Resenha - Dr. Sin e Jumentaparida (Dragão do Mar, Fortaleza, 08/09/12)

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Resenha - Dr. Sin e Jumentaparida (Dragão do Mar, Fortaleza, 08/09/12)


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O show que comento hoje teve muita zabumba, pandeiro e... guitarras. Trata-se da última noite do Hey Ho Festival, um festival que aproveitou a véspera do feriado para trazer a Fortaleza grandes nomes do rock nacional e reunir duas bandas cearenses que jamais deveriam ter encerrado suas atividades, o SWITCH STANCE e a JUMENTAPARIDA.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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"Eu sou da terra da embolada / Da rabeca bem tocada e do pandeiro / Que é mais veloz que o tiro do cangaceiro / Valente conhecido pelo mundo inteiro / Daqui pra frente / Misturo o rock com a levada do repente / Mostrando que o nordeste é muito diferente / Da imagem pobre que é mostrada pra você na TV"

Quem curte rock em Fortaleza já foi, com certeza, pelo menos uma vez no Hey Ho Rock Bar. A icônica casa de shows funcionou de 2003 a 2010 nas proximidades do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, e deixou saudades. Este ano, inclusive, pipocaram nas redes sociais alguns boatos (desmentidos posteriormente) de que o bar retornaria às atividades brevemente. Isso não aconteceu, mas, final de semana passado, em homenagem ao bar, aconteceu no estacionamento da praça verde do Dragão do Mar um festival relembrando os bons tempos da casa.

A área do estacionamento é pequena, mas cumpriu bem a intenção dos organizadores de reproduzir o clima de bar, recebendo satisfatoriamente todos os que ali se dirigiram. Não pude comparecer aos shows de quinta e sexta, que contou com bandas como DEAD FISH e MATANZA, além da extinta banda de hard core cearense SWITCH STANCE (banda que fez bastante sucesso dentro do seu estilo e chegou a lançar três discos).

Uma grande sacada dos organizadores foi a projeção (atrás das bandas que estavam se apresentando) de antigos cartazes e fotos dos eventos que aconteceram no Hey Ho, ligando o passado ao presente. Bandas dos mais variados tipos de rock, desde o death metal mais pesado ao hard core mais bacana já se apresentaram nos palcos do bar e alguns cartazes foram imediatamente reconhecidos pelo público.

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A última noite de festival traria os paulistas do DR. SIN e mais uma reunião, arranjada especialmente para este festival, a banda JUMENTAPARIDA. A primeira banda a se apresentar foi a 85 DECIBÉIS, uma banda de rock/pop formada por uns garotos (e uma garota) de não mais que vinte anos. Mostrando trabalho autoral, embora muito açucarado, a banda mostrou um bom trabalho (para quem gosta do seu estilo), com guitarristas competentes e a baterista Raizza Senna mandando ver nas baquetas.

O que veio a seguir, no entanto, é algo a ser reformulado, caso o festival venha a ocorrer nos próximos anos. A idéia de ter dois grandes nomes da cena local disputando a atenção do público, alternando músicas entre si, é muito interessante, mas o efeito no público não foi o esperado. Apesar das excelentes seleções dos "DJs" Baduê e George Frizzo (ambos grandes nomes da cena cearense), esta parte do festival, entre uma banda de abertura e o restante das bandas mostrou-se cansativa e inoportuna. Talvez funcione perfeitamente em um bar, enquanto sentados apreciamos uma boa cerveja, ou como ambiente alternativo, mas não no palco principal de um festival. Quem estava ao meu redor sinalizava compartilhar desta opinião.

Já perto da meia noite, sobe ao palco a banda FETS BAND, que muitos reconheceram como uma releitura da VULCANI, banda que agitou muitas noites no Hey Ho. Capitaneada por Fets Dômino e alternando entre covers de ícones do hard rock e rock de arena com composições da vulcani, a banda já começou "como um furacão", com "Rocking Like a Hurricane", cover do SCORPIONS. Impressionante como o timbre de Fets é semelhante ao de Klaus Meine. Com BON JOVI, AC/DC e a própria VULCANI, a banda de Fets segurou a platéia. Faltou apenas uma do EUROPE, que a VULCANI fazia também em seus shows na extinta Hey Ho.

