Em 09/05/2009 | Resenha - Sepultura e Angra (Via Funchal, São Paulo, 09/05/09)

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Resenha - Sepultura e Angra (Via Funchal, São Paulo, 09/05/09)


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O periódico paulistano Destak se referiu à turnê conjunta de Angra e Sepultura como sendo “o Titãs e Paralamas do heavy metal”. O jornalista que cunhou esta definição não poderia estar mais certo – afinal, tratam-se das duas bandas brasileiras de maior relevância e exposição no gênero, seja nacional ou internacionalmente, goste você ou não. E este momento é particularmente adequado para a reunião, não só porque agora ambas partilham da mesma produtora, mas também porque tanto Angra quanto Sepultura enfrentam, há anos, um verdadeiro racha em sua base de fãs depois das mudanças de formação, sejam elas recentes ou não. No show que serviu de pontapé inicial para esta série de apresentações em parceria, realizado no último sábado (8) na casa de shows paulistana Via Funchal, os dois grupos subiram ao palco com garra e força de vontade suficientes para mudar este cenário. Para provar que é hora de fazer os fãs chorões engolirem que o passado (e também este ou aquele vocalista e/ou baterista) ficou de fato para trás. Um show histórico, do início ao fim, definitivamente apontando para o futuro.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Fotos: Alexandre Cardoso

Com cerca de 20 minutos de atraso, o Angra foi a primeira banda a se apresentar. Sim, todos sabemos que Angra e Sepultura têm sonoridades bem distintas, por mais que se trate do mesmo bom e velho heavy metal, e que, por isso, era de se esperar públicos relativamente diferentes co-existindo. Mas o que imperou num Via Funchal quase lotado foi, antes de tudo, o respeito. É claro que meia dúzia de pentelhos que ficaram parados nos anos 80 insistia em ficar gritando “Sepultura!” e outras bobagens nada elogiosas enquanto Edu Falaschi e companhia se apresentavam (eles compraram ingressos sabendo que seria uma performance dupla, mas tudo bem...). No entanto, os camaradas foram devidamente calados pela esmagadora maioria que gritava “Angra! Angra!” e que foi ao delírio desde o início, com “Carry On” (com direito até à introdução “Unfinished Allegro”) coladinha em “Nova Era”.

De cara, já era possível perceber que os dois anos de pausa – forçada, devido a problemas administrativos – causaram um certo problema de entrosamento ao Angra. A banda estava, de fato, mal-ensaiada e não fez, nem de longe, o melhor show de suas quase duas décadas, pelo menos tecnicamente falando. Em “Make Believe”, Edu chegou até a esquecer a letra da música no começo, apelando para a ajuda da platéia, que não se fez de rogada. Mas, diacho, tinha uma química naquele palco que eu não vinha vendo recentemente nas performances do quinteto. Alguma coisa acontecendo com intensidade, com verdade, com o coração. Dá para se dizer até que aquele era um Angra menos cerebral, menos técnico, e com muito mais feeling, muito mais pegada. Para fazer uma comparação infame, muito menos Kiko Loureiro e muito mais Rafael Bittencourt – e, por falar nele, como tocou o sujeito. Estava completamente à vontade, se sentindo em casa com o público paulistano. Impressionante.

À vontade também estava o Edu, a quem o excelente segundo disco do Almah parece ter feito muito bem. E não só artisticamente. O frontman parecia mais confiante, mais tranqüilo, encarando os problemas de uma apresentação ao vivo do jeito que qualquer bom roqueiro deve encarar: com naturalidade e bom humor, oras. E mais: o músico finalmente encontrou uma forma confortável de cantar as músicas da era Andre Matos sem precisar emulá-lo. Muito menos agudos e muito mais intensidade, menos alcance e mais interpretação, sentimento de verdade, refletidos em canções como “Angels Cry”, “Never Understand”, “Nothing to Say” e “Carolina IV” – esta última, um dos seus recentes pontos fracos, revelou-se um dos pontos altos da noite. Nem todos os fãs pareceram entender muito bem esta nova postura. Mas mostrou a coragem e a personalidade de um músico que cresceu muito nos últimos anos.

O baterista Ricardo Confessori, de volta ao line-up no qual se consagrou, tinha um desafio particular pela frente: mostrar que ainda se saía tão bem nas músicas de sua passagem pela banda quanto naquelas compostas para as baquetas do excelente Aquiles Priester, um dos melhores bateristas brasileiros em atividade. E até que ele foi competente, tanto numa power ballad como “Heroes of Sand” quanto nas aceleradas “Spread Your Fire” e “Angels and Demons”, uma das mais difíceis pegadas de Priester. Pode não ter sido perfeito. Mas virou-se bem. Muito bem, diga-se.

