Resenha - Death Magnetic - Metallica

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Resenha - Death Magnetic - Metallica


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Existem formas diversas de se analisar um novo álbum. Muitos usam a praticamente inevitável comparação com discos anteriores. Há quem se baseia no trabalho de outras bandas para fazer sua análise. E alguns tentam avaliar o material em si, sem qualquer influência externa. Não é tarefa fácil escrever sobre um disco recém-lançado. Por mais vezes que se ouça o trabalho em um curto espaço de tempo, será sempre um julgamento baseado em “primeiras impressões”, que podem mudar com o tempo. Se a crítica é sobre um disco de inéditas do Metallica, mais complicado ainda, pois há tanta polêmica envolvida, além de sentimentos tão extremos, que é preciso até modificar um pouco a forma habitual de se escrever uma resenha para que se possa fazer entender bem.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Sem entrar no mérito de qual disco é melhor ou pior, é fato que, gostando ou não dos últimos 12 anos da banda, vários fatores ocorridos nesse período podem influenciar na análise de qualquer coisa lançada por eles. Ora, depois de anos de reclamações sobre a falta de peso, qualquer coisa mais pesada poderia ser considerada como ‘volta às raízes’ ou ‘excepcional’. Após mais de uma década sem ouvir um solo de Kirk Hammett num álbum de inéditas, há o risco de se achar que qualquer solo criado por ele agora seja uma coisa ‘épica’. Com a lembrança recente de “St. Anger”, algo com produção decente correria o risco de ser visto como o material mais bem produzido de todos. Por outro lado, ao se acostumar a falar mal da banda, outros tantos poderiam fazer ‘vista grossa’ para um bom trabalho, apenas por achar que os caras já eram. Em resumo, para muitos, mesmo de forma inconsciente, a comparação com o som mais recente da banda poderá dar a impressão de que “Death Magnetic” é melhor do que realmente o é e para outros a falta de esperança pode gerar uma avaliação descuidada sobre a real qualidade do disco.

Os integrantes do Metallica já afirmaram em várias ocasiões que não fazem músicas pensando no que os fãs gostariam de ouvir. No entanto, a primeira impressão que se tem ao ouvir o álbum é de que ocorreu exatamente o oposto, que estamos diante de uma banda que, dada a avalanche de críticas geradas com seus últimos trabalhos e atitudes, considerou em algum momento que necessitava de sua base de fãs para sobreviver e que, então, era preciso fazer algo que restaurasse sua credibilidade. Com isso, pareceu buscar em todos os seus discos anteriores aquilo que cada um possuía e que mais poderia agradar à massa de admiradores, tentando juntar tudo isso num trabalho só, cercando-se de um cuidado extremo para que tudo saísse da forma certa. Assim, somos colocados frente a uma colcha de retalhos onde novos e antigos clichês da banda se revezam a todo momento, entremeados por alguns trechos que apostam num som mais moderno, o que acabou comprometendo a unidade do trabalho e em certas partes o fez soar como algo sem uma identidade própria. Mas o que importa é que queremos ouvir boa música e, nesse quesito, o que o Metallica entrega ao mundo é um trabalho muito bom.

O disco não é ‘old school’, como tanto se falou, pois não são apenas guitarras distorcidas e músicas mais pesadas que fazem um disco assim. Deve existir todo um clima por trás das canções para que as mesmas possam ser ditas ‘old school’. Alguns momentos apontam para esse rumo, mas são alguns momentos. A descrição que mais se aproxima da realidade foi a de quem o citou como um elo entre “...And Justice For All” e “Metallica”, pois herdou de um o peso das guitarras e as mudanças de andamento e do outro o fato de ter músicas com refrão extremamente radiofônico. O “Black Album” seria uma boa base para comparações com esse trabalho, por misturar peso a um som mais acessível, mas o peso de “Death Magnetic” é bem mais escancarado. Trata-se de um disco heterogêneo, com os seus ‘altos e baixos’ e algumas músicas com muito mais qualidade que outras.

