The Kinks: Em 1964, o lançamento de "You Really Got Me"

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Por Márcio Ribeiro
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Em agosto de 1964 o Kings lançou "You Really Got Me", canção com um dos mais memoráveis riffs do rock. Este tema sozinho é honrado com a responsabilidade de introduzir pela primeira vez no rock o que os americanos chamam de power chord rock, ou seja, rock de acordes fortes ou poderosos. Esta pequena concepção é considerada pelos criticos de música em geral como a espinha dorsal de hard rock e heavy metal.

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Composição de Ray Davies, mentor da banda The Kinks, ela foi concebida inicialmente mais lenta e influenciada pelo jazz de Gerry Mulligan. Foi seu irmão Dave Davies, guitarrista do grupo quem pegou as partes da canção imaginadas inicialmente para um saxofone tocar, e as executou em uma guitarra distorcida, dando à canção uma nova vida. Rapidamente se concluiu que o melhor arranjo seria com um andamento mais acelerado. Somado a isto tudo está a própria interpretação de Ray Davies, que não só fala sobre o tesão que está sentindo por uma menina, mas deixa claro o seu desespero e tormento na voz.

Quem seria esta garota é até hoje um segredo de estado, Ray nunca comentando estas coisas, mantendo privado o que não é da conta de ninguém. O que sabemos dela é que Ray a conheceu em abril de 1964 durante uma apresentação da banda em Newcastle, pouco depois do lançamento de seu primeiro compacto. Esta menina seria possivelmente a primeira groupie da banda, sua simpatia levando Ray a retornar com os Kinks mais vezes para tocar naquele local.

Nove dias depois, estavam gravando o primeiro demo da canção junto com outras duas composições, "You Really Got Me" sendo a única que a gravadora Pye Records recusou. A versão era ainda bastante diferente da definitiva e segundo o próprio Ray Davies, ainda bastante fora dos padrões comerciais. Com direito a finais falsos, era uma diversão ao vivo, mas que não funcionaria muito bem em uma gravação. Uma vez encontrado o arranjo ideal, a canção ao vivo logo se mostrou mágica, com o público se incendiando de tal maneira que a banda se viu obrigado a repetir a canção regularmente nos shows.

O segundo compacto dos Kinks saiu enquanto a banda estava em meio a uma excursão e sequer souberam do lançamento. Quando novas sessões de gravações foram marcadas, a banda fez questão de gravar sua nova pérola. Contúdo, a gravadora, o produtor, o agente de excursões, o editor das músicas, mais os três empresários da banda, todos apontavam para a estrada que levava para canções imitando o estilo dos Beatles.

Contra toda essa pressão, Ray lutou bravamente, contestando com tamanha veemência a ponto de até os pretensos especialistas começaram a duvidar de suas certezas. Afinal, estes homens de negocios são todos mais velhos que o ainda adolescente compositor e rock ainda era uma selva pouco explorada. No final, contra tudo e todos, a Pye concedeu à banda a oportunidade de gravar a canção. Mesmo assim, o seu produtor Shel Talmy insistiu que o andamento fosse mais arrastado, o que ele classifica como sendo mais ‘bluesy’. A versão foi considerado pela banda como excessivamente produzida, tendo um grupo vocal, The Ivy League, fazendo ainda backing vocals.

Esta versão foi considerada um lixo por Ray Davies, todavia foi necessario uma nova guerra contra seus próprios empresários para que obrigassem a Pye a gravar a canção novamente, desta vez como ela fora originalmente concebida pela banda. A permissão foi concedida, contanto que a banda pagasse pela sessão do próprio bolso, condição aceita e uma data sendo logo marcada para julho.

A data exata é dia 12 de julho, um domingo, quando a banda adentra o IBC Studios, cuja hora é mais barata do que o estúdio da Pye. Presentes à sessão, além dos quatro Kinks estão o responsável pela sessão, o produtor Shel Talmy, o engenheiro de som da IBC Studios, um jovem Glyn Johns, mais os três empresários, Larry Page, Grenville Collins e Robert Wace.

