Psychotic Eyes: 10 álbuns que marcaram Dimitri Brandi

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Por Eliton Tomasi, Fonte: SOM DO DARMA
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O Whiplash.net me pediu para listar os dez álbuns que marcaram minha vida. Foi difícil escolher apenas dez, pois a música sempre foi um dos aspectos principais da minha vida. Houve álbuns que me marcaram tanto que os identifico com determinados momentos, pessoas, fases da vida, locais. Alguns discos mudam sua vida por causa de uma letra. Outros, por causa de uma mera sensação, um arrepio ou uma emoção que passam a habitar sua alma, impulsionados pela música. Mas isso é assunto da individualidade e da intimidade. Para essa matéria, resolvi selecionar aqueles que mudaram minha maneira de pensar a música e a arte, ou seja, aqueles essenciais para o músico Dimitri Brandi, vocalista, guitarrista e letrista do Psychotic Eyes. São os dez discos que mais me influenciaram como artista, não é uma lista dos “dez melhores” ou coisa assim. No final, me senti injustiçado com o Whiplash.net pois tive que deixar de fora tanta coisa importante para minha formação musical e pessoal: Samael, Machine Head, Rush, Napalm Death, Marty Friedman, Yngwie Malmsteen, Rage, Foo Fighters, Dorsal Atlântica, Judas Priest e até a Sinéad O’Connor... – Dimitri Brandi (Psychotic Eyes).

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IRON MAIDEN – "Powerslave"

Esse é o mais importante de todos, pois foi o álbum que me fez querer ser músico. Havia uma época da minha adolescência em que eu só ouvia Iron Maiden, exclusivamente. Eu era fascinado por tudo o que cercava a banda: a música, Eddie, as capas dos discos, as temáticas mitológicas, de terror ou históricas. “Aces High” sempre foi das minhas músicas preferidas, desde que vi a banda abrindo o show do Rock In Rio pela televisão. Certo dia eu estava ouvindo a versão de estúdio quando entrou o solo de guitarra. Não sei se era o estado de espírito do momento, mas quando Adrian Smith começou com os ligados, eu pensei: “quero tocar guitarra, quero tocar isso, quero tocar igual esse cara”. Vendi um videogame e comprei uma guitarra Jenifer horrorosa, e comecei a ter aulas. O curioso é que jamais tentei aprender o solo de “Aces High”. Acho que minha reverência por ele e minha gratidão pelo Adrian Smith não me deixam, como se eu pensasse que é proibido macular uma obra prima da arte.


OZZY OSBOURNE – "Blizzard of Ozz"

Comecei a tocar por culpa de Adrian Smith e Dave Murray. Mas meu guitarrista favorito de todos os tempos é Randy Rhoads. Ele é o ídolo em que me espelho, o objetivo que gostaria de alcançar. Admiro e me inspiro em seu estilo, que mistura muita técnica sem virtuose gratuita, sonoridade da música clássica, fraseados rápidos e melódicos, com riffs autenticamente heavy metal. Sua criatividade, originalidade e agressividade são impressionantes, inigualadas até hoje. Esse é o disco que o apresentou ao mundo e a mim. O comprei num sebo, pois já era fã do Black Sabbath, mas nada conhecia da carreira solo de Ozzy. Foi amor à primeira vista. Os solos de “Mr. Crowley”, “Crazy Train” e “Revelation: Mother Earth” são verdadeiras obras-primas que tento em vão imitar. Na música “Life”, do Psychotic Eyes, gravei um solo inspirado em Randy Rhoads, tentando atingir essa sonoridade única e marcante. Acho que consegui chegar perto, e acho que esse é um dos melhores solos que já compus. Também, com uma inspiração dessas...


