Metallica: Uma resenha nada definitiva do "Hardwired"

Resenha - Hardwired... To Self-Destruct - Metallica

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Por Jean Carlo B. Santi
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

O ano que passou foi, sem dúvida, muito marcante em diversos aspectos, principalmente no campo social e político, e infelizmente, de forma negativa. Ao menos no campo musical, nos brindou com um sempre tão esperado novo álbum do Metallica. Após 8 longos e tenebrosos invernos, "Hardwired...to Self-Destruct" é apresentado por completo ao público. Como de praxe, antes mesmo da apresentação do novo álbum, já tinham liberado previamente algumas amostras pela internet, mas não é assim que costumo saborear um novo disco do Metallica. Este precisa ser "degustado", exige todo um ritual. Fiz questão de comprar o CD (que por sinal, levou uma parte considerável do meu suado dinheiro, mas enfim, não pode faltar na coleção), e não ouvi nada da internet até poder pegar o CD, colocar no player, ouvir lendo e acompanhando pelo encarte, etc...(coisa de tiozinho, que começou a ouvir música através de vinil).

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Falar de um álbum do Metallica não é uma tarefa simples. O Metallica imprime em sua discografia (e talvez seja este o fato que o tornou tão grande) o fato de ter lançado seus 5 primeiros álbuns de estúdio em uma crescente qualitativa impressionante (seu famoso "Pentateuco de Ouro") - Do debut Kill´em´All até o famosíssimo Metallica (Black Album), não tivemos sequer uma única faixa mediana, todas as músicas, da primeira à última, mantém um padrão de alto nível (coisa de fã? não mesmo! até porque não sou destes fãs "xiitas", é minha opinião com senso crítico apurado de alguns anos de rock). Em seguida, tivemos a dupla "Load & Reload", que não canso de dizer que são dois excelentes álbuns, mas que não caíram no gosto geral do grande público do Metallica. Até aqui, a banda já tinha amadurecido bastante seu som, e experimentado um lado mais "hard rock" com o Black Album, mas foi a primeira vez que o Metallica "saiu fora da caixinha". E particularmente, adorei o resultado (não de primeira, é claro, afinal, todo mundo demorou um pouco para digerir tanta novidade naquela época...). A partir daí, sempre esperei por algo diferente do Metallica, gostei de vê-los se desafiando, e tocando o que realmente queriam tocar, sem se importar com a crítica.

Claro que, susto maior ainda foi quando o Metallica não só saiu da caixinha, mas pisou em cima dela, ao lançar "Saint Anger". Fora a primeira vez que o Metallica lançara algo de gosto duvidoso, pra não dizer, ruim mesmo. Mas, tirando a mixagem horrível (infelizmente esta não seria a última vez que a banda pecaria neste aspecto), existem algumas faixas salvadoras. Aqui um adendo: não consigo parar de pensar que, neste ponto da discografia do Metallica, houve uma inversão terrível no tempo de lançamento destes três últimos álbuns...

O Metallica esteve na contramão da história, e poderia ser diferente se o Saint Anger tivesse sido lançado na época do Load/Reload, e vice-versa. Confuso? Já explico: Quando surgiram Load e Reload, os mais "experientes" vão lembrar que estávamos com uma imensa expectativa de um som mais sujo e agressivo por parte do Metallica, afinal, o cenário do som pesado estava fervilhando (bandas como Sepultura, Fear Factory, Machine Head, Pantera, só para citar algumas, estavam quebrando tudo...). Aí o Metallica surge com os cabelos cortados, unhas pintadas e um álbum totalmente hard rock. Sentiram a inversão do clima? Caso fosse o Saint Anger, com toda sua crueza e falta de animosidade, certamente o álbum seria melhor compreendido e muito menos criticado que Load & Reload. Anos depois, no ano de lançamento do Saint Anger, os ânimos já estavam mais abrandados. Quem estava na "crista da onda" eram bandas pop-rock-melody como Creed e Nickelback.

