"Somewhere In Time", o álbum mais injustiçado do Iron Maiden?

Resenha - Somewhere In Time - Iron Maiden

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Por Ronaldo Costa
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A história do Iron Maiden até o ano de 1986 pode ser considerada como uma escalada ininterrupta em termos de sucesso, fama e qualidade. O primeiro álbum dos ingleses trazia a brutalidade e crueza de uma banda iniciante, com um talento enorme e um ‘feeling’ realmente diferenciado. Associe-se a isso uma ponta de influência da energia do som punk (notadamente na figura de seu vocalista) que dominava a cena naquela época, mas aqui a serviço de uma banda de heavy metal, com canções melódicas e até mesmo um pé na fonte do progressivo. “Killers”, o álbum seguinte, mostrava aquela mesma energia, mas agora melhor captada pela competência de Martin Birch. Em “The Number Of The Beast”, a entrada de Bruce Dickinson permitiu ao grupo passar para um outro nível em termos de composições, agora mais dramáticas e épicas ao mesmo tempo. Um verdadeiro salto em termos de qualidade e uma revolução no som da banda. O quarto álbum, “Piece Of Mind” talvez seja o que melhor represente o som do Maiden, em termos de beleza, melodia e ‘feeling’. No sucessor “Powerslave”, a banda atinge o ápice em termos de grandeza, sendo capaz de dar ao mundo porradas do nível de uma “Aces High”, refrões inesquecíveis como o de “Two Minutes To Midnight” e a sofisticação de músicas como “Rime Of The Ancient Mariner”, além da faixa-título.
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Pois bem, esses foram os primeiros cinco anos do Iron após debutar em estúdio, uma banda que lançou cinco álbuns de inéditas em cinco anos seguidos, fazendo de todos eles clássicos atemporais do heavy metal, sendo elogiada com mais ênfase a cada novo trabalho e ainda conquistando levas gigantescas e fanáticas de seguidores por onde quer que passasse. Para a divulgação do álbum “Powerslave”, a banda cai na estrada com a ‘World Slavery Tour’, uma excursão mais do que bem sucedida, que passaria até no Brasil, durante o Rock In Rio I, o que, naquela época, era uma coisa muito difícil de acontecer, ainda mais para uma banda de metal. Parece que o então quinteto britânico havia chegado ao ápice. Famosos, ricos, influência de nove em cada dez bandas de metal que apareciam, no auge da energia e da criatividade, um entrosamento absoluto em estúdio e sobre os palcos, que resultaria inclusive no clássico álbum ao vivo “Live After Death”, outro marco na carreira da banda. Após tantas conquistas, como crescer mais? Como ser melhor? Como tentar alguma coisa diferente mas que não descaracterizasse o som do grupo? A banda procurou alcançar a resposta a todas essas perguntas com o lançamento do álbum “Somewhere In Time”.

Em 1986 o Maiden contava com sua formação clássica, com Bruce Dickinson, Steve Harris, Dave Murray, Adrian Smith e Nicko McBrain. A idéia de um álbum com clima futurista era perfeita para expandir os horizontes da banda em termos musicais e líricos. O novo petardo foi concebido com todo o cuidado e zelo, buscando-se perfeccionismos em todos os aspectos relacionados ao material. Então, em outubro daquele ano, o álbum “Somewhere In Time” é lançado, iniciando na posição de número 3 nos charts ingleses. A pressão para fazer algo ainda melhor que “Powerslave” era enorme e, convenhamos, conviver com uma pressão dessas não deve ser fácil. As expectativas de que o novo trabalho superasse o seu antecessor em termos de qualidade e sucesso começaram a dar lugar às reclamações que alguns profetas do apocalipse levaram adiante naquele momento, acusando a banda de ter mudado demais o seu som, de ter se inclinado para tendências um pouco mais comerciais, enfim, as mesmas críticas que toda banda ouve quando tenta fazer algo um pouco diferente.

Antes de comentarmos sobre as músicas desse álbum, façamos apenas uma breve observação sobre a sua capa, já que esta foi, de longe, o melhor e mais criativo trabalho do desenhista Derek Riggs, além de ser, provavelmente, a capa mais legal de um álbum de heavy metal. O cidadão definitivamente era genial. Além de abusar de detalhes mínimos, a capa trazia inúmeras referências ao passado e presente da banda, bem como sobre acontecimentos retratados em letras anteriores do grupo. Na época, era divertido demais ouvir o álbum ao mesmo tempo em que se procurava um novo detalhe ainda não percebido na capa.

Mas de nada adiantaria uma capa daquelas se o conteúdo da bolacha não fosse do mesmo nível. E é aí que está a grande questão. Já naquela época, “Somewhere In Time” recebeu críticas por algumas alterações em relação ao som anterior que a banda vinha desenvolvendo. A mais recorrente delas reclamava do uso de guitarras sintetizadas, um artifício que já havia sido usado por outras bandas e que, naquele caso, era perfeito para criar o clima futurista do álbum. Era então o primeiro trabalho do Iron Maiden que dividia opiniões entre os próprios fãs de forma mais contundente. As reclamações quanto à substituição de Paul Di’Anno por Bruce Dickinson na época do “The Number Of The Beast” nem chegaram perto da ‘chiadeira’ pós- Somewhere.

