David Bowie: estamos diante de um dos melhores discos do ano

Resenha - Next Day - David Bowie

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Por Thiago El Cid Cardim
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Indispensável. Se fosse necessário escolher um único adjetivo para definir “The Next Day”, novo disco de estúdio de David Bowie, seria este, sem dúvida alguma. Seu primeiro registro de inéditas desde “Reality”, de 2003, o álbum foi todo desenvolvido em absoluto segredo, em meio a uma espécie de exílio que o inglês vinha vivendo, total e completamente afastado dos holofotes. Surpreende, é claro, que ele tenha conseguido manter todo o processo em sigilo, ainda mais num mundo digital no qual tudo acaba vazando antes de alguma forma. Mas não é, meu caro leitor, a única surpresa.
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A primeiro música do álbum que foi divulgada, a bela e melancólica “Where Are We Now?”, com muitas menções e paralelos à sua chamada trilogia berlinense (“Low”, “Heroes” e “Lodger”), pode enganar o ouvinte incauto – como, aliás, acabou fazendo, levando os fãs a questionarem a saúde do cantor e apontarem, inclusive, uma certa fragilidade em sua voz. Mas a canção-título de “The Next Day”, que abre a bolacha, afasta completamente este tipo de pensamento e prova que estamos diante de um retorno roqueiro que rompe o silêncio de uma década com chave de ouro. É rock com ares pós-punk, de guitarra forte e refrão envolvente, com Bowie cantando de maneira rasgada, feroz, viva. A canção é apenas o prelúdio do que ouviremos a seguir: um disco de rock que, apesar de dialogar com o passado setentista do cantor, tem gosto de novidade, de modernidade, de experimentação. “The Next Day” está longe de soar como um velho roqueiro caquético das antigas que tenta, de maneira forçada e pedante, soar jovem novamente.

Aquela expressão clichê que se usa costumeiramente para definir Bowie, “o camaleão do rock”, tem dois pesos e duas medidas ao longo da audição de “The Next Day”. Chamar o sujeito de “camaleão” é esperar que ele tenha, necessariamente, a obrigação de pirar e querer te surpreender a cada faixa. Vamos com calma. Estamos falando essencialmente de um disco de rock sem invencionices. Back to the basics. No entanto, a habilidade inata de Bowie para a estranheza, para explorar o novo, acaba sendo natural, orgânica. Então, mesmo um disco de rock básico, nas mãos de quem ficou, acaba não ficando assim tão básico. O professor ensina direitinho como usar o que seria básico e óbvio para fazer algo único. Um exemplo claro: em “Dirty Boys”, os metais ajudam a dar uma poderosa carga de sensualidade à canção; já em “Boss of Me”, estes mesmos metais criam uma conexão quase soul music, numa atmosfera diva que permitiria até um dueto com os vocais de uma intérprete londrina como a saudosa Amy Winehouse.

Com sua letra crítica a respeito do mundo das celebridades, “The Stars (Are Out Tonight)” ganha um jeitão meio glam, com brilhos e paetês que o artista conhece muito bem. “If You Can See Me” é um dos exemplos de efeitos eletrônicos utilizados e dosados de maneira certa, como o próprio Bowie já havia ensinado em trabalhos anteriores (“Earthling”, por exemplo). “Dancing Out in Space”, como o título bem sugere, sabe colocar para dançar sem se perder em batidas repetitivas. A ótima “(You Will) Set the World On Fire”, talvez um dos pontos altos do trabalho, tem um riff alucinado de guitarra e finaliza como uma espécie de curso intensivo para os jovens roqueiros ingleses que dizem que se inspiram em Bowie (é, aquelas novas joias raras do rock que a NME tanto ama endeusar). E a última canção, “Heat”, consegue abrir com um clima soturno, sombrio, bem Black Sabbath, para então ir se desdobrando em uma sonoridade um pouco mais iluminada.

Ainda estamos em março. Mas já dá para dizer, me despindo totalmente dos exageros típicos da crítica musical, que estamos diante de um dos melhores (se não for, inclusive, “o melhor”) discos do ano. Por isso mesmo, indispensável. Ouça sem moderação.

Tracklist:
The Next Day
Dirty Boys
The Stars (Are Out Tonight)
Love Is Lost
Where Are We Now?
Valentine's Day
If You Can See Me
I'd Rather Be High
Boss of Me
Dancing Out in Space
How Does the Grass Grow?
(You Will) Set the World On Fire
You Feel So Lonely You Could Die
Heat

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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