A canção que Page e Bonham respeitavam, mas achavam que nada tinha a ver com o Led Zeppelin
Por Bruce William
Postado em 24 de abril de 2026
O Led Zeppelin passou os anos 70 com uma imagem tão sólida que às vezes parece que tudo dentro da banda funcionava por instinto, sem atrito e sem dúvida. Mas um grupo com Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham jamais seria um bloco sem diferenças internas. Cada um tinha um peso muito claro no som, e isso naturalmente aparecia também quando surgia alguma música que fugia do padrão mais pesado e imponente que o público associava ao Zeppelin.
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Foi o caso de "All My Love", lançada em In Through the Out Door, de 1979. A faixa mostrava um lado mais delicado da banda, com bastante espaço para os teclados de John Paul Jones e uma interpretação de Plant muito ligada ao sentimento da letra. Para muita gente, virou uma das baladas mais conhecidas do grupo. Para Jimmy Page e John Bonham, porém, aquilo parecia suave demais para representar o Led Zeppelin.
A música tinha um peso emocional real, relembra a Far Out. Robert Plant a escreveu em homenagem ao filho Karac, morto em 1977, aos cinco anos, quando a banda estava em turnê pelos Estados Unidos. A tragédia abalou profundamente o vocalista e ajudou a empurrar o Zeppelin para um período de pausa antes do retorno em 1979, com os shows em Knebworth e o lançamento do último álbum de estúdio do grupo. Dentro desse contexto, "All My Love" era menos uma tentativa de agradar rádio e mais uma canção saída de um lugar muito pessoal.
Mesmo assim, Page nunca escondeu seu desconforto com o rumo da faixa. Em entrevista publicada em Light and Shade, livro de Brad Tolinski, o guitarrista lembrou que ele e Bonham achavam a música "um pouco suave". Ao comentar especificamente "All My Love", Page foi ainda mais enfático: "Eu estava um pouco preocupado com o refrão. Eu conseguia imaginar as pessoas fazendo a ola e tudo mais. E pensei: 'Isso não somos nós. Isso não somos nós'."
A frase mostra bem o tipo de incômodo. Não parecia ser uma questão de qualidade ou de desrespeito ao que Plant estava dizendo, e sim de identidade. Para Page e Bonham, o Led Zeppelin era uma banda cuja força vinha também de peso, tensão, perigo e impacto. Quando uma música se aproximava demais de algo mais sentimental e aberto ao grande gesto coletivo de plateia, os dois viam aquilo como um afastamento daquilo que o grupo tinha construído.
Ao mesmo tempo, Page não defendia que a faixa fosse cortada do disco. Ele entendia de onde ela vinha e reconhecia que Plant estava colocando ali algo muito íntimo. "No seu lugar, estava tudo bem, mas eu não gostaria de seguir nessa direção no futuro", afirmou. Isso dá à história um contorno mais interessante, porque mostra que a resistência de Page e Bonham não impediu a música de existir. Eles apenas não a viam como um modelo a ser seguido.
Também pesa aí o momento do Led Zeppelin. "In Through the Out Door" já era um álbum diferente dentro da discografia da banda, com John Paul Jones tendo participação maior na construção musical e Page atravessando uma fase mais difícil. Não é por acaso que o disco tenha uma sonoridade um pouco menos centrada na guitarra e mais aberta a outros climas. "All My Love" acabou virando um dos pontos em que essa mudança apareceu de forma mais clara.
Por isso a música carrega uma contradição curiosa. Ao mesmo tempo em que é uma das canções mais conhecidas e queridas da fase final do Zeppelin, ela também representa uma linha que dois integrantes fundamentais da banda não queriam transformar em regra. Page e Bonham olhavam para ela como algo emocionalmente compreensível, mas distante demais da imagem que tinham do grupo.
Talvez seja justamente isso que faça "All My Love" continuar interessante. Ela não soa como uma balada genérica perdida no repertório, mas como o registro de um momento em que a banda aceitou abrir espaço para a dor de um de seus membros, mesmo que nem todos se reconhecessem totalmente ali. Jimmy Page podia olhar para o refrão e pensar "isso não somos nós", mas a música ficou. E ficou porque, gostassem ou não, aquela também era uma parte da história do Led Zeppelin.
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