Nesta altura, um álbum com um bom e bem tocado hard rock cairia bem, mesmo vindo do Metallica, e estaria muito acima dos lançamentos do gênero na época. Certamente, causaria menos espanto, o choque seria menor. Bom, mas até agora nada de falar de Hardwired, certo? Calma lá, já que falamos de toda discografia de estúdio da banda até aqui, não poderíamos deixar de fora o penúltimo álbum, "Death Magnetic". Depois de tanto judiar dos fãs mais antigos com os últimos lançamentos, e ainda, o tiro de misericórdia "Some Kind of Moster", resolvem lançar um álbum no melhor estilo "de volta às origens". Digam o que quiserem: nesta altura, James, Lars e Cia não podiam mais errar, e, ao invés de se arriscarem como no passado, decidiram apostar no certo, ou seja, dar aos fãs o que eles mais queriam: o resgate do bom e velho Thrash Metal oitentista, do qual eles próprios foram vanguarda e ajudaram a consolidar mundo afora.

Até aí, nada de anormal. Contudo, não posso deixar de registrar que, tamanho empenho para fazer o que o público e a crítica queriam, e não necessariamente o que eles gostariam de fazer de forma genuína, como sempre o fizeram, cobrou o seu preço. Claro que, àquela época, assim como todos os outros fãs de metal, eu também fiquei emocionado em ver o Metallica dando a volta por cima, e o que é melhor, voltando a tocar com toda vontade e chegando a lembrar um pouquinho do antigo vigor de outrora. Isso sem dúvida, era o mais importante. Me recordo ainda de ter escrito uma resenha do álbum ainda no calor da emoção, não conseguindo ser, naquele momento, totalmente imparcial.

E agora, caros leitores, tempos depois, tenho que assumir, para minha vergonha, a minha própria contradição: não se trata necessariamente de um álbum que eu esperava ouvir do Metallica. Logo nas primeiras faixas do disco, vemos claramente que, de novo, um álbum do Metallica fora prejudicado pela mixagem (quem ouviu outras versões remixadas sabe do que estou falando). Prejuízos de estúdio à parte, começo a reparar como James perdera aquela antiga angústia e raiva em sua voz, ao invés disso, o que ouço é um feliz cinquentão milionário e sem grandes ambições cantando como uma tiazinha velha (fui duro demais com um dos caras mais espetaculares da história do rock?). É, caros amigos, infelizmente foi esta a impressão que tive. E o que dizer de Lars? O baixinho, assim como James, não precisa mais provar nada ninguém, ambos são lendas consagradas do rock e escreveram seu nome no seleto grupo dos intocáveis. E ainda hoje, quem tanto o critica e fala de sua regressão técnica como baterista, não se recorda que Lars já fora considerado um dos melhores bateristas do mundo (se pensarem que um artista das baquetas não precisa ser necessariamente um "polvo elétrico sincopado" para ser bom, podemos julgar que Lars fez trabalhos brilhantes no passado, encaixando a bateria de uma forma harmônica e precisa a tal ponto de conseguir dar brilho, destaque e vida própria a esta). Sim, definitivamente, ele foi um dos melhores, mas o fato é que Lars pecou muito pela simplicidade, e, verdade seja dita, deixou a bateria insossa, beirando quase a mediocridade. Trujillo, por sua vez, apesar de impor um vigor necessário e refrescante à banda, pouco contribuiu para o som de uma forma mais ampla, ficando o maior destaque mesmo para Kirk, que preencheu o álbum com solos grandiosos e pra lá de inspirados, relembrando com maestria a NWOBHM.

Bom, depois de tudo isso podemos dizer que se trata de um álbum ruim? Não mesmo, mas a falta de verdade que vejo neste álbum não conseguiu despertar em mim maiores emoções. Querem saber? Preferiria ver o Metallica se arriscando mais uma vez, e surpreendendo novamente a todos. Bom, mas o intuito final era falar de Hardwired...to Self Destruct, não é mesmo? Se você chegou até aqui, muito bem! Vamos falar do último álbum do Metallica. A primeira faixa, e também a primeira música divulgada (Hardwired), já nos prepara para uma quase continuação do antecessor Death Magnetic. Um som thrash que remete aos primórdios, porém com um frescor interessante, uma pegada rápida que nos lembra o primeiro álbum do grupo, e de curta duração. Precisa e direta. Deu de cara a impressão de que todo o álbum seguiria a mesma linha. Ledo engano: a próxima faixa, Atlas, Rise! começa a derrubar este conceito, apesar dos riffs ainda remeterem ao antigo thrash, já mostram uma diferente estruturação, com guitarras dobradas "a la Maiden" - igualmente empolgante. A terceira faixa, Now That We´re Dead, já começa a me dar esperanças de ouvir um Metallica mais ousado, fazendo realmente seu som e passando seu recado, sem apegos à velhos chavões. É ouvir e sair tocando air guitar pela sala. Quanto mais ouço, mais gosto.

