Marcio Baraldi: os álbuns que marcaram o cartunista

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Por Marcio Baraldi
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Tudo começou no maravilhoso, mítico, emblemático ano de 1977 (Ah! Lembrou do Punk, né?!?) . Eu era apenas uma criança quando descobri o rock'n'roll ao ouvir a gloriosa voz de Freddie Mercury entoar o mantra religioso-roqueiro de "We Will Rock You" sob a batida hipnótica de Roger Taylor, num velho radião valvulado. Até então já tinha me divertido muito com os filmes do Elvis, Beatles e Monkees, mas só fui "pegar o espírito" do Rock com o Queen mesmo. Na seqüência veio o Kiss e seu irresistível baile de máscaras. Logo depois o Punk e aí fudeu tudo de vez. Vejam vocês mesmos os dez discos que eu mais ouvi dos 11 aos 18 anos.

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Revista POP Apresenta o Punk Rock (1977)

Este LP é importantíssimo para a história do Rock no Brasil. Lançado em 1977 pela extinta revista POP (uma espécie de BIZZ dos anos 70) , foi ele que apresentou pela primeira vez aos brasileiros bandas como Sex Pistols, Ramones, Eddie And The HotRods e outras que, na época, estavam quebrando tudo na Inglaterra e EUA, com o início do movimento Punk. O disco trazia também outras bandas maravilhosas como Runaways (da deliciosa Joan Jett adolescente) , o ótimo London, com a devastadora "Everyone is a Winner" e o estupendo Ultravox, com a explosiva "Young Savage", minhas duas preferidas da bolachona. O disco fez um auê danado na época e serviu pra abrir as portas do Brasil para o Punk-Rock, pois logo depois foram lançados no país discos dos Pistols, Ramones e (quase) todas as bandas da coletânea. Enfim, um disco emblemático que realmente marcou uma geração.


Queen - The Game (1980)

Apesar de ter me iniciado no rock com o "News Of The World" e de ter tido todos os LPs do Queen dos anos 70, foi este o disco deles que eu mais ouvi na minha adolescência. Lançado na virada da década (1980) , ele catapultou o Queen ao mega-estrelato definitivo com músicas perfeitas como "Play The Game", "Save Me", o rockabyllão faiscante "Crazy Little Thing Called Love" e a poderosa "Another One Bites The Dust", o funk irresistível que conquistava até quem não gostava de funk. Um discão energético e alto-astral que bastava eu ouvir um pouco para ficar animado. Aliás, nessa época eu era tão fã dos caras que eu sabia tudo sobre a banda e fazia zilhões e zilhões de desenhos deles nos meus cadernos do ginásio e colégio. Pena que não existia uma matéria chamada "Queen" na escola, senão eu tiraria nota máxima nela (risos).


The Damned - Machine Gun Etiquette (1979)

Foi com esse estupendo disco que eu conheci essa bandaça maravilhosa da qual sou grande fã até hoje. Esse era um dos pouquíssimos LPs importados que eu tinha. Consegui ele num rolo com um brother punk do colégio. Naquela época, não existia MP3 nem CD, e pouca gente tinha LPs importados pois ainda eram muito caros, então ter esse disco era uma verdadeira glória para mim. O encarte era uma história em quadrinhos muito, mas muito tosca e ruim (risos) . Logo depois saiu no Brasil o LP "Strawberries" deles e eu, lógico, comprei no ato, e, lógico, o disco era ainda mais maravilhoso que "Machine". Ah, não contem para ninguém, mas meu sonho era cantar como o Dave Vanian, vocalista do Damned (risos) . Quem sabe na próxima encarnação...


Kiss - Destroyer (1976)

O KISS foi a segunda banda que eu descobri na vida e pirei no ato. Lógico que eu tratei de descolar todos os LPs dos caras e lógico que o "Destroyer" era o mais legal. Aliás, legal não, era genial. O som, as músicas, os arranjos, tudo nesse disco era de primeira. Muito superior aos três primeiros discos da banda. A capa era muito boa, dramática, apocalíptica, bem Heavy-Metal (a revista) e influenciou um monte de bandas a fazerem capas nessa linha, inclusive o Queen, que fez algo parecido no ano seguinte com o "News Of The World". Lembro que o vinil abria com "Detroit Rock City" com uma longa introdução de um sujeito entrando num carro, dando a partida, ai ligava o radio do carro e começava a música subindo devagar. No fim da música rolava uma brecada arrepiante, uma batida animal e o carro se estraçalhava todo. Era fortíssimo pra época. Genial. Anos depois, descolei o CD e não tinha essa introdução nem a batida, não sei se nunca mais rolou essa versão. As bandas vivem procurando novas batidas para seu som, olha ai, o KISS achou uma batida realmente ORIGINAL (risos).


Iron Maiden - Killers (1981)

Tudo ia bem e equilibrado, até que no começo dos anos 80 um termo começou a ser usado com freqüência na boca da molecada: "Heavy Metal". Até então praticamente ninguém conhecia essa expressão. E isso aconteceu porque as gravadoras começaram a soltar no Brasil um pacote de bandas emergentes que levavam esse rótulo, como Saxon, Van Halen, Tigers of Pan Tang e um tal de... Iron Maiden. Véio, não há outra palavra pra descrever aquele momento no Brasil: foi uma COQUELUCHE completa. Todo, simplesmente TODO garoto tinha os discos do Iron, sobretudo o Killers. E o que o tal disco tinha de tão especial afinal? TUDO. Era tudo novo, original, inédito, inovador, surpreendente, estimulante, uma NOVA maneira de fazer rock pesado. Depois do Maiden, o rock pesado, o metal, foram pra outro patamar. Lembro que eu ouvia o disco sem parar, uma faixa atrás da outra, e não parava de me surpreender, era muita novidade pra um disco só. Tudo era maravilhoso:as músicas, os arranjos, a bateria, a dupla de guitarras inseparáveis, e as duas jóias máximas da banda :o vocal maravilhosamente raivoso de Paul Dianno e o baixo revolucionário de Steve Harris, gênio total da história do rock. Fico muito feliz por ter estado lá na hora que o Iron estourou no Brasil.