Talmy, que sempre trabalhava com músicos profissionais como âncoras, uma vez que a maioria das bandas novas eram musicos amadores, trouxe para a sessão a sua equipe de sempre. Nela estão um baterista profissional que acabaria tocando em todas as gravações dos Kinks durante o primeiro ano, chamado Bobby Graham. Havia ainda o jovem pianista Arthur Greenslade, e garantindo o rítmo, o guitarrista conhecido ainda como Little Jimmy Page (em oposição a outro guitarrista de estúdio Big Jim Sullivan) e sua Telecaster. Mick Avory, o verdadeiro baterista da banda, conseguiu no máximo a permissão do produtor de participar tocando o pandeiro.

Uma das razões que fazem esta canção tão distinta de tudo feito antes, é o som inflamante da guitarra de Dave Davies. Utilizando uma guitarra barata, uma Harmony Meteor, ligada a um amplificador Vox AC-30 como cabeça, que por sua vez era ligado a um amplificador Elpico, que é uma cebolinha das mais vagabundas, aproveitando apenas o alto-falante. Dave havia furado com um lápis os lados do cone do alto-falante de seu Elpico, além de espetar tudo com agulhas de costura, fazendo com que o som soasse mais rachado e distorcido. Em humor típico de adolescente, apelidou seu monstrinho de ‘fart box’ ou seja, caixa-de-peido. O resultado é um som milhas de distâncias de qualquer outra guitarra de sua época. É claro que o solo de guitarra executado por Davies, extremamente instigante, também tem seu méritos.


Segundo conta a lenda, a canção foi gravada em duas tomadas usando um gravador mono. Uma vez a segunda versão sendo escolhida como a boa, passaram a gravação de uma fita para outra enquanto faziam os vocais. Esta foi a técnica utilizada para alcançar o som mais cru desejado. Satisfeito com seu êxito, o tesouro foi então entregue para a Pye Records que a lançou no dia 4 de agosto.

Alguns jornais faziam suas análises corrigindo gramaticalmente o nome da canção, para “You’ve Really Got Me”. Muitos consideram a canção um pouco tribal demais, embora praticamente todos concordavam que provavelmente iria vender bem. E como vendeu. O sucesso foi tão estrondoso quanto imediato.

Iniciando seu caminho nas paradas, “You Really Got Me” entra em No. 22, chegando na semana seguinte ao No.1. O compacto vendia tanto que a Pye inicialmente diminuiu para então suspender completamente as prensagens de outros artistas, para que todas as suas prensas pudessem dar conta da demanda pelo disco.

Mais do que apenas mais uma canção pop a ser coqueluche durante um ano a muitos e muitos anos atrás, “You Really Got Me” dos Kinks abriu o caminho para um rock que inicialmente tentaria apenas ser mais alto, para mais tarde, procurar efetivamente ser mais pesado. The Who e Small Faces começariam emulando The Kinks em seu estilo musical e imagem mod. Porém mais duradouro, embora imprevisível, seria a influência que “You Really Got Me” teve em rocks chamados pesados. Viriamos a curtir no final dos anos sessenta canções como “Smoke On The Water” do Deep Purple, "Heartbreaker", e "Whole Lotta Love" do Led Zeppelin, além de "Paranoid" e "Sabbath Bloody Sabbath" do Black Sabbath, todos usando a mesma concepção do powerchord riff. E estes são apenas os exemplos mais conhecidos, dada a dimensão do sucesso destas bandas.

O último atestado da força da canção talvez seja o sucesso da versão feita pelo Van Hallen já na década de oitenta. Enfim, mesmo se The Kinks não tivessem feito absolutamente mais nada e se tornado uma banda de uma música só, feito The Kingsmen e sua versão para “Louie, Louie”, o impacto sozinho de “You Really Got Me” os colocaria em um patamar especial do rock.

The Kinks conquistaram muito mais, e para quem se interessa, estou preparando junto com Bernardo Chacur, uma biografia extensa sobre a carreira da banda, que chamaremos Os Kontroversos Kinks a ser lançado espera-se em 2005 pela Whiplash. A materia procura esclarecer como chegaram ao sucesso e o que passaram para poderem continuar juntos por três décadas. Aí sim, poderemos todos curtir os sucessos do The Kinks o dia inteiro e por toda a noite.

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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