Acontece que o álbum em si é uma das obras mais inspiradas do metal nos anos 80. Tudo bem, qualquer um pode dizer que isso é uma questão de gosto, só que se for feita uma análise mais criteriosa, “Somewhere In Time” não deixa praticamente nada a dever a seus antecessores. E menos ainda aos seus sucessores. Pra começar, este é provavelmente o álbum onde dois dos integrantes da banda entregam seus melhores trabalhos como instrumentistas, que são Steve Harris e Adrian Smith, justamente os responsáveis pela composição de todas as canções do disco, à exceção de “Deja Vu”, que conta com a colaboração de Dave Murray. Alguns dos melhores riffs da banda residem nesse álbum, bem como talvez seja ele o trabalho onde estão os melhores solos da carreira da Donzela, como se pode observar em faixas como “Caught Somewhere In Time” e “Stranger In A Strange Land”. O entrosamento e a inspiração da dupla Murray/Smith mostra-se não menos do que excepcional nessa obra. Nicko McBrain exibe sua técnica de forma impecável. Todas as músicas, sem exceção, têm refrões marcantes. A voz de Bruce Dickinson varia do melódico ao agressivo na dose certa, além de propiciar algumas das melhores linhas vocais do Maiden, vide “Alexander The Great”. A faixa de abertura, ainda que seja uma música longa, é uma porrada do início ao fim, onde tudo parece se encaixar perfeitamente, introdução, vocalizações, melodias, refrão, solos e desfecho. Observe então a introdução de “Wasted Years” e perceba que uma estruturação melódica que não é muito difícil de ser reproduzida consegue ser mais marcante que 99% das firulas e virtuosismos que podem ser observados no mundo dos guitarristas. Também se pode atribuir a este disco a produção mais caprichada já realizada no Iron, onde tudo está no lugar, perfeitamente audível e com a sonoridade que se pretendia para tal obra, cortesia de Mr. Martin Birch, em seu melhor trabalho com o Maiden. Enfim, não dá pra entender o porque de um álbum como esse sofrer com as críticas que recebeu. “Somewhere In Time” foi subestimado até mesmo perante seu sucessor, o também clássico “Seventh Son Of A Seventh Son”, ainda que não devesse absolutamente nada a esse em termos musicais.

Mas essa obra ainda guardaria uma outra curiosidade. Inexplicavelmente, esse trabalho é, de certa forma, menosprezado pelo próprio Maiden. Foram poucas músicas dele que sobreviveram nos setlists da banda. Na realidade, há quatro anos que não se toca absolutamente nada desse álbum ao vivo. Certas músicas inclusive nunca foram tocadas ao vivo, como o exemplo de “Alexander The Great”, uma faixa que atualmente deve figurar no ‘top 5’ da maioria dos fãs, mas que talvez divida com “The Duellists”, do álbum “Powerslave”, o título de música mais injustiçada da carreira do Iron. A sina de “Somewhere In Time” chega a tal ponto que o erro estratégico de se tentar conter os custos de produção da turnê de divulgação do álbum, não registrando em vídeo os seus shows, faz com que hoje a banda tenha apenas alguns fragmentos de uns poucos shows como registro ao vivo dessa época. A maioria do que se conheceu dessa tour foi por meio de bootlegs, que também são raros.

“Somewhere In Time” foi um álbum que conseguiu a duras penas e com o passar de muito tempo ostentar o status de clássico. Quanto mais o tempo passa, melhor ele parece ficar e isso é algo que cada vez mais pessoas vêm se dando conta. Mesmo depois de praticamente 21 anos, ele soa atual ainda hoje. Sim, foi o tempo que se encarregou de colocar esse álbum no lugar que ele merece em termos de qualidade e importância, já que a própria banda não contribuiu tanto assim para que isso ocorresse. Já existe um considerável número de fãs que consideram este disco um dos 3 melhores da carreira da Donzela, sendo que não são tão poucos os que o colocam como melhor obra do Iron, ainda que, na maioria dos casos, a primazia absoluta ainda seja das produções do período 82-84. Entretanto, ainda hoje a gente tromba com alguém que diz que ‘o Iron morreu com o Powerslave’. Por mais que o álbum de 86 venha conquistando o respeito e o apreço de cada vez mais pessoas, ainda pode ser considerado uma das obras injustiçadas da história do metal.

Concorde, discorde, só não deixe de dar a sua opinião. Se possível, dê mais uma passada pelas oito faixas de “Somewhere In Time” e pense se ele merece ou não ser chamado de clássico. Na próxima parte, veremos um outro grande álbum, mas que deixou um músico tão desapontado que o levou a sair da banda. Até a próxima.

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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