Wynonie Harris - O Pai de Elvis Presley

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Por Márcio Ribeiro
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Desde o princpio, o propósito desta coluna tem sido de tentar dar atenção a artistas que, apesar de darem alguma contribuição de substância a música, acabam por passar esquecidos quando levantamentos e biografias pertinentes a história do rock são feitas. Nenhum exemplo deste cruel e injusto esquecimento é mais nótorio do que no caso de Wynonie Harris.
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Este negão nada humilde, é lembrado por todos que o conheceram como um sujeito mulherengo, beberrão, barulhento, prepotente e arrogante. Ele também é referido como sendo um cantor e dançarino excelente. Este americano, nascido na cidade de Omaha, no estádo de Nebraska, no dia 24 de agosto de 1915, foi criado pelos pais, Luther e Mollie, que sonhavam em ver ele se tornar um médico. De fato Harris fez dois anos de faculdade de medicina antes de sucumbir para a tentação da música e bebida. Passou a frequentar biroscas e dançar por dinheiro em 1934, juntando a receita às funções de mestre de cerimônias, comediante e cantor. Como instrumentista, aprendeu sozinho a tocar bateria e formou seu próprio grupo para tocar em bares espalhados por Omaha.

Casou com Olive Goodlow de Iowa no final daquele mesmo ano, e tendo com ela uma filha chamada Patricia quando ele tinha dezenove para vinte anos de idade. Seu ídolo era Big Joe Turner e passou a viajar com frequência de Omaha a Kansas City durante o final da década de trinta para entre outras coisas, vê-lo cantar. Em 1940, foi para Los Angeles onde passou a trabalhar no Club Alabam como crooner da banda da casa, o Baron Moorehead’s Orchestra por $17.50 por semana, um bom dinheiro. Foi aqui que ele passou a se tornar uma celebridade local e referido como Mr. Blues, título que ele passou a usar com orgulho. Como dançarino, acabou aparecendo em um filme produzido em ‘43 chamado The Hits of 1943.

Permaneceu em Los Angeles por quatro anos antes de retornar a Kansas City onde foi contratado para ser crooner de uma das grandes atrações da cidade, a big band de Lucky Millender. Com Harris, Millender conseguiu ainda mais sucesso, graças a duas gravações lançadas pela Decca Records entre 1944 e ‘45. A primeira, "Hurray, Hurray", lançado em julho, fez um sucesso moderado, porém o segundo, composto pelo próprio Wynonie Harris, "Who Threw The Whiskey In The Well?", chegou a No.1. A titulo de curiosidade, esta gravação tem como saxofonista, o então jovem e ainda iniciante, Preston Love.

Ganhando apenas $37,50 pelas duas gravações como pagamento pelo tempo de estúdio, Harris concluiu que o melhor seria ele seguir investindo em uma carreira solo. Deixou a banda de Millender, retornou a Los Angeles, e fechou um acordo com o selo Philo que dentro de um ano passaria a se chamar Liberty Records.

Oito compactos com o selo Apollo se seguiram, vários sendo composições do próprio Harris. Sua temática sempre em torno da boemia, era vista como vulgar por pessoas ligadas a gravadoras, no entanto, acabavam vendendo bem, garantindo a Wynonie novos lançamentos. Suas apresentações ao vivo também são lembradas como sendo de uma incrível presença e volume absurdo. Harris era o que se chamava então de um shouter; um berrador, ou seja, um cantor que berra as letras a todo pulmão.

Em seu auge, Wynonie Harris cantou para nomes como Duke Ellington, Tommy Dorsey, Charlie Barnnet, e Cab Calloway. Com o dinheiro e a fama que Wynonie Harris passou a ter nos anos quarenta, ele ficou ainda mais presunçoso e prepotente. Entrava em um bar aos berros, Está chegando Mr. Blues! Após dois Top Ten, nas paradas de música negra (o termo rhythnm & blues ainda não tinha sido criado), as canções "Wynonie's Blues" (No.2, Apollo) e "Playful Baby" (No.3, Decca), lançados respectivamentes em janeiro e setembro de 1946, Harris se tornaria ainda mais celebrado após regravar "Good Rockin’ Tonight", um fiasco lançado originalmente por Roy Brown, mas que com sua interpretação, o levou a No.1, seu segundo na carreira.

