Iron Maiden: CD mais maduro e coeso desde a volta do Bruce
Resenha - Final Frontier - Iron Maiden
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 29 de dezembro de 2010
Nota: 9 ![]()
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Talvez por eu já ter coordenado o meu próprio site de cultura pop e, portanto, ter carregado nas costas a obrigação de moderar estes espaços, preciso confessar que acabei perdendo um pouco a paciência com fóruns e áreas de comentários – ainda mais em publicações voltadas para o mundo da música. E foi justamente por causa de uma minoria insuportável que perdeu totalmente a capacidade de se divertir ouvindo música. Uma minoria que se acha tão especializada no universo fonográfico que simplesmente não consegue ouvir uma canção sem se apegar aos detalhes mínimos, deixando de lado o verbo "curtir" para exercer o verbo "pentelhar".

Mas nem mesmo esta minoria foi capaz de me manter afastado de fóruns e afins quando o Iron Maiden lançou o seu recente disco de inéditas, "The Final Frontier", porque nós sabemos o quão apaixonados são os fãs brasileiros da banda britânica. E sabemos o quão inflamadas podem ficar as discussões entre os fãs pró e contra aos trabalhos mais recentes da trupe de Steve Harris. Antes de escrever meus próprios pensamentos sobre o disco, fiz questão de me recostar na poltrona e acompanhar, de longe, o circo pegando fogo.
Mas sabe que eu me decepcionei? Porque logo percebi que a maior parte dos comentários anti "The Final Frontier" repetem aquela mesma lenga lenga entoada à exaustão quando do lançamento de "Brave New World", "Dance of Death" e "A Matter of Life and Death", os três discos gravados pela Donzela de Ferro depois do retorno de Bruce Dickinson à formação – que passou a contar também com três guitarristas. O papo é sempre assim: "ah, estes discos não fazem jus ao que o Iron fez no passado, na década de 80, blá-blá-blá". Ou seja: os detratores estavam esperando um novo "Powerslave" ou "The Number of the Beast". Já falei sobre esse assunto antes. Então, prometo que vou ser breve: querem ouvir os discos antigos? Coloquem os ditos cujos para tocarem e matem as saudades. Agora, ficar exigindo que uma banda toque a vida inteira bolachas que são verdadeiras repetições, umas das outras, simplesmente não dá.
Na minha nada modesta opinião, "The Final Frontier" é uma evolução nítida no tipo de sonoridade que o sexteto inglês vem desenvolvendo desde "Brave New World". Sim, "The Final Frontier" continua soando absolutamente Iron Maiden, não tenho a menor dúvida. Todas as marcas registradas da banda estão ali, nítidas, visíveis, perceptíveis como sempre, DNA puro e indiscutível. Mas é um Iron Maiden que passou a temperar o seu heavy metal tradicional usando flertes com o rock clássico setentista, com o hard rock e mesmo com o rock progressivo. Este último, por sinal, é um item que vem sendo citado com frequência na imprensa especializada desde "A Matter of Life and Death", por vezes dando a entender que o Maiden se rendeu de tal forma ao progressivo que teria se tornado praticamente um novo Pink Floyd. Sem exageros, meu povo.
A batida quase tribal na introdução de "Satellite 15...The Final Frontier" (que é claramente duas diferentes canções em uma, por sinal) pode ter assustado os tradicionalistas, mas quando as guitarras começam a cantar de fato na faixa-título, é nítido que este é o Iron Maiden bom e velho de guerra, em ótima forma. A mesma ótima forma que se pode ouvir na típica old school "The Alchemist", que se reconheceria de longe como sendo uma canção dos caras, podendo figurar em qualquer álbum clássico da banda (acendam suas tochas agora, esta é a deixa). E é a mesma ótima forma que se pode detectar em "Coming Home", um tributo muito mais hard rock setentista do que heavy metal tradicional aos heróis que ajudaram a formar a identidade musical da banda.
O mesmo se pode dizer dos duelos de riffs, quase lisérgicos, que rolam lá pelo meio da excelente "The Man Who Would Be King", daquele tipo que deixaria mestre Ritchie Blackmore orgulhoso. E, para completar, que tal a épica "Starblind", com seus picos progressivos e uma orquestração megalomaníaca? Considero que essa canção estaria bem abrigada também em "A Matter of Life and Death" – que eu considero um disco de atmosfera ainda mais grandiosa do que "The Final Frontier", aliás.
No final, dá até para esquecer o single "El Dorado" e seu riff "inspirado" em "Wasted Years" – porque a canção, que é apenas bacana, acaba totalmente eclipsada em meio à qualidade do restante do álbum.
Para encerrar este papo, acho que posso dizer que "The Final Frontier" é o disco mais maduro e coeso do Iron Maiden, desde a volta triunfal de Bruce Dickinson à banda. Para quem ainda gosta de ouvir o material inédito dos caras, isso serve como atrativo para descobrir o álbum. Para quem não gosta, isso só serve para que se mantenha ainda mais distância destas músicas, preferindo ouvir as velharias na vitrola antiga. De qualquer modo, todo mundo sai ganhando. Tudo bem para vocês?
Line-up:
Bruce Dickinson - Vocais
Steve Harris - Baixo
Dave Murray - Guitarra
Adrian Smith - Guitarra
Janick Gers - Guitarra
Nicko McBrain - Bateria
Tracklist:
1. Satellite 15... The Final Frontier
2. El Dorado
3. Mother of Mercy
4. Coming Home
5. The Alchemist
6. Isle of Avalon
7. Starblind
8. The Talisman
9. The Man Who Would Be King
10. When the Wild Wind Blows
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