A próxima, Moth into Flame, é também interessante, porém sem carecer de maiores delongas. Dream no More, quinta faixa do álbum, tem um riff inicial matador (impossível não balançar a cabeça) é a que mais lembra a fase Load/Reload, sem querer ser pejorativo, muito ao contrário. Fechando o primeiro disco do álbum duplo (sim, esqueci de mencionar antes para quem ainda não sabia, é um álbum duplo...), Halo on Fire mostra a redenção de James como vocalista (se é que precisava). Aliás, iria comentar somente no final, mas não pude me conter, visto que peguei pesado com James na última resenha. Não só nesta faixa, mas em todo álbum, James definitivamente resgatou aquela velha fúria e emoção guardada "no porão". Botou tudo pra fora, rasgou o vocal com todo sentimento possível, é de arrepiar. James sempre foi a alma do Metallica. Há quem possa negar? Agora sim, posso dizer: bem vindo de volta, cara!

Enfim, vamos ao segundo disco: Confusion introduz um clima sombrio, mas que logo se desfaz, porém sem perder a pegada. Boa faixa. Manunkind começa e logo as primeiras notas nos dá a esperança de ouvir novamente uma balada do Metallica (desde Reload a banda não nos presenteia com uma...). Ao invés disso, a música toma outro rumo, e se torna invariavelmente a mais fraca do álbum até aqui. Here Comes Revenge vem em seguida, e já levanta os ânimos novamente, é uma mistura de um pouco de tudo que o Metallica apresentou em sua carreira. A próxima, Am I Savage? não empolga, e começa a nos passar a impressão de que o segundo disco seguirá uma linha de altos e baixos. Murder One vem com toda responsabilidade de ser uma faixa-homenagem a ninguém menos que o saudoso Lemmy, do Motorhead (como se fosse preciso dizer...). E felizmente, cumpre bem o seu papel - riff empolgante, vocal sinistro, sem dúvida, Lemmy foi bem representado e deve estar contente, tomando seu whisky junto aos deuses do metal.

Pra fechar, Split Out The Bone, para quem já estava se sentindo enganado apenas com a primeira faixa e queria mais "paulada na moleira", vem como uma metralhadora giratória atirando pra todo lado, sem deixar ninguém de pé. Encerramento em grande estilo. De forma geral, o primeiro dos dois discos é ligeiramente melhor, porém a sensação que fica é que temos novamente, um disco acima da média. Claro que, ainda não comparável aos cinco primeiros, mas só temos o que comemorar, não é mesmo?

Finalizando os comentários, quero falar também da participação dos demais cavaleiros do metal. Lars pode ser parabenizado pelo esforço, que, embora ainda longe da maestria esperada e que será cobrada sempre, já apresenta evolução e melhora na criatividade comparado ao último trabalho. Nosso baixista "xicano", Trujillo, teve um espaço maior neste disco, colaborando com algumas faixas. Ganhou pontos e fez seu trabalho de preparação do terreno para os demais. A despeito do álbum antecessor, quem não fora tão bem dessa vez foi Kirk, que, ao que parece, não entendeu muito bem a proposta de som para este álbum (os solos, por hora, ficaram meio confusos, pouco inspirados). Uma melhor participação faria deste um álbum magistral, mas nada que pudesse prejudicá-lo mais seriamente. Mr. Hammet tem crédito na praça.

Encerro com votos de vida longa ao Metallica, e que venham novos lançamentos (porém menos demorados), o mundo metal agradece!

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Sobre Jean Carlo B. Santi

Jean Carlo B. Santi é Administrador de Empresas e Pós-Graduado em Marketing. Músico amador, atua também como baterista numa banda que toca covers de classic rock. Ainda criança, pôde conhecer através de um tio bandas como Queen, Pink Floyd, Gênesis, Nazareth, U2, Bon Jovi, Guns´n´Roses... Mais tarde, descobriria por conta própria que havia muito mais no rock, e desde então, nunca mais encontraria o caminho de volta do limbo de onde vivem todos estes seres fantásticos e surreais, habitantes deste mundo à parte chamado rock´n´roll.

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