Resenha - Brasil Metal Union (Espaço das Américas, 19/08/2006)

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Por Alexandre Cardoso
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Falar que o heavy metal nacional, em geral, carece de profissionalismo, respeito e, principalmente, reconhecimento, é chover no molhado. No entanto, o futuro para o estilo é visto, cada vez mais, com otimismo. Bandas com um maior cuidado no seu trabalho, produtores, gravadoras e empresários mais compromissados e fãs que buscam aqui mesmo, em nosso país, seus novos ídolos, são fatos que evidenciam essa evolução.

Texto e fotos
publicados anteriormente no site
www.allfotos.fot.br.

Pode-se dizer que o festival Brasil Metal Union é algo inerente a essa evolução do heavy metal no Brasil. Desde que o evento começou, no ano 2000, a sigla BMU virou sinônimo de oportunidade para as bandas e fãs que acham que o heavy metal feito no Brasil é dos melhores e nada deve ao que vem de fora.

Obstáculos surgiram para todas as edições do BMU. Nesse ano de 2006 não foi diferente. O festival quase não aconteceu por falta de patrocínio, mas felizmente empresas acreditaram na sua força e importância.

Cercado por polêmicas tais como falta de critério na escolha das bandas e também sobre o esquema “pagar pra tocar”, o cast ficou definido da seguinte forma: Monster (SP), Hibria (RS), Karma (SP), Silent Cry (MG), Malefactor (BA), Akashic (RS), Claustrofobia (SP), Tribuzy (RJ), Torture Squad (SP) e Tuatha de Danann (MG), cada uma delas com um tempo de 40 minutos para seu show.

Além das bandas acima citadas, Angra e Krisiun foram escolhidos como atrações convidadas, tocando por 70 minutos cada. A presença dessas duas bandas objetivou atrair mais público, o que tornaria o festival financeiramente viável.

No local do show, pouco antes das 14 horas, duas coisas se percebiam: primeiro, que haveria atraso na abertura dos portões e, em consequencia disso, atraso no início dos shows; segundo, que a fila para entrar já era considerável, o que mostrava o interesse do público em acompanhar o evento desde o início.

O Espaço das Américas é um lugar muito grande, daqueles ideais para feiras e bailes de formatura. Não há estrutura para shows, como palco, sistema de som e iluminação adequados, mas a produção cuidou de tudo isso. O palco era grande, bem montado, assim como a iluminação, com diversidade de cores e efeitos. Em um lugar grande como aquele, o som ficaria comprometido por uma péssima acústica; mesmo assim, os técnicos conseguiram obter um mínimo de qualidade. Colunas de sustentação espalhadas pelo local prejudicavam a visuão do palco. Nos diversos telões espalhados, apenas o logotipo da banda que estava se apresentado e alguns clipes nos intervalos.

Mas os headbangers compareceram em bom número – cerca de 4 mil pessoas (ainda esperamos números oficiais). A maioria ali presente era de jovens, com destaque para uma boa presença feminina.

Pouco depois das 15 horas, Richard Navarro, criador e organizador do Brasil Metal Union, sobe ao palco para cumprimentar o público e fazer a abertura do evento, anunciando a primeira banda a subir ao palco.

O Monster fez um dos melhores shows do festival, com energia e carisma impressionantes. Muita gente foi lá pra prestigiá-los, inclusive muitos com a camiseta da banda. Os caras não deixaram por menos e deram ao público o que eles queriam ouvir: uma porrada atrás da outra, agitando todos os presentes. Paul X (baixo/vocal) estava visivelmente emocionado em comandar o espetáculo, correndo de um lado pro outro sem parar.

Estava prevista uma queima de fogos durante as músicas que infelizmente não rolou, mas o cara mesmo assim não deixou barato: “Aí galera, era pra ter um show pirotécnico, mas não deu certo. Então imaginem que está tudo pegando fogo, que eu estou pegando fogo, que meu baixo está pegando fogo, está tudo incendiando aqui!". A essa altura, a partida já estava ganha pro Monster. No set-list de 40 minutos, “At Last”, “If You Can’t Trust Me” e “Monster”, entre outras.

Vindos de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, o Hibria abriu seu show com “Steel Lord on Wheels”, mostrando que não vieram de longe à toa. Também eram muitos os que queriam ver e ouvir a banda, alguns usando camisetas e outros inclusive com pequenos cartazes nas mãos.