Os batimentos cardíacos lentos e tranqüilos associados à introdução climática de “That Was Just Your Life” não dão idéia dos 7 minutos de porrada que estamos prestes a ouvir. Sim, esse é um Metallica que soa exatamente como Metallica. Nessa canção, a banda mostra espírito, a sua antiga essência, algo que não é todo mundo que consegue sentir em se tratando de música. Uma essência que há muito tempo não percebíamos numa canção da banda. As coisas estão todas no lugar. Os riffs são pesadíssimos e o solo é totalmente encaixado na proposta da música. James Hetfield já entrega de cara o seu melhor vocal no disco, conseguindo uma agressividade que não se via há muito. Lars, embora pudesse explorar melhor as possibilidades da música, não compromete em hora nenhuma. Se o álbum inteiro seguisse o clima dessa faixa, com certeza seria uma obra-prima imediata. Em “The End Of The Line”, a banda consegue a impensável junção entre dois riffs iniciais impressionantes pela agressividade, algo totalmente thrash oitentista, unindo-os a um terceiro riff que caberia em qualquer disco do Pearl Jam, e ainda com um refrão próximo aos sons mais recentes do quarteto da Bay Area. Kirk Hammett deixa bem claro que trouxe seu wah-wah e que pretende usá-lo à exaustão e mais para o final aparece uma parte mais lenta, que provavelmente será cantada em uníssono nos shows. O resultado final é uma canção muito boa, mas um pouco estranha, por alternar momentos de um espírito totalmente porrada com outros de um rock mais rasteiro. É uma mesma música, mas com dois climas diferentes que vão se revezando.

“Broken, Beat & Scarred”, embora seja mais cadenciada, traz alguns dos melhores riffs de “Death Magnetic”. Uma canção vigorosa e enérgica, com um refrão absolutamente agressivo. Em algumas passagens Hetfield escolhe uma melodia vocal que não bate com o peso da música, só que, no geral, a faixa é um exercício de brutalidade. Daquelas que você termina de ouvir com um sorriso no rosto e pensa: “isso é metal, e dos bons”. Se você gosta de comparações, a quarta música e primeiro single, “The Day That Never Comes”, a princípio deixa um clima de deja-vu, pois parece um misto de “Fade To Black” com “One”, com algumas passagens e melodias que carregam uma influência de Iron Maiden. A primeira parte, mais lenta, apresenta um clima ‘singelo’ e ‘blasé’, que pode desagradar aos mais puristas, mas no final descamba para um som bem pesado (lembrou de “One”?), seguindo a tradição de semi-baladas que terminam na base da pancadaria. À seguir temos aquele que, provavelmente, é o ponto mais alto do disco. “All Nightmare Long” é pesada já nos dedilhados iniciais. Quando começa o peso ‘de fato’, temos um show de palhetadas alternadas, riffs cavalgados, mudanças bruscas de andamento, melodias obscuras, além de um refrão marcante. Não há como não bater cabeça feito um louco ouvindo essa música. Essa é mais uma onde Hetfield consegue um vocal mais agressivo, bem de acordo com a sonoridade da canção. Kirk entrega solos desorientados (no bom sentido) e, mais para o final, antes de retomar o refrão pela última vez, temos um trecho de Slayer puro, de fazer inveja a Jeff Hanneman.

No entanto, já no início de sua segunda metade, “Death Magnetic” tem uma queda de ritmo e de qualidade. “Cyanide” é uma canção totalmente deslocada no disco. Uma cadência excessiva que não permite que se empolgue com a música, além de um refrão quase pueril, se não em sua letra, mas na sua sonoridade. Apresenta alguns bons riffs em certos momentos, mas a banda compôs outros muito melhores em quase todo o restante do álbum. Interessante que o solo de Kirk nessa canção é muito bom, a melhor coisa nela. Na seqüência, temos “The Unforgiven III”. É impossível não compará-la às versões anteriores, já que a própria banda faz questão disso quando dá o mesmo nome a três músicas, como se uma fosse continuação da outra. O piano elegante do início da música é seguido por uma melodia obscura, que inclusive faz dessa a mais obscura canção do álbum. Só que o resultado não consegue a mesma carga de dramaticidade que se observa, por exemplo, na “The Unforgiven” original, do disco preto.

