Letrux vira girafa em grande show em Fortaleza.
Resenha - Letrux (Estação das Artes, Fortaleza, 29/03/2024)
Por Guilherme Mitre
Postado em 06 de abril de 2024
"Minha obra tem formas diferentes de catarse; às vezes, mais agitada, às vezes mais introspectiva. A vida é assim: dinâmica". Letrux parece chamar para o palco uma polaroide da sua vida. Um registro daquilo que arquitetou ao longo de duas décadas de trabalho e que hoje resulta numa performance plural e instigante. Foi nessa atmosfera quase mística que a artista carioca se apresentou na Estação das Artes, no último dia 29 de março, sexta feira da Paixão de Cristo.

Não faltaram efemérides para Letrux brincar com a plateia cearense. Além da data religiosa, a cantora falou do calor em tom de bom humor, abanou os músicos de sua – excelente – banda com um leque personalizado, dançou, prendeu cabelos, soltou, tornou a prendê-los, tornou a soltá-los. Girou e brincou com as palavras, como faz muito bem. "Gira, gira, gira, vira girafa" é o verso do ótimo refrão de "Teste Psicológico Animalesco", música que encerra seu trabalho mais recente "Letrux como Mulher Girafa", mas que abriu a apresentação em Fortaleza. "Optamos por começar com ela hoje", confidenciou a cantora no backstage em entrevista gentilmente concedida minutos antes de subir ao palco.

As referências para "mulher girafa" vão muito além dos 1,85 m de Letrux. São signos diversos. Desde o apelido na infância à tatuagem na costela; da admiração pelo poder de observação do animal à tranquilidade em meio a sua imponência. A cantora assumiu a alcunha com beleza. Para o figurino do show na Estação das Artes, usava uma bota que se fundia a uma meia calça com estampa de pele de girafa.

Algumas músicas do novo trabalho – como "Louva Deusa" e "Hienas" – parecem já estar cunhadas no íntimo da plateia. A resposta do público emociona e não seria surpresa se faixas como essas se tornassem clássicos do repertório para as próximas turnês. Curiosamente, isso não acontece em "Zebra", faixa que surgiu da promissora parceria da cantora com Lulu Santos. Um momento mais contemplativo do público, talvez.

"Sou honesta com o que faço. Não me preocupo com o super estrelato. Já me orgulho de onde cheguei". De fato, há honestidade. Ainda que o novo disco tenha dança, bom humor e um lirismo estimulante, é necessário mais imersão do que em "Letrux em Noite de Climão", seu primeiro disco com esse nome e formato – antes, Letícia Novaes já foi Letuce, Ménage à Trois ou Leticius (seus projetos anteriores que remontam a duas décadas atrás). O mesmo acontece em "Letrux aos Prantos", segundo álbum, lançado em 2020, no pico da pandemia do COVID-19 – registros menos certeiros que seu debut, mas que apenas precisam de um tempo maior de maturação a cada audição.

Quando a programação eletrônica oitentista de "Flerte Revival" ecoa nos amplificadores da Estação das Artes, nota-se a dinâmica que Letrux cita sobre os níveis de catarse da sua obra. Agora, todos gritam, cantam, dançam e pulam com a artista. Assim vale para as execuções de "Que Estrago" ou "Hypnotized" e sua deliciosa reflexão ("eu só queria dormir e acabei me apaixonando; eu só queria me apaixonar e acabei dormindo").

"Meu barato mesmo é a letra", conta a artista, que sabe abordar assuntos sérios e densos com muita leveza e sensibilidade. "Louva Deusa" pergunta: "Como se diz pra alguém: ‘eu não me apaixonei como você’?", por exemplo.

Letrux fez um show rico e repleto de nuances para quem está disposto a enxergar. Além do clima de "danceteria" dos anos 80, há boas letras e bons músicos no palco. Seu lado teatral passa por bom humor e até circo – quando puxa uma fita de papel da "garganta" e atira na plateia em êxtase ou quando abre um livro em chamas. Uma artista que parece gostar da sua liberdade e que trabalha por ela com profissionalismo e coragem. Principalmente, coragem.








Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A melhor música dos Rolling Stones, segundo a Paste Magazine
Nigel Durham, ex-baterista do Saxon, morre aos 61 anos
"Gates of Twilight", a estreia certeira do Wings of Steel
Aos 78 anos, Tony Iommi (Black Sabbath) reconhece não ter mais condições de realizar turnês
A banda influenciada pelo Iron Maiden que Bruce Dickinson elegeu como sua favorita
Tony Iommi segue com planos de remixar "Born Again", do Black Sabbath
A música dos Ramones que provavelmente seria "cancelada" nos dias atuais
A música que Ian Gillan considera a melhor de sua carreira, acima dos clássicos do Deep Purple
"From The Dark"; "apenas" um disco solo de Tony Iommi que evoca o Black Sabbath com Dio
O que "Tornado of Souls" tem em comum com "Stairway to Heaven", segundo Friedman
Pitty e seu vício em alguém apresentado em "Na sua estante"
Por que o Led Zeppelin nunca alcançou a popularidade dos Beatles, segundo John Paul Jones
A banda que inspirou o Pink Floyd na criação de "Money", segundo David Gilmour
A banda que decidiu acabar quando chegou ao auge para não enfrentar a decadência
Slayer toca "Reign in Blood" na íntegra no México; confira setlist e vídeos

Ginger and the Peppers - O novo Rock pulsa na Casa de Cultura
Helloween - Em Porto Alegre, 2 horas e 20 minutos que pareceram passar em instantes
Resenha de Show: Nervosa, Bloodskin e Leprosy em Goiânia
Angra - como foi assistir a um show da banda em Campinas
Rockstadt Extreme Festival: 5 dias de metal, caos e shows inesquecíveis na Transilvânia
A primeira noite do Rock in Rio com AC/DC e Scorpions em 1985
Metallica: Quem viu pela TV viu um show completamente diferente


