Coldplay e a franja do Fernando

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Por Cláudio Vigo
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Talvez pela novidade de um pirralho novo em casa. Pois é...Tem um cara de um mês de idade que berra mais que Iggy Pop nos áureos tempos por aqui agora. O pai quarentão e babão fica pensando no que ele vai estar ouvindo daqui a algum tempo, enquanto tenta escutar suas velharias, misturando sempre que pode com uma novidade. Sem medo algum de ser confundido com um "Tio Sukita" querendo me enturmar, andei descobrindo e me entusiasmando com umas coisas novas feitas nas velhas ilhas britânicas. Antes que a crueldade juvenil diagnostique caduquice ou senilidade precoce, vou logo avisando: existe vida inteligente no Britpop!

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Todos meus dezoito leitores sabem que apesar de ser um amante inveterado do bom e velho rock'n'roll e de um jazz, não passo sem uma novidade. Tirando algumas coisas que sinto que nunca vão fazer minha cabeça, definitivamente estou sempre curioso para ouvir para onde o vento está soprando e se a gente não arrisca fica sempre muxoxando que "ah... nos setenta era que era demais" e num sei mais o que. Um saco! Andei ouvindo esta semana com freqüência três bandas atuais, que achei bem interessantes, mesclando com aquelas velharias empoeiradas de sempre que vivo futucando, que ninguém é de ferro.


A primeira delas é o JANUARY, um quarteto que faz um som meio viajante capitaneado pelo vocal folk de Simon Mclean onde se espalham zilhões de efeitos de guitarra (slides principalmente) em belas melodias. Não deixa de ser um tanto retrô com algumas coisas lembrando de leve o Pink Floyd. O disco se chama "I heard myself in you" de 2001 e saiu por aqui pela Trama com uma linda capa. Distorção e depressão com peso nas bases e um vocal soft talvez seja uma boa descrição. Na verdade é mais uma prova que com instrumentos e talento de verdade ainda dá pra se tirar leite de pedra (rock).


A segunda é uma turma meio "slowdown" mas bastante interessante também chamada MOJAVE 3 que em "Excuses for travellers" faz um country /folk baladeiro que passa longe do lugar comum e lembra aquelas coisas que o Nick Drake fazia e que nos levavam a dizer: "Dá um tempo que eu vou ali na esquina me matar e já volto". Deve ser ideal pra escutar num deserto como lembra o nome, mas como ando longe deles vou escutando no carro mesmo, imaginando aqueles postos de gasolina de roadmovie que dizem na placa: "Você tem certeza de querer ir adiante?". Tem um banjozinho de leve, uma voz de travesseiro morno e até umas gaitinhas soft. Pra ouvir no sítio serrano daquele seu amigo a noite enquanto as brasas crepitam enfumaçando o ambiente, antes que o primo dele tenha a infeliz idéia de pegar o violão e tocar a obra completa da Legião Urbana.

A terceira quem me apresentou foi meu já conhecido de todos e antológico, amigo Fernandinho "my Boy" Andrade que encontrei na rua inaugurando um penteado novo que estava um espetáculo. Entre meu fascínio pela cabeleira mod do eterno enfant terrible das terras fluminenses entreouvi uma voz cava de sabedoria que falava pausadamente ao oscilar da franja: "Preste atenção no Coldplay... Preste atenção no Coldplay...". Como um mantra hindu.


Nos despedimos e atormentado pelo imperativo categórico e pela inveja do fantástico corte de cabelo entrei na primeira loja e balbuciei pro balconista como um junkie em farmácia de Amsterdã: "têm Coldplay?". Tinham os dois discos. "Vou levar sem ouvir" balbuciei. "Você conhece isto?" perguntou o incrédulo balconista. Não respondi e saí com meu pacotinho com os dois cds.


Chegando no escritório uma meia dúzia de telefonemas de malas sem alça de plantão me trouxeram a triste realidade cotidiana, me tirando do transe que me encontrava. Entre uma roubada e outra coloquei pra trocar sem prestar muita atenção o tal grupo de britpop, já esperando um Oásis diluído (que detesto) ou outra coisa no gênero: "meu deus queria ser The Who". quando uma sucessão de climas inspirados foram me pegando. Os caras são ótimos.


Formado por Chris Martin (vocal e piano), Jon Buckland (guitarra), Will Champion (bateria) e Guy Berryman (baixo) o Coldplay tem dois discos gravados ambos muito bons: "Parachutes" de 2000 e "A Rush of Blood to the Head" de 2002, que trazem uma receita simples e muito antiga. Belas melodias (alguns chicletes sonoros assobiáveis) uns vocais bem trabalhados, uma guitarra encorpada e uma cozinha competente. Não tem nenhum coelho na cartola, nenhuma mágica, o bom e velho rock inglês com sua velha competência, só que feito por uma garotada esperta. Tá difícil de sair do cdplayer. O difícil é saber qual dos dois discos é melhor.


Pra contrabalançar tanta juventude, antes que o "efeito sukita" me faça passar algum tipo de vexame ando escutando umas perolas de Jazz dos sessenta que andei arrumando com um camelô de cds usados. Coisa do tempo que eu tomava Mineirinho quente com pastel no recreio. Tem um Dave Pike de 66 que ouço todo santo dia (Herbie Hancock toca hammond neste disco) que traz o que os modernetes chamariam de clima cocktail lounge, seja lá o que isto for. Só sei que lembra louras de cacharrel e aqueles espetinhos de salsicha, queijo e azeitona que infernizavam as festas nos sessenta.


Continuando no clima Hammond grooves tem um do veterano Jack Mc Duff que também comparece diariamente nos meus fones. Uma aula de suingue com acompanhantes de primeira, o nome diz tudo: "Silken Soul". Outra seda no veludo é o petardo de Jimmy Mc Graf chamado "Countdown" onde Melvin Sparks só falta fazer chover na guitarra.


Eu aqui neste papo todo e o menor começa a berrar com uma virulência digna Do "Slade Alive"! Caramba, o cara nasceu punk. Ah, ia esquecendo... o nome dele é Murilo (uma homenagem ao Murilo Mendes, um dos meus poetas preferidos) e já fica ouvindo uma coisa ou outra comigo (apesar de parecer não concordar muito com isso). O mais velho já acostumou e até se amarra.

Desculpem o "momento ternura" mas acho que tenho uma fralda pra trocar...

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Sobre Cláudio Vigo

Da safra de 62 , Claudio Vigo ganha a vida com a poesia, o jazz e o rock n roll. Paga as contas como arquiteto.

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