O nível volta a melhorar na música seguinte. “The Judas Kiss” é uma boa canção, mas poderia ser melhor se investisse mais em partes que ouvimos dentro da própria faixa. Por que dizer isso? Porque ela começa com bons riffs, mas que cedem lugar para um já não tão bom assim e que talvez fosse meio desnecessário. Depois retorna para outro riff matador, mas que teria efeito muito mais devastador se Lars não impusesse tanta cadência na música. Não que o ritmo de bateria ‘quebrado’ seja ruim, mas se ele tivesse optado por descer o braço sem dó e com velocidade em seu kit... O refrão é daqueles que grudam na cabeça e no final há uma passagem mais calma, que remete a “Enter Sandman”, não em termos de peso ou melodia, mas de estrutura. Boa música, mas que tinha potencial para ser melhor ainda. “Suicide & Redemption” certamente será a mais difícil de ser assimilada pelos fãs num primeiro momento, pois com certeza vão traçar um paralelo entre ela e as demais faixas instrumentais da banda. E, ao fazer isso, a maioria perceberá que ela não tem a aura épica de “The Call Of Ktulu” e nem a complexidade de “To Live Is To Die”. Entretanto, é bem provável que, com o passar do tempo, todos aqueles que irão possivelmente torcer o nariz de início, perceberão que música estão deixando de apreciar. Essa é uma daquelas canções onde se percebe que a essência do som do Metallica ainda não morreu, que ela aparece de vez em quando. Ouvindo-se a música, percebe-se que a banda tenta (e consegue) passar um misto de sentimentos, como angústia, raiva e esperança. Desde os riffs mais pesados até a bela passagem melódica no meio da canção, é uma faixa para se escutar com toda a atenção e de mente aberta. E os dois últimos minutos, que retomam um dos riffs executados antes, mas num tom diferente, são totalmente ‘sabbathianos’.

A derradeira música, “My Apocalypse” é a que mais reforça a idéia de que a banda buscou inspirações em seu passado, pois ela soa como um misto de “Damage Inc.” e “Dyers Eve”, com uma parte à lá “No Remorse” e (ufa) ainda um ‘quê’ de Slayer. É uma pancadaria daquelas. No entanto, a despeito da boa música que ela se mostra, não há de fato um riff ou melodia que supere nenhuma das canções citadas como referência. Certamente, ela empolgará muito mais por se ver e ouvir um Metallica tocando tão rápido e pesado novamente do que propriamente por ser uma música magnífica.

As letras rodeiam temas como morte, autodestruição e redenção. O Metallica já escreveu letras mais intimistas, mais inteligentes ou mais profundas que as verificadas aqui. No entanto, elas não diminuem a qualidade do disco, pois não são letras ruins e, além disso, aqui o foco principal da banda e de quem a escuta foi a sonoridade. Rick Rubin não fez feio na produção, embora em certos momentos a bateria dê a impressão de estar excessivamente alta e o baixo excessivamente baixo (sem trocadilhos). E a própria captação de som da bateria parece deixar a caixa com um som um pouco estranho. Quanto aos músicos, o destaque absoluto fica por conta da dupla de guitarristas. “Death Magnetic” é um disco que se apóia sobretudo em riffs e, dessa vez, mesmo quando intercalaram riffs matadores com outros meio deslocados, a dupla Hetfield/Hammett mostrou a que veio. Por falar em Kirk Hammett, ele entrega bons solos, mas optou por focar muito mais num estilo rápido e caótico do que em desenvolver mais a questão melódica dentro do próprio solo. Já James enquanto vocalista está melhor do que em algumas outras pelejas, mas realmente perdeu muito da agressividade na voz, algo que faz uma diferença enorme em músicas que supostamente almejam ser pesadas e com mais brutalidade. Lars Ulrich não se aprofundou em nenhuma das músicas, não explorou opções que todas elas lhe davam. No entanto, também não comprometeu em hora nenhuma. Foi lá, fez o que tinha que fazer, e pronto. O estreante Robert Trujillo foi bem, não comprometeu e seu baixo acrescentou algo ao peso nas músicas. Completou bem a cozinha da banda, mas também não teve nenhum grande destaque, pelo menos no som que se ouve.

“Death Magnetic” não é a obra-prima atemporal que alguns podem imaginar na hora da empolgação. Também não é um trabalho fraco e descartável, como outros podem considerar. Deverá angariar vários novos fãs para o heavy metal, afinal, é um disco de heavy metal do Metallica. Só que não se trata de nenhuma revolução no estilo, tampouco estabelece algum novo paradigma. Alguns se decepcionarão com o material, principalmente aqueles que sonham com um novo “Master Of Puppets”. Acontece que o Metallica já gravou um “Master Of Puppets”. No entanto, tudo o que a imensa legião de fãs de James Hetfield, Kirk Hammett, Robert Trujillo e Lars Ulrich desejava é que esses caras trouxessem ao mundo um álbum de qualidade e que fosse digno do nome Metallica e de tudo o que ele representa. E isso, um bom disco de metal, eles fizeram. Sim, o Metallica está vivo.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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