos últimos DVDs, deixava bastante a desejar em comparação ao apresentado nas gravações de estúdio. Às 10 e pouco da noite, tive minhas respostas: o primeiro se confirmou, e o segundo, ufa, passou longe. Dissertemos, então!
Para começar, perdi a banda de abertura - mas convenhamos, quando soube que era um Manowar cover tocando sons autorais, desacreditei. Não quero desmerecer o trabalho do Kings of Steel, mas como se coloca uma emulação abrindo para o original?!? Uma lambança quase risível, mas que sinceramente não vi por motivos alheios à minha vontade - e pelo que consultei com os presentes, aparentemente não perdi nada: era obviamente igual à sua fonte de inspiração mais dois covers bem tocados. Aí veio o show que eu (apesar de "tiozinho") e toda uma geração aguardamos por mais de uma década para assistir. Demos com os burros n'água. Por quê? Continue a ler, se não for um manowarrior fanático no último e, se lá esteve, surdo.
Primeira coisa: não sei se devido ao extremo volume (ao menos na pista), a guitarra do Karl Logan soou embolada o show todo - e gente que estava nas arquibancadas do Credicard Hall, pelo contrário, disse que o som estava fraco lá em cima. Com essa cacofonia, demorava um tempinho para reconhecer que música tocavam. Próximo elemento técnico, desta vez a favor: o Eric cantou muito, mas muito mesmo. A afinação não estava tão baixa como nos últimos registros ao vivo, e mesmo assim ele cantou com toda sua garganta privilegiada: os agudos não deveram nada e ele demonstrou um pique pra lá de contagiante durante todo o decorrer da apresentação. Mas então, meu amigo, tem o setlist que escolheram: aí senta que lá vem história.
Sendo cru ao extremo: não tocaram absolutamente nada do que sua enorme legião de fãs esperava - os clássicos que os colocaram entre as bandas mais cultuadas no panteão do Metal. Seu repertório inteirinho foi a partir do "Warriors Of The World", seu mediano álbum (comparado a toda sua produção anterior) de 2002. Começaram muitíssimo bem com "Hand Of Doom", incendiando a ansiosa platéia, emendando com a também animadora "Call To Arms" do mesmo álbum. Pensamos que era um bom aperitivo para o banquete, mas qual nada… "Swords In The Wind", um solo de guitarra correto e abusando dos tappings do Karl (mostrando que velocidade também demonstra sentimento) e a recente "Let The Gods Decide", que mostra ótimos horizontes para o desenvolvimento recente que o quarteto tem mostrado - afinal, quem quer ouvir mais ópera e inserções clássicas, como nos 2 últimos lançamentos? Onde está, oras, o METAL que tantam prezam e louvam? OK, 5 sons e cadê, sei lá, "Hail And Kill" ou a esperadíssima "Blood Of My Enemies", praticamente um hino extra-oficial para seus fãs brasileiros? Nada.
Aí chega a hora do longo discurso do Joey DeMaio, falando dos melhores fãs do mundo, "não demoraremos tanto para voltar", "fuck the world" e por aí vai. Previsível, mas sempre divertido e sincero - com o detalhe de que a maior parte foi em um português muito bem decorado. Aí, chamando 3 moças digamos, extremamente "liberais" no palco - tá, confesso, para o público masculino foi excelente - e um fã para tocar guitarra no próximo som ("Army Of Immortals", "Brothers Of Metal", "The Gods Made Heavy Metal"? Esquece!), veio o erro mais fatal da noite. O sujeito subiu ao palco com uma camisa do Iron Maiden e o Joey pediu para ele tirar a mesma, para tocar com uma de true metal. O cara tirou e o baixista jogou a mesma no chão, com total desprezo. Que conhecedor de Metal, em sã consciência, faz isso em território brasileiro - sem contar os conservadores fora de nosso barulhento meio? Eu, particularmente, me senti ofendido com essa atitude, pois afinal de contas a trupe de Harris e Dickinson é uma das que marcaram a ferro e fogo seu nome nos anais da história de nosso tão amado estilo musical, com integridade 100% intocável. E isso se confirmaria mais para a frente.
"Die For Metal", "The Sons Of Odin", um ensurdecedor solo de baixo do Joey, "Thunder In The Sky"… cadê UMA velharia, meus caros Kings of Metal?!? O público começa a perder a paciência e o negócio melhora com a grande "Warriors Of The World United", mas fica nisso. Vem mais e mais música desse século - com um interlúdio em que o sempre carismático Eric provou, de forma cabal, que ainda tem um dos pulmões mais fortes do estilo até hoje - e o show acaba, pasmem, com aquele sabor amargo na boca de que não escutamos simplesmente NADA do poderoso "Louder Than Hell" para trás. Um erro crasso para quem ficou longos 12 anos distante do nosso país, apesar de todo o discurso de que somos os melhores fãs do mundo.
Aí veio o choque derradeiro. As luzes se acenderam e a maior parte da platéia, simplesmente, se pôs a vaiar os americanos. Eu JAMAIS esperaria isso de um público tão notoriamente fiel e apaixonado como o do Manowar. Pouco? Veio o golpe de misericórdia daqueles que pagaram caro para adentrar o Credicard Hall: muitos começaram a gritar "Maiden" incessantemente e a plenos pulmões, graças à infeliz (e, acredito, não intencionalmente difamatória) cena que relatei no parágrafo acima. Sem perdão MESMO do público - pois o Manowar pode ser considerado os Reis do Metal, mas está muito longe de ser unanimidade e ainda mais desrespeitando uma verdadeira e tão longeva instituição do estilo. Humildade, companheirismo e principalmente respeito, alô?
Resumo da ópera: a banda toda foi tecnicamente perfeita, foi uma enorme satisfação ouvir o Eric cantando como há muito não fazia, Donnie Hamzik (que gravou o clássico debute da banda, e "ressuscitado" em 2009 em uma manobra muito bem sacada) mostrou que Scott Columbus não faz falta nos tambores, e um set que - no mínimo - deixou muito, demais a desejar para milhares de fãs. Não escutei absolutamente NINGUÉM elogiando o show (muito pelo contrário) na saída do recinto, e fiquei um bom tempo por lá para me certificar disso. Estratégia fracassada que ofuscou, de modo surpreendente e chocante, o que tinha tudo para ser uma celebração épica no sentido mais literal da palavra.
Se efetivamente não demorarem para retornar a estas plagas, e torço para tal, que não repitam os dois lamentáveis erros cometidos nesta noite de maio de 2010 - e entreguem a seus tão fervorosos seguidores o que estes querem mais que tudo, não é pedir muito e lhes sobra competência para isso: uma aula do mais puro e clássico Heavy Metal, algo que fizeram com classe ímpar desde 1980, sem deixar de lado a performance de composições da sua fase atual. Decepcionante, infelizmente.
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36 anos, solteiro, estudou Linguística e Engenharia de Alimentos na UNICAMP. Tem sua sobrevivência (CDs, cigarro e cerveja) garantida no trabalho em uma multinacional. Iniciado no Metal em 1988, é baixista/vocal do LACONIST (Death Metal) e acredita fielmente que o SARCÓFAGO é a melhor banda do universo.
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