Desde que o seu quarto disco, “Plenilúnio”, foi lançado no mercado internacional pela Warner, graças ao apadrinhamento de Mike ‘Tubular Bells’ Oldfield, o grupo folk contemporâneo galego Luar Na Lubre vem se destacando no nicho folk por um trabalho criativo, inovador e, ao mesmo tempo, fiel às suas raízes célticas.

Convidados a participar da Semana da Espanha em Niterói, o grupo teve a oportunidade de se apresentar duas vezes: no Teatro da Universidade Federal Fluminense, sexta-feira dia 28 de abril às 21h e, no dia seguinte, no mesmo horário, no belíssimo Teatro Municipal de Niterói.
As longas filas em ambos os dias já mostravam a ansiedade do público. Apesar de não ter nenhum CD lançado no Brasil, o boca-a-boca, algumas canções baixadas na Internet e o fato do grupo Mägo de Oz ter gravado uma de suas músicas (“Memoria da Noite”, no CD “Gaia II”) já haviam criado uma pequena legião de fãs.
Se o som no Teatro da UFF apresentou alguns pequenos problemas, inclusive no retorno dos músicos, segundo seu líder, o gaitista Bieito Romero, o fato foi compensado pelo profissionalismo dos músicos. Foram 100 minutos de show, com direito a um bis de 4 músicas, que durou mais 20 minutos, mas que ainda pareceram pouco aos que lá estiveram, devido a fluidez de sua música. Os admiradores do gênero que ainda desconheciam seu som não se decepcionaram e os fãs do LNL tiveram a oportunidade de ouvir alguns clássicos da banda, como “Tu Gitana”, “Chove en Santiago” e “O Son do Ar”. Como previsto, porém, o cerne do concerto foi seu mais recente trabalho, “Saudade”, que dá nome a turnê: das 13 músicas do CD, apenas “Galego Guajiro” foi excluída do roteiro.
No palco, os músicos se revezavam segundo a necessidade de cada peça, nunca poluindo o palco desnecessariamente, sendo que apenas o flautista/tecladista, Xan Cerqueiro, participou de todas as músicas. Três de seus componentes se dirigiram ao público duranhte as apresentações: seu líder, Bieito Romero, Xulio Varela - que está com Bieito desde a primeira formação do grupo e, claro, a cantora Sara Vidal. Como o idioma galego se assemelha em muito ao português, em nenhum momento a audiência teve problemas em entender o que era explicado por Bieito e Xulio. Este, por sinal, ensinou um refrão típico (Ailalá!) da Galícia que incentivou todos a cantarem na música “Nau”. Outro exemplo de identificação e participação se deu com as palmas, que começaram expontaneamente nas duas noites e foram incentivadas pela banda, notadamente por Sara e Xulio. Pena que o acompanhamento de palmas “atravessou” duas vezes (por sinal, ambas nos mesmos números e nos dois dias).
Se os temas instrumentais, com pandeiradas e outros ritmos tradicionais fizeram a platéia vibrar, foi a belíssima voz de sua cantora, a portuguesa Sara Loraço Vidal, o grande trunfo do LNL. Sara recebeu a difícil missão de substituir Rosa Cedrón, cantora e violoncelista que era a própria imagem da banda desde “Plenilúnio”. Com uma voz marcante que, em alguns momentos até se assemelhava à de Rosa, Sara encantou o público presente em ambas as apresentações e, em alguns momentos, como nas belíssimas “Desterro” e “O Meu Pais”, deixou a platéia literalmente hipnotizada.
Era fácil notar que os músicos, todos excelentes, estavam felizes em tocar, coisa que é difícil de se ver em uma excursão longa e cansativa. Só na América do Sul, o Luar Na Lubre tocou na Argentina, Brasil, Uruguai e Venezuela.
O setlist extenso, como foi dito, composto de 18 músicas, teve no bis dois grandes destaques: “Tu Gitana”, clássico do LNL que foi regravado neste último trabalho com a participação de Pablo Milanés, e “Memoria da Noite”, composição inspirada pelo terrível acidente ecológico acontecido nas costas da Galícia, quando o petroleiro Prestige naufragou e extendeu uma imensa mancha de óleo, a Maré Negra, poluindo suas praias de uma maneira nunca antes vista. As imagens projetadas no telão, nesta música em especial, foram uma atração à parte.
É uma pena que os brasileiros que gostam de folk tenham tão poucas oportunidades como essa. Pelo menos, dessa vez, a vinda do Luar Na Lubre provou que há mercado para esse gênero e que outras vindas do grupo serão muito bem vindas.
E viva Galiza!
Ficha Técnica
Grupo:
Luar Na Lubre
Show:
Saudade
Local:
Niterói – 28 de abril (Teatro da UFF) e 29 de abril (Teatro Municipal)
Músicos:
BIEITO ROMERO – gaitas de fole (tradicional e midi) e acordeões
SARA LORAÇO VIDAL - vocal e pandeiro
XAN CERQUEIRO - flautas e teclado
XULIO VARELA - bouzouki e percussão
EDUARDO COMA - violino
PEDRO VALERO – violão e pedaleira de baixo
XABIER FERREIRO - percussão latina e efeitos
PATXI BERMUDEZ - bódhran, tamboril e djembek
Setlist:
”Miña Nai”
“Chove en Santiago”
“Costa da Morte”
“Camariñas”
“Cantigas Alfonso X”
“O Meu Pais”
“Terra”
“Desterro”
“Cantiga do Neno da Tenda”
“O Son do Ar”
“Nau”
“Saudade”/“Lonxe da Terriña”
“Teu Nome Amarante”
“Olla Meu Irmau”
“Uah Lua”
“Gallaecia”
“No Mundo”
“Domingo Ferreiro”/ “Danza dos Esqueletes”
Bis
“Tu Gitana”
“Hai Um Paraiso”
“Pandeirada do Che”
“Memoria da Noite”
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