Harris, que já vivia para os excessos, comprou dois Cadillac’s, contratando dois motoristas particulares, um para cada carro. Levava os dois carros para onde quer que ele fosse para as pessoas assistirem ele ter que escolher com qual carro retornaria para casa. Sempre acompanhado de mulheres, sempres as tratou de forma machista e desrespeitosa. Se separou de Ollie, casando-se novamenta, sua segunda mulher se chamando Gertrude Sloan, mas que Harris apelidara de Ice Cream (Sorvete).

"Good Rockin’ Tonight" foi seu primeiro compacto pelo selo King Records que ficaria com ele até 1958, apesar de Harris ter seu último sucesso em 1952, "Lovin’ Machine". Antes porém, outros sucessos vieram. Canções como "Lollipop Mama" (No.8), "Grandma Plays The Numbers" (No.7), "I Fell That Old Age Coming On" (No.10), "Drinkin' Wine Spo-Dee-O-De" (No.4), "All She Wants To Do Is Rock" (No.1), "I Want My Fanny Brown" (No.10), "Sittin' On It All The Time" (No.3), "I Like My Baby's Pudding" (No.5), "Good Morning Judge" (No.6), "Oh Babe!" (No.7), "Bloodshot Eyes" (No.6), e por último, "Lovin' Machine" (No.5).

Harris continuo gravando ótimos trabalhos, mesmo que não se tornando sucesso até o início da década de sessenta, mas o público já era outro e tão desinteressado nele quanto ele estava desta turma adolescente. Harris, em 1954, ao ser entrevistado por uma revista, fez o seguinte comentario sobre a nova geração que despontava: "Eu sou o cantor mais bem pago no negócio. Eu ganho $1.500 por uma noite enquanto tem crooner por aí tocando por $50 ou $75. Eu não. Por isto que eu sou uma estrela de Broadway. Os crooners são cercados por molecotes e outras iscas de cadeia bebendo Coca-Cola. Eu sou um estrela em Georgia, Texas, Alabama, Tennessee e Missouri e pego aqueles que tem dinheiro para comprar bebida forte e meus discos para ouvir enquanto bebem."

Wynonie Harris foi incapaz de enxergar o potencial desta “geração Coca-cola” em se tornar os grandes compradores de discos e criadores de mitos no futuro próximo. Acabou esquecido pela sua cegueira. Contudo, além de suas ótimas interpretações registrados em disco, Wynonie nos ofereceu de mais significativo sua presença de palco, que ficou eternizado não com sua imagem, mas na imagem de um caminhoneiro de Tupelo de nome Elvis Presley.

Sim, mais de uma vez o jovem adolescente e depois jovem adulto Elvis Aaron Presley foi assistir Wynonie Harris se apresentar. Foi estudando Wynonie que ele aprendeu a curvar os lábios e todas as caracteristicas marcantes atribuida à genialidade de Elvis Presley. É herança de Wyonnie Harris o gingado de quadris, com os braços levantados, levemente arqueados feito asas de anjo. Sim, Elvis fez o formato mundialmente aceitável, mas ele não tirou do nada seu famoso estilo. Sobre Elvis, Wynonie teria comentado no final da década de cinquenta: "A crítica musical criou Elvis. Fazem um escandalo por ele rebolar o pelvis. Eu rebolo meu pelvis e nunca ninguém falou nada. Ele tem publicidade que ele não conseguiriaa comprar se quissesse."

Assumindo o fato de ter sido esquecido e que seu tempo passou, Wynonie Harris se mudou para a cidade de St. Albans no estado de Nova York, comprou um bar e passou a viver do comércio. Perdeu o bar em 1963, se mudou para Los Angeles e sumiu. Reapareceu apenas ao ser convidado pelo velho colega Preston Love, a cantar com a Motown Orchestra em 1967 para um evento realizado em Santa Monica, California. Mas a tentativa foi menos que memorável, Harris cantando duas canções; desanimado pela falta de receptividade, pediu para sair. Já bastante doente, em 1969 reencontrou vários amigos, colegas músicos nascidos e criados em Omaha ainda vivendo e trabalhando em Los Angeles. O encontro realizado no Carribean Club, acabou sendo na prática uma homenagem patrocinado pelos amigos a ele. Inadvertidamente este reencontro seria sua despedida deste mundo. Wynonie Harris morreu na semana seguinte, no dia 14 de junho de 1969.

Se na presença de palco, sua influencia sobre Elvis Presley é a mais marcante, musicalmente, percebe-se mais esta influencia em Screaming Jay Hawkins. A principal influência de Harris como cantor era Louis Jordan.

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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