A banda se destaca como um todo: a dupla de guitarristas mostra entusiasmo e muita técnica; a cozinha é precisa e mantém o peso das músicas. Seu vocalista Iuri Sanson é a surpresa maior: o cara tem uma grande voz e técnica, além de ótima presença de palco e semelhanças com Ralf Scheepers (Primal Fear) pela agressividade nos drives e potência dos agudos, além de bastante personalidade. Definitivamente, o Hibria conquistou novos fãs por aqui, com músicas como “Defying the Rules”, “Stare at Yourself” e “A Kingdom to Share”.

Lançando seu novo trabalho “Leave Now!” no BMU, o Karma foi a terceira banda a se apresentar. Distante dos palcos por algum tempo devido a mudanças de formação e problemas de saúde do vocalista Thiago Bianchi, a banda se mostrou muito à vontade em cima do palco. Apesar de a participação do público ter diminuído um pouco (e de alguns imbecis chamando Thiago de “emo”), os aplausos ainda eram muitos.

Toda a técnica dos músicos pôde ser apreciada em músicas como “Leave Now!”, “Crawl” e “In The Name of God”, prejudicada apenas pela má qualidade do som do local. Thiago Bianchi mostrou-se totalmente recuperado, mandando muito bem durante todo o show. Felipe Andreoli, que também toca no Angra, dispensa apresentações e comandou bem as seis cordas de seu contra-baixo. Chico Dehira (guitarra), Fabrizio di Sarno (teclado) e Marcell Cardoso (bateria) também mostraram grande competência em seus instrumentos. A banda terminou seu set com um cover para “Be Quick or Be Dead” (Iron Maiden) que, mesmo com erros, levantou o público.

Como o Brasil Metal Union promove a união de todos os estilos do heavy metal, era a vez do gothic metal dos mineiros do Silent Cry. Conhecidos do público paulista pela abertura do show do After Forever, a banda apresentou sua nova vocalista, Fabila Tozi. A bela dos cabelos ruivos mostrou-se uma acertada escolha para o lugar de Sandra Felix, numa perfomance competente, em voz e presença.

Ainda divulgando seu último álbum, “Darklife”, o Silent Cry também tocou músicas de seus álbuns anteriores, que caíram no agrado da platéia. Não achei que uma banda de gothic agitaria tanto o público; ponto positivo para a organização e para os fãs que conseguem ver qualidade nas mais diversas vertentes do heavy metal. Um inesperado cover de “Holy Diver” (Dio) finalizou em grande estilo o retorno do Silent Cry aos palcos paulistas.

O Malefactor veio na sequência, com o black metal que representou o Brasil no Wacken Open Air desse ano. Num show impressionante do começo ao fim, a banda não dava descanso para o público. E quem ainda insiste em pensar que esse tipo de som é só barulho, que suba no palco e toque como aqueles caras. Quem pensa que técnica e precisão só rola no melódico e no prog, que veja um show do Malefactor. A banda bahiana mostrou porque tem recebido tantos elogios por parte da crítica e do público, e que também caminha para ser um grande nome do metal nacional.

Outra banda vinda do Rio Grande do Sul, o Akashic, deixou uma ótima impressão quando abriu os shows do Evergrey e do Pain of Salvation no ano passado. No BMU fez, novamente, um grande show. Abrindo com uma versão do Hino Nacional Brasileiro tocado pelo excelente guitarrista Marcos de Ros, a banda apresentou um set com músicas de seu debut, “Timeless Realm” e do último álbum, “a brand new day”. Destaque para “For Freedom”, “Voices and Signs” e a bela “Dove”. O Akashic é, junto do Karma, uma das grandes bandas de prog-metal do Brasil e que, mesmo com notadas influências de Dream Theater, acha sua personalidade e não se excede em virtuosismos.

Quem esperava por mais um show para se acabar na pista se realizou com o memorável show do Claustrofobia. Com um thrash metal de primeira, causaram um verdadeiro pandemônio na pista. Ovacionados a cada música, correspondiam com muita presença de palco, vontade e atitude. “Thrasher”, “Desorder and Decay”,”Paga Pau” e “Eu quero é que se foda” foram alguns dos pontos altos do show. Pelo público e pela banda, os caras ficariam tocando a noite toda.

Considerado por muitos a revelação de 2005, Tribuzy veio para promover o álbum de estréia “Execution”, dessa vez sem os ilustres convidados. O fato de, desta vez, não poder contar com músicos como Ralf Scheepers, Roland Grapow e Bruce Dickinson, teve um ponto positivo; todos puderam ver que a banda não precisa de todos esses caras pra fazer um grande show.

