Resenha - Final Frontier - Iron Maiden

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Resenha - Final Frontier - Iron Maiden


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Ao lado do Black Sabbath, do Judas Priest e do Metallica, o Iron Maiden é o que de melhor o Heavy Metal produziu em seus 40 anos de história. Nenhuma outra banda do estilo conseguiu ser tão influente quanto esse quarteto e, mais importante, nenhuma obteve tanto sucesso na tarefa de combinar sofisticação melódica e agressividade, raiva e apuro técnico. Das quatro, o Iron Maiden é, sem dúvida, a mais sensível e climática. Muito mais do que o peso – principal elemento caracterizador do Heavy Metal –, o grupo de Steve Harris sempre se preocupou com a construção de belas melodias e, principalmente, com a associação minuciosa, detalhista, entre letra e instrumental. Esse entrelaçamento entre forma e conteúdo, entre o semântico e o sintático, atinge o ápice da poeticidade, por exemplo, em músicas como “Hallowed Be Thy Name”, “To Tame a Land”, “Rime of the Ancient Mariner” e “Powerslave”, nas quais melodias e solos enriquecem as letras e se transformam em partes constitutivas do processo de produção de significados.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Tal obsessão estilística, concretizada de forma mais ou menos inspirada, sempre existiu. Mesmo na fase Paul Di'Anno, em que a proposta era tocar uma espécie de punk melódico, músicas como “Phantom of the Opera” e “Killers “ já antecipavam qual seria o caminho da banda. A entrada de Bruce Dickinson, com seu estilo operístico e teatral, acelerou a transição, deixou o som mais polido, e nos entregou alguns dos melhores discos da música pesada, como “Piece of Mind” e “Seventh Son of a Seventh Son”. O sucesso artístico e comercial, entretanto, não se repetiu na década de 90. Apesar de alguns bons momentos aqui e acolá, “No Prayer for the Dying” e “Fear of the Dark” representaram uma confusa e malsucedida tentativa de simplificação. A posterior saída de Bruce Dickinson, para investir em uma ótima e revigorante carreira solo, nocauteou de vez a banda. Barítono e contido, Blaze Bayley se revelou uma escolha equivocada para substituir Dickinson, tenor e grandiloqüente. “The X-Factor”, na verdade, não é de todo ruim: “Sign of the Cross”, “Man on the Edge” e “Lord of the Flies” sobreviveram ao teste do tempo. “Virtual XI”, por sua vez, é pífio. De longe, o pior disco da Donzela.

Os anos 2000 trouxeram novos ares. Os incensados retornos de Dickinson e Adrian Smith, guitarrista de extrema elegância e inquestionável talento, representaram um bem-vindo rejuvenescimento. Agora um sexteto, com três guitarristas, a banda passou a mesclar o seu tradicional Heavy Metal com influências de rock progressivo. “Brave New World” foi muito bem recebido por fãs e críticos e permanece um disco bastante respeitável. “Dance of Death” tem momentos de grande inspiração (“Montsegur” e a faixa-título, por exemplo), mas está um degrau abaixo de seu antecessor. Apesar da afetação, “A Matter of Life and Death” se mostrou um ótimo trabalho, que aprofundou o direcionamento progressivo e nos apresentou a uma banda empenhada em buscar novos caminhos sem perder sua essência: a beleza melódica e a preocupação quase parnasiana com a associação entre a dimensão temática e a dimensão sintática.

Nesse sentido, “The Final Frontier”, 15º e talvez último álbum do sexteto britânico, é uma continuação natural – e melhorada – do AMOLAD. Devemos analisá-lo e compreendê-lo sob a ótica da experimentação: ainda que apresente composições tipicamente maidenianas, o que ouvimos em “The Final Frontie”r é uma banda preocupada em explorar novos territórios. A incursão em sonoridades nunca antes empregadas, entretanto, não se dá de maneira a descaracterizar o universo estilístico da banda. Com exceção de alguns minutos, quando somos surpreendidos com uma combinação sonora muito distante do que se espera do Iron Maiden, nunca deixamos de identificar os timbres, os arranjos, as melodias e os temas que tão bem caracterizam a música e a visão de mundo do grupo. Ao contrário do Scorpions, o Iron Maiden parece não querer encerrar a carreira repetindo fórmulas já consagradas – mesmo que “The Final Frontier” insista em estruturas amplamente utilizadas em trabalhos mais recentes.