BLACK SABBATH – "Dehumanizer"

Alguns discos são perfeitos. São aqueles em que todas as músicas poderiam estar em uma coletânea, em que não existe uma única faixa que você não goste. Aquele em que, a cada época da sua vida, a cada audição, você escolhe uma preferida diferente, ou “a melhor música do disco”. “Dehumanizer” é assim. Não sei dizer qual música é melhor. A importância desse disco na minha formação tem tudo a ver com o estilo de Tony Iommi. Ele me ensinou a importância de um solo bem colocado na música, que preencha a atenção do ouvinte enquanto o vocalista não está cantando. Considerando que o vocal desse disco é Ronnie James Dio, é uma tarefa extremamente ingrata. Para completar, o álbum é pesado, variado, criativo e surpreendente, marcado por uma sonoridade pessimista, letras quase políticas, marcadas por um realismo difícil de encontrar nas bandas de metal. A temática do álbum me mostrou que é possível escrever letras que falem do mundo atual e seus problemas, fugindo daqueles clichês habituais do metal: fantasia, horror, celebração da música e coisas assim. Não que eu tenha qualquer coisa contra as bandas que exploram esses estilos, mas sempre me senti mais confortável como letrista abordando temas da realidade. No nosso último álbum “I Only Smile Behind the Mask”, tentei trabalhar mais essa vertente. Em “Welcome Fatality”, conto a história de um assalto em que a vítima morre. A letra narra os sentimentos do criminoso, ao perceber, de dentro da cela da prisão, que jogou sua existência fora ao tirar a vida de outra pessoa. A maldade é o anverso da esperança, e a culpa impulsiona o medo, como escrevi nos versos finais.


MEGADETH – "Rust in Peace"

Dave Mustaine é um artista completo: guitarrista, letrista e compositor extraordinários fundidos em uma única pessoa. É uma das minhas maiores influências como músico. “Rust in Peace” é a sua obra-prima, e é o disco que me apresentou ao Megadeth e à sua obra genial. A primeira vez que ouvi “Holy Wars... The Punishment Due” fiquei simplesmente atônito. Eu jamais ouvira música tão agressiva com um arranjo tão complexo. Acho que, até hoje, poucas composições chegam perto da perfeição dessa faixa. Quem me dera algum dia ter uma faixa de abertura tão forte, pesada, poderosa. A música é tão pesada que, mesmo com o fraseado flamenco executado no violão, soa como uma guerra musical repleta de matança. O disco segue com o duelo de solos mais fantástico da história do metal, que é a obra-prima “Hangar 18”, que sempre chamei de “hangar dezoito” (risos), sintoma de quem dedicava mais tempo ao metal do que ao estudo de inglês. Esse é outro álbum perfeito, em que todas as faixas me ensinaram algo como músico. O fraseado harmonizado de “Five Magics” é algo que copiei em várias composições. A letra profunda e maravilhosa de “Tornado of Souls” explora a temática da separação e o fim de um relacionamento amoroso, mesmo tema que tratei na letra de “Life”, do Psychotic Eyes.. Na faixa “The Girl”, do Psychotic Eyes, explorei bastante a sonoridade baseada no uso de riffs leves de hard rock em uma faixa de thrash metal. Isso aprendi com “Lucretia”. Acho que estou em débito com Dave Mustaine...


CAMEL – "(Music Inspired by) The Snow Goose"

Não sei se acontece com você, leitor. Mas algumas músicas têm uma capacidade inexplicável de emocionar. Basta ouvi-la para sentir uma forte emoção e as lágrimas apontarem nos olhos, independente do que você estiver fazendo no momento. Não há explicação racional, você se emociona sem saber de onde vem aquele sentimento. Talvez seu inconsciente associe aquela melodia a uma lembrança de uma pessoa querida, ou a um momento de dor. Isso mostra o poder inigualável da música como obra de arte. A música tem o poder de tocar o coração diretamente, de alterar o estado emocional das pessoas ainda que contra a vontade. Mostra que não estamos totalmente no controle de nós mesmos. Esse disco faz isso comigo. O fraseado de flauta da abertura de “Rhayader” me emociona a cada vez que a ouço, o que deve ter acontecido milhares de vezes. O disco, totalmente instrumental, é baseado no livro “The flight of the Snow Goose”, de Paul Gallico. É um conto pequeno que conta a história de um homem cuja missão era recolher os corpos dos soldados que boiavam no mar após a batalha do “Dia D”, na Segunda Guerra Mundial. Ler o conto ouvindo o disco é uma experiência ímpar. A mesma batalha foi mostrada no filme “Resgate do Soldado Ryan”. Por coincidência, usei sons desse filme na introdução da faixa “Carnage is My Name”, do primeiro disco do Psychotic Eyes.