Renato Tribuzy, apesar da saúde debilitada, apresentou uma performance cheia de vontade e muita potência vocal, apoiado por ótimos músicos. “Forgotten Time”, “Divine Disgrace”, “Agressive” e “Beast In The Light” soaram matadoras em um show superior àquele da gravação do DVD no final do ano passado, justamente por haver uma pressão menor. A banda contou apenas com seus próprios méritos para fazer um grande espetáculo.

Um dos grandes nomes do heavy metal nacional, ao lado do Angra e do Sepultura, o Krisiun foi a primeira das bandas convidadas a subir no palco do BMU. Esse power trio, também vindo do Rio Grande do Sul, trilhou seu caminho desde o underground e hoje é referência no death metal mundial.

Convocando os headbangers brasileiros presentes, Alex Camargo, Moysés Kolesne e Max Kolesne realizaram um verdadeiro massacre sonoro, provando que a banda é realmente brutal ao vivo. O show marcou o lançamento do seu novo álbum, “Assassination”, mas contou com sons de toda sua carreira, se aproveitando do tempo extra em relação aos outros shows.

Após o show do Krisiun, começou uma longa espera pela próxima banda. O intervalo entre os shows, que durava em média 20 minutos, subiu para 40 para a preparação de palco para o Angra. Em determinado momento, o impaciente público começou a entoar gritos de “Au, au, au, Shaaman é pontual!”. Uma inusitada resposta veio de trás das cortina do palco: “Au, au, au, Shaaman, chupa meu ***!”. Brincadeira totalmente desnecessária.

Para quem acompanhou qualquer show do Angra no último ano, a apresentação do BMU não trouxe nenhuma novidade. A banda deixou de tocar o álbum “Temple of Shadows” na íntegra, para alívio de muitos, e fez um set reduzido (também com 70 minutos), com músicas como “Spread Your Fire”, “Waiting Silence”, “Heroes of Sand”, “Nothing to Say” e “Carry On”, entre outras.

A performance da banda foi ótima, com um porém. Edu Falaschi, apesar do esforço para fazer um bom show, se apresentou mal, cometendo erros e improvisando equivocadamente. Edu esteve doente durante quase toda a turnê do “Temple of Shadows” e no BMU pareceu não estar com sua saúde 100% recuperada.

Eram mais de duas horas da manhã e o público já demonstrava cansaço. Os shows começaram às três da tarde de sábado, mas a galera encontrou forças para agitar – e muito – no show do Torture Squad. Vitor Rodrigues, em uma noite inspirada, comandou um show energético, marca registrada da banda. O death/thrash da banda paulista foi um murro no estômago de quem estava se deixando vencer pelo cansaço. Com ânimo revigorado, o público bateu cabeça com músicas de toda a carreira, inclusive com a nova “Chaos Corporation”. 40 minutos foram pouco para o Torture Squad, mas a banda usou seu tempo muito bem e deixou o público mais do que satisfeito.

Quem já viu o Tuatha de Danann ao vivo sabe que os caras mandam bem; seu show de heavy metal com influências de música folk e celta é uma grande celebração, onde as pessoas não apenas batem cabeça, mas também dançam.

Durante todo o dia foi possível ver o pessoal do Tuatha circulando entre o público, tirando fotos, dando autógrafos e tomando cerveja; quem conhece a banda sabe como eles são adeptos de uma boa bebida. Resultado: os caras estavam bem ébrios quando subiram ao palco. Falta de profissionalismo e de respeito ao público que quer ver um show com músicos em plenas condições de tocar? Como o Tuatha era a última banda a se apresentar, acredito que o pessoal não deu muita bola pra isso e simplesmente se divertiu. Poderia ter sido melhor se não fosse pelo exagero da banda nas confraternizações antes do show. A última participação do Tuatha no BMU, banda cuja história se confunde com a do festival, teria sido mais digna.

Após quase 14 horas de música, o Brasil Metal Union fica com um saldo mais do que positivo. Apesar das adversidades, mostrou-se que é possível realizar um evento de qualidade e com grandes bandas, para um público que percebe a cada dia os grandes valores que temos na música pesada nacional.

Mais uma edição do evento que entra para a história do estilo no país e que, com certeza, renova as esperanças e fortalece a cena underground.

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