David Bowie: ele ainda vai incendiar o mundo
Resenha - Next Day - David Bowie
Por Alaor Rocha
Postado em 21 de março de 2013
Nota: 9 ![]()
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"Where Are We Now?" não é uma música inovadora — é, para ser sincero, bastante nostálgica —, e tampouco "The Stars (Are Out Tonight)" o é. Mas David Bowie não voltou ao mundo da música para ser esquecido, e The Next Day (por mais complicado que seja à primeira audição) é, no mínimo, o que todos esperavam para o retorno do camaleão do rock: Música de qualidade, de conteúdo, de muito Bowie para queimar.
Vou logo confessar que sou uma pessoa muito impaciente com esse tal de David Robert Jones (se preferir, DAVID BOWIE). Após décadas de carreira, repletas de reviravoltas musicais, atuações, narrações de fábulas e muito estilo, é difícil acompanhar a trajetória do famoso camaleão do rock sem antes fazer alongamento auditivo — se é que existe algo assim. Ouvir um eletrônico como Earthling (1997), partir para o aspirante a clássico Hunky Dory (1971) e depois se ater à trilha sonora do longa Labirinto (1986) não é tarefa fácil. Então, como entender um álbum além de todos esses registros tresloucados de Bowie?
The Next Day é um desafio. Começou fácil e até mesmo subestimando os ouvintes: O lançamento de "Where Are We Now?" foi um boom de marketing, mas não de primor musical. Apesar de muito bem construído, o single mostrou uma voz soturna no gogó sessentão de David, o que com certeza fez muitos refletirem sobre o que as pregas vocais dele poderiam executar após tanto tempo de reclusão em sua Bowie-Caverna. Mas aí chegou "The Stars (Are Out Tonight)", com vídeo e música muito mais atrativos e do jeito que o povo gosta de ver o camaleão cantar. Ainda assim, parecia muito pouco para quem esperou dez anos para dar a cara a tapa.
O verdadeiro desafio, no entanto, mostrou seu rosto (quadrado e branco) no dia 28 de fevereiro, com a disponibilidade de The Next Day para streaming no iTunes. De álbum baixado, me pus a ouvir sem muita calma e acabei me desesperando: Que barulho todo é esse?
Não que Bowie tenha enveredado para um lado progressivo, arranjando influências do STRATOVARIUS ou algo assim, mas minha cabeça estava zunindo do estresse da semana e tive que esperar o calendário dar um reboot para apreciar a mais nova gema do camaleão. Tentei ter a paciência que não tive com álbuns como Black Tie White Noise (1993) e Tonight (1984) e me joguei de fone e tudo em The Next Day.
E, ufa, o álbum não é barulho.
Considero que a ordem das músicas não favorece muito a audição: Músicas como "Dirty Boys" e "Valentine's Day" são fracas para estarem na primeira metade do álbum, enquanto "(You Will) Set The World On Fire" e "You Feel So Lonely You Could Die" com certeza deveriam ser mestre-sala e porta-bandeira do registro. Entretanto, nem mesmo as músicas ditas "fracas" podem ser consideradas dispensáveis nesse álbum. Sim, foi — e ainda é um pouco — difícil entender os 53 minutos de Bowie Modelo 2013, mas a sensação de decodificar a experiência é recompensadora.
Há muitos destaques em The Next Day, a começar pela faixa-título dançante e com refrão para cantar junto. "Love Is Lost", que parece arrastada demais de primeira, logo torna-se uma das mais atmosféricas do álbum e faz, com seu último verso ("What have you done?", repetido com agonia), uma conexão perfeita com a temática da música seguinte, a já famosa "Where are we now?". "I'd Rather Be High", cuja letra gira em torno do trauma pós-guerra de um soldado, tem algumas linhas vocais que me fizeram lembrar de OZZY OSBOURNE, mas pode ser só minha imaginação. E, para não me delongar (pois se deixarem eu faço uma monografia sobre o álbum), digo que a tríade final do álbum é suntuosa: "Set The World On Fire" começa lembrando "Sixteen Saltines", do registro solo mais recente de JACK WHITE, mas logo descamba num refrão oitentista com a cara do Bowie, "You Feel So Lonely..." é a balada indispensável para os casais dançarem e "Heat" fecha o álbum com introspecção, com a atmosfera instrumental de tantos mundos que David Bowie cria desde os anos 60.
Não há o que reclamar da gravação, da mixagem, das letras; no entanto, senti falta de alguma faixa puramente instrumental, daquelas cavernosas que o Bowie sempre fez ("Pallas Athena", "Crystal Japan"), mas isso não compromete The Next Day de modo algum. O camaleão conseguiu manter uma simplicidade que há muito não alcançava, muito embora seu mais novo registro não tenha sido feito para sete bilhões de terráqueos ouvirem. Os poucos que respirarem fundo, ouvirem o álbum com tranquilidade e compreenderem a missão de paz que nosso alienígena britânico traz com essas catorze músicas com certeza não se esquecerão facilmente da experiência. Bem-vindos de volta à abdução.
Tracklist:
1. The Next Day (3:26)
2. Dirty Boys (2:58)
3. The Stars (Are Out Tonight) (3:58)
4. Love Is Lost (3:58)
5. Where Are We Now? (4:09)
6. Valentine's Day (3:02)
7. If You Can See Me (3:12)
8. I'd Rather Be High (3:45)
9. Boss Of Me (4:09)
10. Dancing Out In Space (3:22)
11. How Does The Grass Grow? (4:34)
12. (You Will) Set The World On Fire (3:32)
13. You Feel So Lonely You Could Die (4:37)
14. Heat (4:27)
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