PARADISE LOST – "Gothic"

Esse foi o disco que me ensinou a gostar de vocais guturais. Eu vivia aquela cena do metal em Belo Horizonte, em que as bandas de Death Metal surgiam a cada esquina, inspiradas pelo sucesso do Sepultura, Sarcófago e outros medalhões revelados pela Cogumelo. A maioria usava vocais guturais, que não me agradavam muito. Acho que isso se deve ao fato de que eu conhecia as bandas nos shows, e a qualidade do áudio era geralmente muito ruim. Assim, o instrumental soava muito embolado, e os vocais guturais soavam para mim como mais um ruído no meio da massa sonora. Quando ouvi esse disco minha opinião mudou radicalmente. Vi que o vocal gutural é o contraponto perfeito para a sonoridade depressiva e pesada, completando a agressividade da música. “Gothic” é uma obra-prima de uma das minhas bandas preferidas. Depois eles abandonaram o vocal gutural, para minha decepção, mas continuaram a lançar discos incríveis, tendo o ápice em “Draconian Times”, um dos discos que mais me influencia como compositor. Além de ter uma capa maravilhosa que me mostrou a importância de uma arte gráfica bem feita que remeta à sonoridade e ao conteúdo do álbum. Já houve até quem comparasse a capa desse álbum com a do nosso último trabalho. Outra coisa que aprendi com o Paradise Lost é a importância da evolução musical. A banda jamais lançou dois discos no mesmo estilo, eles sempre mudam, variam e tentam evoluir. Claro que cometeram deslizes no meio do caminho, lançando alguns álbuns fraquíssimos. Mas só não erra quem não tenta, e acertar repetindo a mesma fórmula é para gênios musicais como Iron Maiden, AC/Dc e Motorhëad, não é para qualquer banda.


DEATH – "Symbolic"

Se com “Gothic” eu aprendi a admirar os vocais guturais, foi com “Symbolic” que eu decidi me tornar um músico de Death Metal. Aprendi a cantar o estilo meio que por acidente. Certo dia eu andava na rua, à noite, quando pensei como os vocalistas de Death faziam para urrarem sem perder a voz ou lesionar a garganta. Sem querer, descobri a técnica. Ainda bem que era tarde e não tinha ninguém na rua, pois a cena de um cara urrando no meio da rua deve ter sido muito bizarra. Passei a treinar em casa até assumir os vocais no Psychotic Eyes. Tudo culpa de Chuck Schuldiner, outro artista completo, guitarrista extraordinário, compositor inigualável, autor de solos tão impressionantes, de letras que de tão profundas às vezes soam como filosofia pura. “Symbolic” é, para mim, o melhor disco de metal de todos os tempos, a obra-prima do maior gênio da música do século XX. Nenhum cara fez tanto, sozinho. Roger Waters tinha David Gilmour. Paul McCartney tinha John Lennon. Deep Purple, Led Zeppelin, Black Sabbath, Iron Maiden, Queen, Rush, são bandas que mais parecem seleções de músicos. Chuck era um só indivíduo, só tinha sua guitarra e sua voz, além do desejo obsessivo de perfeição, tanto em suas composições quanto na escolha dos músicos que o acompanhavam. Lembrar de sua morte me emociona até hoje.


MY DYING BRIDE – "The Angel and the Dark River"

“Amostra de literatura musical para poucos ouvidos”. Essa era a última frase da resenha desse disco na revista Rock Brigade em 1996. Comprei o disco na mesma semana, sem nunca ter ouvido falar da banda. Logo na primeira audição me tornei fã incondicional, e permaneço até hoje. Eu já tinha ouvido Doom Metal por meio do Paradise Lost (vide meu comentário sobre o “Gothic” lá em cima) e do Anathema, que tocou em Belo Horizonte em 1993, num show na Praça da Estação. Mas ninguém se iguala ao My Dying Bride. “The Angel and the Dark River” é a quintessência da dor. Não há álbum que expresse o sofrimento tão bem, casado com peso, agressividade e melancolia. Musicalmente, mistura arranjos perfeitos com músicas agressivas, complexas e depressivas. A voz de Aaron Sainthorpe é melancólica, angustiada, sofrida. Quem me dera conseguir passar tanta emoção. Tentei algo parecido em alguns trechos de “Dying Grief”, do último álbum do Psychotic Eyes. Esse álbum me influencia tanto que sempre tento encaixar um riff doom nas composições da banda. Para minha decepção, ou sorte, sei lá, os arranjos que o Alexandre (Tamarossi, baterista do Psychotic Eyes) faz sempre puxam pros estilos mais agressivos do metal, como o thrash, o que resulta numa sonoridade muito mais interessante.


