David Bowie: estamos diante de um dos melhores discos do ano
Resenha - Next Day - David Bowie
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 23 de março de 2013
Indispensável. Se fosse necessário escolher um único adjetivo para definir "The Next Day", novo disco de estúdio de David Bowie, seria este, sem dúvida alguma. Seu primeiro registro de inéditas desde "Reality", de 2003, o álbum foi todo desenvolvido em absoluto segredo, em meio a uma espécie de exílio que o inglês vinha vivendo, total e completamente afastado dos holofotes. Surpreende, é claro, que ele tenha conseguido manter todo o processo em sigilo, ainda mais num mundo digital no qual tudo acaba vazando antes de alguma forma. Mas não é, meu caro leitor, a única surpresa.
A primeiro música do álbum que foi divulgada, a bela e melancólica "Where Are We Now?", com muitas menções e paralelos à sua chamada trilogia berlinense ("Low", "Heroes" e "Lodger"), pode enganar o ouvinte incauto – como, aliás, acabou fazendo, levando os fãs a questionarem a saúde do cantor e apontarem, inclusive, uma certa fragilidade em sua voz. Mas a canção-título de "The Next Day", que abre a bolacha, afasta completamente este tipo de pensamento e prova que estamos diante de um retorno roqueiro que rompe o silêncio de uma década com chave de ouro. É rock com ares pós-punk, de guitarra forte e refrão envolvente, com Bowie cantando de maneira rasgada, feroz, viva. A canção é apenas o prelúdio do que ouviremos a seguir: um disco de rock que, apesar de dialogar com o passado setentista do cantor, tem gosto de novidade, de modernidade, de experimentação. "The Next Day" está longe de soar como um velho roqueiro caquético das antigas que tenta, de maneira forçada e pedante, soar jovem novamente.
Aquela expressão clichê que se usa costumeiramente para definir Bowie, "o camaleão do rock", tem dois pesos e duas medidas ao longo da audição de "The Next Day". Chamar o sujeito de "camaleão" é esperar que ele tenha, necessariamente, a obrigação de pirar e querer te surpreender a cada faixa. Vamos com calma. Estamos falando essencialmente de um disco de rock sem invencionices. Back to the basics. No entanto, a habilidade inata de Bowie para a estranheza, para explorar o novo, acaba sendo natural, orgânica. Então, mesmo um disco de rock básico, nas mãos de quem ficou, acaba não ficando assim tão básico. O professor ensina direitinho como usar o que seria básico e óbvio para fazer algo único. Um exemplo claro: em "Dirty Boys", os metais ajudam a dar uma poderosa carga de sensualidade à canção; já em "Boss of Me", estes mesmos metais criam uma conexão quase soul music, numa atmosfera diva que permitiria até um dueto com os vocais de uma intérprete londrina como a saudosa Amy Winehouse.
Com sua letra crítica a respeito do mundo das celebridades, "The Stars (Are Out Tonight)" ganha um jeitão meio glam, com brilhos e paetês que o artista conhece muito bem. "If You Can See Me" é um dos exemplos de efeitos eletrônicos utilizados e dosados de maneira certa, como o próprio Bowie já havia ensinado em trabalhos anteriores ("Earthling", por exemplo). "Dancing Out in Space", como o título bem sugere, sabe colocar para dançar sem se perder em batidas repetitivas. A ótima "(You Will) Set the World On Fire", talvez um dos pontos altos do trabalho, tem um riff alucinado de guitarra e finaliza como uma espécie de curso intensivo para os jovens roqueiros ingleses que dizem que se inspiram em Bowie (é, aquelas novas joias raras do rock que a NME tanto ama endeusar). E a última canção, "Heat", consegue abrir com um clima soturno, sombrio, bem Black Sabbath, para então ir se desdobrando em uma sonoridade um pouco mais iluminada.
Ainda estamos em março. Mas já dá para dizer, me despindo totalmente dos exageros típicos da crítica musical, que estamos diante de um dos melhores (se não for, inclusive, "o melhor") discos do ano. Por isso mesmo, indispensável. Ouça sem moderação.
Tracklist:
The Next Day
Dirty Boys
The Stars (Are Out Tonight)
Love Is Lost
Where Are We Now?
Valentine's Day
If You Can See Me
I'd Rather Be High
Boss of Me
Dancing Out in Space
How Does the Grass Grow?
(You Will) Set the World On Fire
You Feel So Lonely You Could Die
Heat
Outras resenhas de Next Day - David Bowie
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Os dois estilos musicais que Lemmy detestava e considerava pobres musicalmente
Brian May (Queen) admite ter mudado de ideia em relação à IA
Baterista do Linkin Park toca música do Iron Maiden que nunca havia escutado
Falling in Reverse lança "Joseph" com Corey Taylor e Serj Tankian em colaboração inédita
Loudwire coloca álbum do Angra como "melhor álbum de progpower" da história
O álbum clássico do rock que Ed Motta comprou escondido por ser coisa de playboy
Abbath cancela shows de 2026 e pede desculpas aos fãs e festivais
O amigo que Ozzy Osbourne sentia falta de ter por perto e chamava de cara definitivo do metal
Brasileiros superestimam o Sepultura? Canal disseca mudança do show de despedida
A criança que irritou Joey Ramone a ponto de inspirar um clássico dos Ramones
O cantor jovem que assustava Freddie Mercury e a quem ele não tinha nada a ensinar
O mito em torno de Raul Seixas que Regis Tadeu diz que precisa acabar
Slash: quando Lemmy deu em cima de sua namorada

A excêntrica melhor maneira de começar a ouvir David Bowie, segundo Regis Tadeu
A banda "fantástica" que David Bowie temia que fosse esquecida pelo público
O dia que David Bowie pagou Robert Fripp para tocar guitarra como Ritchie Blackmore
Guitarrista fala sobre influência de Queen e David Bowie no Def Leppard
O rockstar que Noel Gallagher idolatra, mas não se lembra de quando conheceu
5 versões cover tão ruins que te fazem odiar a versão original, segundo a Far Out
Os 11 melhores álbuns do glam rock setentista, segundo a Loudwire
Black Sabbath: Born Again é um álbum injustiçado?