A Donzela se reinventa já na abertura do álbum. “Satellite 15...The Final Frontier” provoca um agradável sentimento de estranheza. Onde estão as guitarras aceleradas, o baixo cavalgado e as melodias marcantes que, excetuando-se “Sign of the Cross”, sempre marcaram as faixas de abertura da banda? Ao invés disso, escutamos uma peça não de heavy metal, mas de rock progressivo. A marcação tribal da bateria, as guitarras mais sombrias e espaciais do que o de costume e o vocal lento, que transita entre o mistério e o desespero, criam uma atmosfera original e perturbadora. Mas logo seremos surpreendidos novamente e descobriremos que o Iron Maiden resolveu subverter a estruturação tradicional das canções de rock e juntar duas músicas em uma. Em uma demonstração notável de versatilidade e frescor, a banda sai, em poucos segundos, da complexidade e do caos para a simplicidade do hard rock. Tem início um riff básico, direto. O contraste proposital com a primeira metade se acentua ainda mais no bridge e no refrão, extremamente grudentos. Os solos que se seguem são competentes e, ao fim, tem-se a certeza de ter escutado uma obra insólita e ousada cujo atrativo principal está em unir, com brilhantismo, formatações musicais tão díspares e até conflitantes. A separação entre as duas partes em duas músicas distintas, como já foi sugerido, seria um equívoco. A intenção de “Satellite 15” é justamente quebrar o horizonte de expectativas do ouvinte e prepará-lo para o que virá mais à frente. A faixa-título é, portanto, uma síntese invertida de The Final Frontier: convencional na segunda metade e experimental na primeira.

“El Dorado”, o single do álbum, é Iron Maiden em sua forma mais genuína. Entretanto, falta inspiração. O riff e a tradicional cavalgada de baixo até que empolgam, mas o refrão demora a chegar e quando isso acontece nos deparamos com um vocal mal equalizado, que acaba soando artificial demais. Em compensação, o bridge é muito bem construído. A melodia é marcante e bem encaixada e Bruce Dickinson investe, corretamente, em tons médios e mais rasgados que o habitual, o que será uma constante no decorrer do álbum. O trio de guitarristas executa bons solos na parte intermediária da canção. Conservadora, “El Dorado” é apenas razoável.

O nível sobe alguns degraus com “Mother of Mercy”. A introdução é calma e interpretação de Dickinson é dramática na dose certa. O peso vai aumentando aos poucos, mas não tanto – aliás, em se tratando de Heavy Metal, este não é um álbum pesado. O maior deslize de “Mother of Mercy” está no bridge: é maior do que deveria – note que Bruce Dickinson se apressa nos versos finais – e o arranjo é pobre, empurrado com a barriga. O refrão é muito bom, mas poderia ser menos exagerado e construído com mais calma.

Na seqüência, o álbum tem dois de seus melhores momentos. “Coming Home” é, em uma palavra, brilhante. Um tour de force de Bruce Dickinson, a quarta faixa de “The Final Frontier” é uma power ballad trabalhada nas minúcias. O dueto progressivo do início, bastante criativo e agradável, é sucedido por um teclado climático e logo Dickinson impõe uma interpretação absolutamente comovente à letra – sobre a volta para casa de um soldado britânico. A arquitetura dramática é perfeita – apresentação, desenvolvimento e clímax são desenvolvidos de maneira quase artesanal. O refrão, que em mãos menos habilidosas certamente seria uma choradeira só, mantém a elegância e nunca descamba para o melodrama. Para completar, o solo de Adrian Smith na metade da canção é de extrema sensibilidade melódica. Ele toca as notas que a canção exige com uma beleza desconcertante.

”The Alchemist” continua em terrenos já explorados. É aquele típico metalzão que o Iron sabe fazer como poucos: veloz, melódico, com guitarras dobradas e refrão marcante. Não é excelente porque uma canção no melhor estilo NWOBHM pede mais peso, mas cumpre seu papel como transição para a segunda parte de “The Final Frontier”, que exigirá bastante do repertório musical do ouvinte.

Complexa, multifacetada e bastante ambiciosa, a metade derradeira do álbum comete alguns dos pecados já apresentados no AMOLAD ao mesmo tempo em que exibe idéias inspiradas. Daqui em diante, o ouvinte se deparará com constantes quebras e variações rítmicas, riffs fragmentados e as tão odiadas introduções lentas com dedilhados de baixo. O começo, sejamos sinceros, é bastante desanimador. A afetação e a megalomania do último álbum são reproduzidas, ipsis literis, em “Isle of Avalon” e “Starblind”, dois exigentes exercícios de paciência até mesmo para o ouvinte mais familiarizado com os excessos do rock progressivo. A primeira tem uma introdução desnecessariamente longa e seu instrumental, com exceção de passagens intermediárias com explícitas influências de Rush, é muito duro, sem qualquer feeling. A construção climática fracassa porque as idéias aqui presentes já foram apresentadas em diversas outras ocasiões e o ouvinte tem repetidas vezes a sensação de déjà vu. Nos últimos 3 minutos, Bruce Dickinson se põe a cantar no mesmo tom, quase sem variação, e banda toca no piloto automático, replicando o que já haviam apresentado. “Starblind” não é muito diferente em termos de estrutura. A introdução, apesar de curta, é lenta e completamente dispensável. Em seguida, um ótimo riff é desperdiçado por um instrumental intricado e cadenciado em demasia. O refrão, tímido, é um absoluto anticlímax. Cansativas ao extremo, “Isle of Avalon” e “Starblind” – a pior música de “The Final Frontie”r – têm prazo de validade curto.

