Jethro Tull faz lobo arrepender de virar poodle ao renegar DNA evolutivo do rock em Curitiba
Resenha - Jethro Tull (Teatro Positivo, Curitiba, 12/04/2024)
Por Gustavo Maiato
Postado em 14 de abril de 2024
Quando Chuck, Jerry e Elvis cimentaram o arcabouço do rock nos anos 1950, a palavra "liberdade" podia ser lida nos corações daqueles primeiros fãs roqueiros que vislumbravam nos hits pra lá de ousados a sensação de sair das amarras conservadoras de suas próprias famílias.
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Tal como um viril lobo selvagem olha para um poodle de madame emperiquitado e se pergunta se valeu a pena ter se aproximado dos humanos para dar início a evolução de sua espécie, é provável que as almas dos pioneiros do rock assistam incrédulas ao show do Jethro Tull em Curitiba e se questionem se valeu a pena plugar a guitarra lá atrás.
O espírito do rock passou tão longe de Curitiba no show do Jethro Tull no Teatro Positivo que nem o mais experiente pai de santo conseguiria incorporar nem um John Lennon sequer. O motivo foi simples: Ian Anderson transformou seus fãs em alunos de escola primária colocando seguranças para circular entre as fileiras se certificando que ninguém mexesse nos seus próprios aparelhos celulares.
A discussão sobre assistir shows das telas dos smartphones ao invés de olhar diretamente para o palco é válida. Afinal, o rock é visceral e merece ser curtido sem os dispositivos eletrônicos. Mas daí a usar a força para impedir fãs de simplesmente checar as horas ou fazer o que bem entender com o celular é demais.
"Atenção, a pedido de Ian Anderson e da banda Jethro Tull, é proibido tirar fotos ou fazer vídeos com smartfones [sic] ou câmeras durante toda a apresentação. Ao adentrar a casa, certifique-se de que seu telefone está desligado ou em modo avião. As luzes dos aparelhos e dispositivos podem desconcentrar o artista e a banda. Caso seja necessário, a equipe de segurança solicitará o desligamento dos mesmos. Agradecemos a atenção e a colaboração de todos. Desejamos um ótimo show!"
A partir daí o silêncio sepulcral reinou no Teatro. Curtir um show de rock sentado também pode ser considerado uma ofensa para os Deuses? Talvez. No começo, "My Sunday Feeling" e "Roots to Branches" foram os destaques da – pelo menos isso – competente banda de apoio de Anderson. O flautista mandou bem nas performances. Isso merece créditos. Mas o clima da ditadura da flauta deixava todos visivelmente com energia contraída. Tanto que só no cover "Bourrée In E Minor," de Bach, que os presentes ensaiaram tímidos aplausos.
Após o intervalo de 15 minutos, mais clássicos permearam a noite, mas já era tarde para resgatar qualquer atmosfera mais crua. Ian Anderson pode muito bem pedir com educação para os fãs não filmarem ou fotografarem, mas impedir até mesmo que se pegue o celular para mandar um zap é o cúmulo da bizarrice. Resta saber se a próxima geração de roqueiros irá manter o espírito libertador que iniciou tudo lá atrás ou se vão virar doces chihuahuas olhando pelo retrovisor os lobos caçando na selva.
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