Big Country - The Crossing (1983)

Nessa época eu ouvia um programa de rádio chamado New Music, onde o apresentador, um tal de Eric Reidel, apresentava aos brasileiros zilhões de bandas inéditas no país. Eram todas bandas pertencentes ao exuberante período do rock conhecido como New Wave e... PÓS-PUNK. Pois uma das bandas mais lindas (e subestimadas) desse período foi o escocês Big Country. Nascidos das cinzas dos Skids, bandaça seminal do punk, esse seu disco de estréia, “The Crossing”, era absurdo de tão lindo, inovador e poderoso. Quando ouvi "In a Big Country" pirei no ato, e ao ouvir "The Storm" e "Poohorman" aí meu queixo caiu de vez. Aquilo era lindo demais, arrepiante demais, como meros mortais conseguiram compor e executar aquilo? Desde então tive um carinho imenso por essa banda, comprei os três primeiros e maravilhosos discos (inclusive esse “The Crossing”) tão logo saíram no Brasil, depois vasculhei a internet atrás de tudo que pudesse descolar deles. E por fim, lamentei muito quando soube do suicídio do magnífico líder da banda, Stuart Adamson, em 2001. Ainda ouço sua genial obra com o mesmo pique e tesão que tinha ao descobri-la, há 23 anos atrás.


Adam And The Ants - Prince Charming (1981)

Porra, eu simplesmente ADORO esse disco e esse sujeito. Pulava de alegria quando passava nos programas da minha adolescência, o estupendo e genial clipe de "Stand and Deliver". Eu simplesmente adoro este clipe e a música. Lógico que eu comprei este e o "Kings of the Wild Frontier", os dois únicos LPs que saíram deles no Brasil, e os tinha em casa até bem pouco tempo atrás. Nem preciso dizer que hoje tenho (quase) tudo do Adam, seja solo ou com os Ants, em CD. Você pode dizer que a música deles era tosca, cheia de ruídos e barulhos esquisitos, anárquica, mas não pode dizer que não era empolgante, original e, principalmente muuuuuito divertida. Quando ouvi "Scorpios” pela primeira vez pensei:"Porra, o que é isso? Que loucura é essa??? (risos) ". Muito deboche, teatro e besteirol, amarrados por uma música-pastiche doida, com raízes no Punk-Rock e no Roxy Music. Outra banda como essa nunca mais.


New Model Army - No Rest For The Wicked (1984)

Esse disco eu posso garantir que REALMENTE mudou minha cabeça. Esse disco era (e é) uma verdadeira lição de vida para um garoto pobre do subúrbio operário como eu era. Uma banda proletária fazendo rock proletário e selvagem para moleques proletários. Eu ouvia esse disco direto, decorava cada nota, e enquanto o ouvia pensava: "Quando eu crescer, vou mudar o mundo. Aguardem-me!". Essa banda era tudo que eu precisava ouvir naquela época. Eu tinha 18, 19 anos e queria ser um guerreiro na vida, só queria lutar contra todos os problemas que eu tinha e crescer, ser alguém vitorioso e viver num mundo melhor. Essa era "A BANDA", que fazia a trilha sonora perfeita para o que eu acreditava (e acredito) e vivia. Amo cada nota e cada letra deste disco, uma espécie de Bíblia Sagrada pra mim. Obrigado por existirem, Justin Sullivan, Rob Heaton e Stuart Morrow. Sou um cara um tanto melhor graças a este disco.


Ramones - Pleasant Dreams (1981)

Depois do disco da revista POP, os LPs dos Ramones começaram a sair no Brasil e este "Pleasant..." e o "End of the Century" se tornaram discos muito especiais para mim. Quando eu os ouvia me sentia reenergizado, com as baterias carregadas no máximo. Naquela época eu já trabalhava muito e ainda estudava como um condenado no colégio técnico de desenho mecânico e estes discos me davam forças e certeza de que eu seria alguém na vida. Uma banda maravilhosa, direta, reta e correta, que tinha uma intensidade e fidelidade ao rock'n'roll básico e rebelde como ninguém mais tinha. São discos com eterno sabor de adolescência, verdadeiras fontes da juventude infinita para quem souber se banhar em suas ondas sonoras. Eu, claro, já mergulhei nelas faz tempo. E daqui ninguém me tira.


Clash - London Calling (1980)

Esse disco saiu como um LP duplo e tinha zilhões de músicas que eu adorava e me enchiam de ânimo e coragem pra enfrentar a dureza daqueles dias proletários no ABC paulista dos anos 80. "London Calling", "Brand New Cadillac", "Spanish Bombs", "Guns of Brixton" e a estupenda "Hatefull", faixa com a qual me identificava plenamente (risos) , foram verdadeiros hinos que cantei minha vida inteira enquanto caminhava vorazmente pelas ruas de Santo André com uma pasta azul debaixo do braço, lotada de cartuns e quadrinhos que eu fazia e vendia para Deus e o mundo. Aliás, olhando hoje de longe, o Clash tinha tudo a ver com o ABC daquela época, então um inflamado subúrbio operário e caldeirão fervente do sindicalismo mais combativo do Brasil. Hoje tudo está diferente, o ABC está mais comportado, eu já não tenho aquele ódio todo. E Joe Strummer... já não está mais entre nós. Deus abençoe o ABC, Deus abençoe Strummer e o Clash.

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