Quando o ouvinte talvez não mais esperasse grandes momentos, Janick Gers, guitarrista controverso e compositor competente, nos entrega uma pérola. “The Talisman” é um épico de 9 minutos que deverá ter grande receptividade ao vivo. O início, ambientado em uma atmosfera celta, remete a “The Legacy” do AMOLAD e tem Bruce Dickinson cantando como se declamasse um poema. Grande intérprete, o vocalista está à vontade como um verdadeiro trovador. A introdução é um pouco longa, mas a música encorpa com um riff poderoso e energético. O refrão é grandioso e se Kevin Shirley tivesse reduzido em meio tom a voz de Bruce, como o próprio faz no final da música com grande resultado em termos dramáticos, ele soaria ainda melhor. Uma música apoteótica.

“The Man Who Would Be King” traz uma sensível passagem introdutória. O andamento que se segue tem a marca de Dave Murray: discreto e eficiente. Bruce volta a apostar em tons médios e obtém ótimo resultado. A criatividade atinge seu ápice logo após o refrão. A base fragmentada é superposta por um solo brilhante e fora dos padrões. A música toma um caminho labiríntico e, apesar dos muitos elementos em cena, a banda nunca perde a mão. A Donzela exibe maturidade e um grande senso melódico.

Composta por Steve Harris,“When The Wild Wind Blows” é uma canção que só músicos talentosos podem construir. A melodia inicial é de uma singeleza tocante e é particularmente incrível a profusão de grandes melodias que se sucedem naturalmente de maneira harmônica. Bruce Dickinson acerta mais uma vez na entonação desoladora que imprime principalmente na parte final da canção. Essa é, talvez, a passagem onde Mr. Air Raid Siren atinge as notas mais baixas de toda a sua carreira. “When the Wild Wind Blows”, na verdade, não é uma música de Heavy Metal. É um rock clássico, minimalista, suave, sutil na forma e no conteúdo. Sem dúvida, um desfecho poético e encantador e um dos momentos de maior inspiração da história da Donzela.

Mais complexo e longo trabalho da banda, “The Final Fontier” não é uma obra-prima. Tampouco é um disco desprezível. Não é, para ser mais exato, um disco de Heavy Metal convencional, com peso ensurdecedor, riffs frenéticos e solos tocados na velocidade da luz. Aliás, quem espera isso do Iron Maiden, na verdade, nunca compreendeu a verdadeira essência da banda. O foco de Steve Harris e Cia nunca esteve na velocidade pela velocidade ou no virtuosismo exibicionista e “The Final Frontier” – ao mesmo tempo inspirado e exagerado, genial e medíocre – é mais uma prova disso.

Se for mesmo o canto de cisne do grupo – como dá a entender a foto de fechamento do encarte – “The Final Frontier” terá sido, no mínimo, um desenlace honroso para uma carreira consistente, íntegra e repleta de momentos brilhantes. Depois de três décadas de existência, o Iron Maiden, por seus próprios méritos, continua a ser uma banda de grande relevância.

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Sobre Guilherme Vasconcelos Ferreira

Ano 2000. Então com 12 anos, entrei na secção de CDs de um supermercado para gastar o dinheiro da mesada que meu pai dera dias antes. Sem o mínimo de discernimento, deixei-me fascinar pela bela capa do Brave New World, do Iron Maiden. Não me decepcionei. Aqueles vocais operísticos e as guitarras melodiosas foram a porta de entrada para o heavy metal, estilo que muito contribuiu para a formação dos meus valores e da minha personalidade. Hoje, aos 21 anos, estou no último ano do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e trabalho com assessoria política. A música pesada, porém, nunca me abandonou. Além da Donzela, nutro sincera paixão por Black Sabbath, Deep Purple, Dio, Metallica, AC/DC, Rush, Pink Floyd, Dream Theater, Judas Priest, Yes e Motörhead. As bandas emo, indie ou qualquer uma que tire onda de moderninha e bem comportadinha me exasperam profundamente. Odeio instrumentais paupérrimos e rebeldia de boutique. Rock n’ roll existe para questionar noções consagradas de normalidade e tensionar padrões morais e estéticos dominantes. Para cultivar a estupidez e exaltar o artificialismo, já existe a música pop. Sim, sou um old school empedernido.

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