Pink Floyd: livrando-se da amarras da criatividade de Syd Barret
Resenha - Atom Heart Mother - Pink Floyd
Por Flávio Siqueira
Postado em 28 de janeiro de 2013
Quando eu estava começando a ouvir Pink Floyd, naquela fase melancólica que antecede a adolescência, na qual tem-se a sensação de que tudo conspira contra você, eu me referia ao álbum "Atom Heart Mother" como "aquele disco da vaca". A capa, aliás, é clássica, nada mais nada menos que uma vaca: a famosa Lulubelle III, encontrada numa fazenda no interior da Inglaterra. Os Pink Floyd sabiam ser emblemáticos no que concerne à parte visual da banda. É um excelente álbum, com ótimas músicas. No entanto, Roger Waters e David Gilmour sempre criticaram este disco. O guitarrista da banda inclusive disse, numa entrevista, que acha o "Atom Heart is a totally crap" (uma total porcaria). Waters, que desde que saiu da banda, vive em pé de guerra com Gilmour, parecia mais humilde quando produziu esse disco com a banda.
Em "Atom Heart Mother", a banda estava numa fase de transição, livrando-se da amarras da criatividade de Syd Barret, e dando lugar ao vocal melodioso e às primorosas linhas de guitarra de Gilmour — nos álbuns anteriores, Gilmour mais parecia um cover de Barret; foi em "Atom Heart Mother" que ele começou a expor sua verdadeira identidade musical. Era também uma fase democrática, na qual todos colaboravam com composições. Foi um dos raros momentos na carreira do Pink Floyd em que Richard Wright soltou a voz, na antológica faixa "Summer 68'". Sinceramente, sempre achei Wright uma peça fundamental no som floydiano, e nessa época era ele quem mais entendia de música, tecnicamente falando. Wright era subestimando, tal qual George Harrison era nos Beatles (não gosto de Beatles, mas aprecio bastante o trabalho solo de Harrison).
Lembro-me da primeira que ouvi a faixa-título: "Atom Heart Mother Suite". Naturalmente, senti-me angustiado; essa música tem um clima sombrio, que fica mais intenso com a entrada dos metais, juntamente com os pequenos solos de Gilmour. A segunda faixa, "If", é uma canção belíssima, daquelas que nos fazem refletir sobre a vida. Waters canta muito bem, acompanhando de um violão: "se eu enlouquecer, por favor não ponha seus arames no meu cérebro". Em "Summer 68'", a minha segunda música preferida do álbum, gostei do vocal do Wright: um timbre agradável e um considerável alcance vocal. "Fat Old Sun" é a minha preferida. Sou suspeito para falar, pois como músico (ou apenas alguém que sonha em sê-lo), admiro Gilmour profundamente, e convenhamos: em "Fat Old Sun" o vocal dele está perfeito, e o solo ao final da canção está, em minha opinião, entre os melhores que ele já compôs: quem entende de música, sabe que melodicamente é um solo muito bem construído.
A última faixa, "Alan's Psychedelic Breakfast", é um lindo instrumental, com sons de "Alan" ao fundo, preparando o café da manhã. Fico maravilhado com a criatividade do Gilmour em compor músicas sem se preocupar em "fritar os dedos", tal qual Jimmy Page fazia nessa época, "sentando a mão" em solos rápidos, como em "Since I've Loving You" e "I Can Quit You Baby". Gilmour, aliás, nunca se atentou à velocidade da música, sempre se focou no feeling, aspecto que falta a muitos guitarristas atualmente. Em suma, "Atom Heart Mother" é um disco memorável daquela que, em minha opinião, é a melhor banda do mundo. Musicalmente falando, tive fases bastante felizes na adolescência, época em que comecei a estudar guitarra e estava descobrindo o universo do rock and roll. Ouvir "Atom Heart Mother" naquela época valia mais do que mil sessões de yoga ou qualquer outro tipo de relaxamento — quanta nostalgia! A mim, o "disco da vaca" soa "totally wonderful". Quando tive certos devaneios, o que é bastante comum na adolescência (fato!), o "The Wall" invadiu minha vida violentamente, com todas aquelas significações e delírios musicais. Mas isso é uma história.
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