Ao fim do show, na comemorada e aplaudida “Rebirth”, fomos brindados com uma execução simplesmente de arrepiar, na qual os milhares de presentes cantaram o tempo todo ao lado de Edu, formando uma única voz. Lindo de se ver, sem exageros. E neste momento, em particular, ficou claro e transparente o tipo de postura que podemos esperar do Angra daqui para frente. Uma cumplicidade ainda maior com seus fãs e uma preocupação muito mais com a alma das músicas do que com a quantidade de dedilhados por segundo.

Cerca de 30 minutos depois, a concentração de fãs à frente do palco sofreu uma alteração, pois os fanáticos pelo Sepultura assumiram suas posições. E o que se viu foi um massacre sonoro que calaria a boca de qualquer viúva dos Cavaleras. Sinceramente? Bastaram as duas primeiras músicas, e que também são aquelas que abrem o ótimo disco conceitual “A-Lex”, para sacudir o Via Funchal como um terremoto. Mas a visceral e rápida “Moloko Mesto” e a quase tribal “Filthy Rot” eram só o começo. O Sepultura não deu simplesmente espaço para se respirar, atirando porradas recentes como “We’ve Lost You”, “What I Do” e “Convicted in Life” e clássicos como “Refuse/Resist”.

Só depois de “Dead Embryonic Cells” é que o guitarrista Andreas Kisser, atual porta-voz do grupo, resolveu saudar os headbangers dispostos a bater muita cabeça e sem qualquer sinal de cansaço. A noite ainda prometia – porque Derrick Green ainda tinha muito o que berrar em músicas como “Troops of Doom” e “Escape to The Void”. Iggor Cavalera é um baterista fenomenal? Sem dúvida alguma. Mas o que tocou nesta noite Jean Dolabella, como uma ferocidade absurda, foi de encher os olhos e os ouvidos. Por pouco, o sujeito não destruiu o seu kit de bateria. E sinceramente, não parecia nem aí caso isso acontecesse. A energia estava no ar.

Em dado momento, veio a surpresa. Quando boa parte do público começou a clamar por “Inner Self”, que não parecia programada para aquela noite, o Sepultura tocou uma palhinha. E parou, preparando-se para retornar ao setlist original. E a galera continuou: “Innver Self! Inner Self!”. E então, Derrick anunciou: “Então tá”. E não é que a banda executou a música até o final, sem pensar? Um presente para o seu público fiel em uma noite memorável, que ainda teria “Sepulnation”, “Territory”, “Arise” e, antes da poderosa “Roots, Bloody, Roots”, um pedacinho de “Black Sabbath”, com Andreas fazendo as vezes de Ozzy Osbourne. Mas só um pedacinho.

Todavia, ainda não tinha acabado. Porque esta é uma turnê do Sepultura e do Angra – e, como tal, merece uma jam session entre os dois grupos, por menor que seja. Os que foram embora (e não foram poucos) devem estar morrendo de remorso até agora. Rapidamente, os roadies ajeitaram o palco para receber dois baixistas, três guitarristas, dois bateristas e dois vocalistas. Andreas e Derrick brincaram um pouco e provocaram os presentes com os riffs de “Back in Black” (AC/DC), “Breaking The Law” (Judas Priest) e “Seek & Destroy” (Metallica). Mas quando o Angra adentrou o palco, a bagunça estava formada – e foi divertidíssimo ver Derrick e Edu alternando os vocais de “Immigrant Song”, do Led Zeppelin. A seguir, Andreas convocou ao palco ninguém menos do que Marcelo Pompeu, do Korzus. Era a hora de uma homenagem à lendária coletânea “SP Metal”, com a histórica “Guerreiros do Metal” e seu representativo refrão – emendada em “Paranoid”, do Black Sabbath (finalmente!).

Ver todo mundo reunido, ali, naquele palco, foi o tipo de coisa que merece entrar para a posteridade. Uma lição de que, não importa se você toca thrash, death, melódico ou tradicional, metal é metal. E antes de tudo, o que se precisa é de uma boa dose de respeito. Para que, só então, paremos de nos levar assim tão a sério. No fundo, estava todo mundo ali querendo se divertir, fossem fãs do Angra, do Sepultura ou até das duas bandas, por que não? Acho que, se os babacas que ficavam gritando “Sepultura!” durante o show do Angra ficaram até o final, devem ter aprendido uma coisinha ou duas. Ou então são cabeçudos demais para isso mesmo.

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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