Devido ao horário de seu vôo, o DR. SIN, que tinha sido anunciado como atração principal da noite, teve sua apresentação antecipada. Em turnê de divulgação de seu mais recente lançamento, o trio, acompanhado pelo tecladista Rodrigo Simão iniciou seu show com "Animal", faixa-título do CD. Com as duas mãos dedilhando no braço da guitarra, EDU ARDANUY já mostrou pra quem não o conhecia por que é considerado um dos melhores guitarristas brasileiros em atividade. Após executar "Lady Lust", também do novo CD, a banda começou um passeio por sua discografia, com músicas como "Isolated", "Howlin' In The Shadows" e "Miracles". Era o batera Ivan Busic que mais se dirigia a platéia (a voz de EDU ARDANUY não foi ouvida uma única vez em todo o show) no intervalo entre cada música, e, antes de começar "Nomad", a banda pregou uma peça em todos, com a inconfundível introdução de "Run To The Hills", do IRON MAIDEN. Interrompendo a música poucos segundos após o início, Ivan disse que não tinha vindo a Fortaleza para tocar covers. Após o maior sucesso da banda, "Emotional Catastrophe", o trio, ou melhor, o quarteto, saiu do palco. Voltaram para "Futebol, Mulher e Rock and Roll" lavando o público a catarse, mas, infelizmente, o show terminou ali mesmo. Depois que vi o set list original e fiquei sabendo que "The King", bela homenagem ao rei DIO, "Shed Your Skin" e "Those Days" iam ser tocadas, mas tiveram que ficar de fora, preguejei ainda mais contra a tal "batalha de Ipods".

Mas, haverão, com certeza, outras oportunidades de conferir um show "completo" do Dr. SIN. Para o que viria em seguida, não haveria mais nenhuma oportunidade. Quem não foi, deve lamentar. Depois de um longo hiato, estava de volta aos palcos a JUMENTAPARIDA, uma das mais icônicas bandas cearenses.

O quarteto (ops, quinteto, erro mais uma vez na contagem) foi formado por Zoo, nos vocais, Breno Lagartixa, na Guitarra, Anax Vieira, no Baixo e André Luiz nas baquetas, cpm o ilustre apoio de Wilker Dangelo (OBSKURE/FACADA) na percussão. Ao contrário de muitas bandas que se separam por "divergências musicais" (ou que deveriam ter acabado há muito tempo), o JUMENTAPARIDA se separou por que boa parte da banda foi morar longe de Fortaleza. Enquanto a cozinha ficou por aqui, Zoo hoje reside em Aracajú e Breno, em Brasília. O festival em homenagem ao Hey Ho foi encarado pelos caras como uma excelente oportunidade de voltar aos palcos e, quem sabe, sonhar e fazer com que os fãs sonhassem com um difícil, porém não improvável, retorno da banda.

"Opinião" e "Jumentaparida" abriram o show, com um Zoo e platéia bastante empolgados. Fundir hard-core (e outras vertentes do rock) com baião, como faz e diz a JUMENTAPARIDA na canção homônima não é novidade. Os RAIMUNDOS já estavam cansados de fazer isso quando a JUMENTAPARIDA surgiu. E, antes deles, baianos, NOVOS BAIANOS, novos pernambucanos e muita gente da região já tinha feito antes. Mas, ao invés da sacanagem gostosa dos brasilienses, a JUMENTAPARIDA opta por rechear as letras de suas canções com mensagens de cunho social, como "eu não vendo o meu voto", trecho de "opinião".

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Depois que Maurílio Fernandes, da também extinta banda SWITCH STANCE, subiu ao palco para um dueto em "Caipora", o JUMENTAPARIDA continuou com "Exodo", cantando o drama da migração, chaga nordestina que sempre esteve presente nas canções dos verdadeiros artistas desta terra. "Vim embora pra cidade / Pra ser mais um sofredor / Carregando em minhas costas / O peso da ilusão / De ter casa, ter dinheiro / De não me faltar o pão / Larguei minha família / Ficou pra trás o sertão / Tenho que pensar na vida / Esquecer o coração" diz a letra. E o tema continua em "A Súplica": "Caiu a noite, pé na estrada, / vamo se mudar / Tamo partindo pra cidade grande / Adeus". Qualquer semelhança com "A Triste Partida", de LUIZ GONZAGA, ou o poema de PATATIVA DO ASSARÉ "Vaca Estrela, Boi Fubá", musicado por FAGNER, não é mera coincidência.