DEEP PURPLE – "Concerto for Group and Orchestra"

Antes de aprender a ouvir metal, eu era um grande fã da música clássica, por influência dos meus pais. Adorava Beethoven, Ravel, Bach e os compositores russos como Tchaikovsky e Mussorgsky. Ouvir o concerto que o Deep Purple gravou com a orquestra foi um motivo de grande felicidade, em que os dois estilos estariam misturados. Hoje acho que isso soou como uma revelação, descobri que o metal e a música clássica são a mesma coisa, só são estilos separados porque são tocados por instrumentos diferentes. O concerto foi composto por Jon Lord, outro grande gênio da música do século XX. (Descanse em paz, Jon! Você não me conhecia, mas sua música mudou minha vida). Entretanto, não é uma obra só dele, pois é impossível deixar de lembrar a performance de todos os músicos do Deep Purple. Gillan canta com uma emoção impressionante e uma técnica vocal digna de figurar entre as melhores atuações de um cantor em todos os tempos. Glover e Paice executam suas partes com maestria, deixando o som pesadíssimo, mas sem obscurecer ou abafar a orquestra. Já a guitarra de Ritchie Blackmore é um show à parte. Os riffs que ele toca quando a banda entra no primeiro movimento me arrepiam sempre que os ouço. Um dos fraseados mais lindos da história do instrumento é o solo limpo que ele faz no terceiro movimento, com as cordas da orquestra como base.


KATAKLYSM – "Epic"

Eu já conhecia a banda pelo EP “The Mystical Gate of Reincarnation”, cuja faixa título considero a música mais pesada, rápida e agressiva de todos os tempos. Entretanto, quando ouvi esse disco, fui simplesmente atropelado pela destruição do ‘blasting beat’ inicial de “Il Diavolo in Me”, talvez a faixa de abertura mais violenta que eu já tinha ouvido até então. Nos inspiramos nela para decidir que “Throwing into Chaos” seria a faixa de abertura de “I Only Smile Behind the Mask”, com sua bateria insana preparando o ouvinte para o que viria a seguir. Mas esse disco foi fundamental para o Psychotic Eyes em outro aspecto: foi a primeira vez que ouvi um álbum produzido pelo J. F. Dagenais. Não acreditava no que ouvia: uma produção limpa, em que todos os instrumentos são igualmente audíveis, mas todos eles possuem timbres absurdamente agressivos, pesados e originais. O som jamais embola e o peso não deixa de aparecer em nenhum momento. Essa sonoridade sempre me inspirou, eu sempre desejei que ele produzisse um álbum do Psychotic Eyes. Quando isso finalmente se concretizou, foi como um sonho realizado! Ele ouviu nosso primeiro CD e aceitou trabalhar com a banda para o segundo álbum. A mixagem e masterização de “I Only Smile Behind the Mask” foi feita por ele, o que deixou o álbum pesado, limpo e com uma sonoridade brutal. Quando ouvi as primeiras versões das mixagens dele, não pude conter a emoção. É inacreditável a sensação de ouvir sua música com uma sonoridade tão pesada e agressiva, mas ao mesmo tempo limpa e precisa.

Mais Informações:
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Sobre Eliton Tomasi

Empresário artístico, gestor e produtor cultural, crítico musical. Foi fundador e editor-chefe da revista Valhalla (Rock Hard Brasil) – uma das mais importantes revistas especializadas em rock já existentes no Brasil – através da qual tornou-se um experiente e respeitado jornalista de rock. Há 20 anos atua como produtor de shows e eventos tendo já realizado desde pequenas gigs até produções internacionais de grande porte. Especializou-se na função de empresário e gestor de bandas e artistas nacionais e internacionais, participando da elaboração de diversos projetos culturais na área da música (rock) e realizando turnês freqüentes por todo Brasil e em mais de 15 países da Europa.

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