David Bowie: homenagem honesta aos mais de 50 anos do camaleão
Resenha - Next Day - David Bowie
Por Pedro Zambarda de Araújo
Postado em 22 de março de 2013
O 24º álbum de estúdio de David Bowie é composto por músicas fluídas, honestas e diretas em seus 53 minutos de duração. The Next Day - ainda está disponível para streaming gratuito no iTunes até a data que o disco sair no Brasil - é uma composição que vicia facilmente os fãs do rock'n'roll clássico e moderno do camaleão inglês.
A faixa-título, The Next Day, abre com uma guitarra repleta de efeitos eletrônicos e uma letra de resistência. David Bowie canta contra a velhice, contra os obstáculos e as dificuldades de sua vida e de sua carreira, mostrando o retorno ao meio musical após o disco Reality (2003). "Here I am / Not quite dying / My body left to rot in a hollow tree", diz a Letra de Bowie, mostrando sua retomada aos trabalhos após quase 10 anos parado.
Dirty Boys é uma composição com saxofone e um clima parecido com a música de Kurt Weill, um alemão que é admirado por David Bowie. A letra chama os rapazes para o trabalho difícil, sujo. É uma canção irônica. "We all want men we all want you / Me and the Boys we all go through / You've got to learn to hold your tongue / They said the moon was his burning son", diz a letra.
The Stars (Are Out Tonight) é um dos ápices do disco, logo no começo, e foi um dos singles mais bem recebidos pela crítica. A guitarra, mais crua e com menos efeitos, ganha destaque mesmo com outros instrumentos de fundo. A letra de Bowie é sobre a dualidade entre o que é ideal e o que é real. É sobre o que o próprio David Bowie enfrentou em sua carreira, comparando sua imagem atual, de homem de 66 anos, com o rockstar que ele foi nos anos 70 e 80. "Their jealousy's spilling down / The stars must stick together / We will never be rid of these stars / But I hope they live forever", diz a letra, num tom esperançoso.
Love is Lost é mais um momento alto do álbum, que praticamente emenda com o clima gerado por The Stars. A canção é essencialmente sobre loucura, solidão e sentimento, conceitos entrelaçados de maneira saborosa pelo músico inglês. "Say hello to the lunatic men / Tell them your secrets / They're like the grave
Oh, what have you done? / Oh, what have you done? / Love is lost, lost is love", diz a letra de David Bowie. A composição é acompanhada por efeitos eletrônicos constantes controlados pelo próprio Bowie e por uma guitarra abafada que explode em determinados momentos.
Where Are We Now? é o primeiro single que saiu de The Next Day e é uma música mais melancólica, mais pra baixo, questionando o momento que vivemos atualmente. A letra também é recheada de referências à Berlim, cidade que David Bowie viveu e gravou a famosa alemã de sua carreira: Low (1997), Heroes (1977) e Lodger (1979). "Sitting in the Dschungel / On Nurnberger strasse / A man lost in time near KaDeWe / Just walking the dead", afirma a letra, sobre tempo morto e memórias. Apesar do clima para baixo, Bowie termina a música falando sobre a importância de ainda possuirmos o "eu" e o "você". Essas identidades ainda são fundamentais para o que somos hoje.
Valentine's Day é uma balada romântica de Bowie, como ele não fazia há muito tempo. É o tipo de música que tem de tudo para emplacar nas rádios, com a temática dos namorados. A guitarra parece ser conduzida pela voz de David Bowie, que funciona bem como um guia na composição. "Valentine knows it all / He's got something to say / It's Valentine's Day", diz a letra que, como poucas, não quer significar além do que suas palavras afirmam.
If You Can See Me tem uma predominância muito maior de efeitos eletrônicos do que dos demais instrumentais, que apenas harmonizam a música. A inspiração para esse som artificial de David Bowie é o produtor Brian Eno, que trabalhou com ele em Berlim e com o U2. A letra é sobre contato, sobre visualização e, portanto, comunicação.
I'd Rather Be High é uma música sobre possibilidades, sobre querer ser grande. "I'd rather be high / I'd rather be flying / I'd rather be dead / Or out of my head / Than training these guns of those men in the sand / I'd rather be high", afirma a letra. A bateria mais quadrada da música, embora acompanhada por uma guitarra melódica, ajuda o disco de Bowie a dar uma desacelerada em seu ritmo.
Boss of Me é uma música que se constrói com guitarra base sólida, baixo ritmado e um saxofone barítono, trazendo uma atmosfera de jazz. O refrão é repetitivo, mas fala bem sobre amor, domínio e liberdade. É uma letra de romance. "Who'd have ever thought of it / Who'd have ever dreamed / That a small town girl like you / Would be the boss of me", diz Bowie, na composição.
Dancing Out In Space é a música para dançar e curtir, para viajar em seu ritmo, sem um significado profundo. How Does The Grass Grow? tem uma abertura com mais efeitos eletrônicos e, ao logo da composição, a voz de Bowie se mistura com Gail Ann Dorsey, que faz as vozes de fundo. É uma música cativante pelo peso e a densidade.
(You Will) Set The World On Fire abre com uma guitarra que parece Van Halen ou outras bandas de hard rock. É uma música com incrível capacidade de cativar o ouvinte, valorizando a voz única de David Bowie com um rock'n'roll autêntico. E a letra canta apenas sobre atirar fogo ao mundo, botar as coisas para quebrar. É como se o tema dessa música aliviasse o peso do começo de The Next Day. Gail Ann Dorsey e Janice Pendarvis fazem um belíssimo trabalho vocal junto com o camaleão do rock. O solo de guitarra elétrica é simples, mas cativante.
You Feel So Lonely You Could Die tem três guitarras, inclusive uma sendo tocada por Tony Viscondi, o produtor do disco. Mesmo com tantos instrumentais, a música é mais parada e mais melancólica. É David Bowie cantando sobre sua própria idade, sobre a solidão e a proximidade da morte. Essa faixa praticamente anuncia o fim próximo do álbum. "You could die, die, die", diz a letra de Bowie.
Heat é uma música sobre falta de identidade, sobre passado. A última faixa de The Next Day não tem nada de feliz e esperançoso, e é bastante focada na capacidade de interpretação de David Bowie. Sua crítica aos tempos atuais é uma crítica, sobretudo, a si mesmo. Ele tenta se encaixar neste novo mundo, mas Bowie não consegue se desprender dos valores que o tornaram um dos homens mais avançados no rock e no mundo pop. "And I tell myself, I don't know who I am" é uma lição forte que David Bowie deixa nessa última letra.
Outras resenhas de Next Day - David Bowie
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