Mas, embora o teor das letras possa fazer parecer que há alguma melancolia no som da JUMENTAPARIDA, essa impressão está errada. Não há. Há verdade, sim. Há critica social, bastante. Mas o que se vê no palco e na platéia é um autêntico show de vigor, o vigor nordestino que, parafraseando Euclides da Cunha, é "antes de tudo, um forte". E na plateia, ao som de petardos como "Carcará", "Sangue no Sertão", "O Coroné e o Lampião" até quem não está acostumado com rodas de mosh não consegue evitar entrar na porradaria. E, impedidos de fazer stage diving, separados do palco pela grade que os separava do famigerado front-stage (leia bem, famigerado é o tal do front-stage, não as pessoas que resolveram estar lá dentro), alguns malucos inventaram o "grade diving". É hard core com forró, mas o público se comporta como se estivesse num autêntico show de thrash metal. Se há dúvidas quanto a isso ser bom ou não? Isso é maravilhoso.

E quem, em cima de um palco, vendo toda essa energia poderia deixar de se emocionar. Visivelmente tocados pelo carinho da turma que estava ali para vê-los, os cinco integrantes do JUMENTAPARIDA, representados pelo frontman, ZOO, alimentaram a esperança de um retorno. "Estamos muito gratos e emocionados por toda a energia desse público que está aqui, para ver uma banda que acabou, uma banda que lançou um único disco. Se o mundo não acabar em 21 de dezembro, a JUMENTAPARIDA vai voltar", foi mais ou menos isso que ele disse, ou foi mais ou menos isso que eu, particularmente, quis ouvir. Quem quiser que me desminta. "Só sei que foi assim".

Depois de quase todo o conteúdo do seu primeiro disco, uma cover de LUIZ GONZAGA e outra de ALCEU VALENÇA, a banda se despediu do palco (dividindo esperanças com o público de que esta não seja uma despedida em definitivo) com a emblemático "Sou do Nordeste" e a oportuna (em tempos de mentiras por todos os lados nas campanhas eleitorais) "Falsas Promessas". "Não se iluda meu irmão / Que no ano da eleição / O que eles dizem não passa de promessas / Mais depois da apuração / Sempre vem decepção / Pois a seca já não mais interessa / Toda vez é a merma história / Povo burro sem memória".

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Já por volta das três da manhã, acaba o show. Ficamos com aquela sensação de orfandade. Agora, neste momento, bem que a batalha de ipods cairia muito bem pra aplacar esse sentimento de que o show tem que continuar, que a banda tem que continuar tocando, que a JUMENTAPARIDA não pode parar.

Créditos:
Letras espalhadas pela resenha: JUMENTAPARIDA

Line Up DR. SIN
Andria Busic - Vocal, baixo
Ivan Busic - Bateria
Eduardo Ardanuy - Guitarra
Rodrigo Simão - Teclados

Line Up JUMENTAPARIDA
Zoo - vocais e triângulo
Breno Lagartixa - guitarra distorcida
Anax Vieira - baixo galopante
André Luiz - Bateria thrasher
Wilker Dangelo - zabumba, pandeiro e o diabo a quatro

Set List DR. SIN

1 - Animal
2 - Lady Lust
3 - Fly Away
4 - Fire
5 - Howling in the Shadows
6 - Isolated
7 - Miracles
8 - Nomad
9 - Emotional Catastrophe
10 - Futebol, Mulher e Rock and Roll

Set List JUMENTAPARIDA

1. Opinião
2. Jumentaparida

3. Caipora
4. Êxodo
5. A Súplica
6. Infância Cibernética

7. Baião Voador
8. No Ceará Não Tem Disso Não
9. Aparêi

10. Sangue No Sertão
11. Sol e Chuva
12. Carcará
13. Coroné e Lampião

14. Vou Pagar pra Ver
15. Sou do Nordeste
16. Falsas Promessas

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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