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Rockstars gostam de exibir garotas, mansões, harleys, aeronaves, iates e sua coleção particular de guitarras. Ainda bem que nem todos os astros do rock pensam dessa forma. O ex-vocalista do AC/DC era o tipo de astro que descia do palco após o show e ia direto para o bar, onde conversava francamente com os fãs sem nenhum ataque de estrelismo.

Ronald Belford ‘Bon’ Scott nasceu em Kirriemuir, na Escócia, no dia 9 de julho de 1946, bem na ressaca do pós-guerra.
Aos seis anos de idade, Bon seguiu de mudança com seus pais e seus irmãos para a casa de sua tia, em Sunshine, um subúrbio de Melborne, na Austrália. Graeme, um dos irmãos de Bon, sofria de asma e seu médico recomendou que a família se mudasse o mais breve possível para o oeste do país, uma área mais seca e quente. Foi assim que a famíla Scott se mandou para Fremantle, uma pequena cidade próxima a Perth.
Foi ali que Bon começou a se interessar por música, aprendendo a tocar gaita de fole. Aos 11 anos de idade ele já estava como membro oficial da banda de seu pai, por onde permaneceu por cinco anos. Sempre que sobrava um tempo, Bon sentava na bateria e ficava brincando. Não demorou muito para ele se tornar um baterista de verdade.
Em 1961, Bon abandonou a escola e passou a trabalhar de qualquer coisa que pintasse pela frente. Foi pescador, caminhoneiro, motorista de trator, balconista, bartender, carteiro e operário de uma indústria.
Sua primeira banda de rock, The Spektors, serviu para colocar o garoto em contato com suas primeiras groupies. Não é a toa que com apenas 16 anos de idade ele já era autuado por roubar galões de petróleo, fornecer dados pessoais falsos à polícia e importunar algumas garotas pela cidade. Durante dois anos, o garoto ficou sob custódia de uma repartição que cuidava de ‘crimes na infância’, chegando inclusive a cumprir pena numa cadeia especial para adolescentes.
Quem não gostava nada dessa farra eram os pais de Bon, nessa altura, bastante amargurados com os rumos tomados pelo adolescente. Tais episódios foram cruciais na trajetória do músico, que passou a criar uma determinação assustadora buscando arrumar um emprego e ganhar uma grana, enfim, fazer as coisas acontecerem e literalmente limpar a barra com seus coroas.


A imagem pop dos Valentines acabou sendo abalada pelo envolvimento com drogas de seus integrantes, o que levou a banda a ruir rapidamente, em 1970. Bon não se intimidou, mudou para Adelaide e se juntou a um grupo local mais pesado e ousado, o Fraternity, apaixonados pelo hard rock e pelo progressivo que tomava conta do planeta. As revistas especializadas já publicavam matérias especiais com a banda, caracterizando Bon como o ‘cara selvagem’ do Fraternity.



O grupo tentou alucinadamente descolar algum reconhecimento pela Inglaterra, inclusive fazendo algumas tours pela pátria mãe da cena roqueira da época, mas não conseguiram nada além de meia dúzia de seguidores. Chegaram a abrir shows do Status Quo, Black Sabbath e do Geordie, banda que tinha Brian Johnson nos vocais, o sujeito que substituiria Bon no AC/DC, em 1980!
Em 1973, o Fraternity mudou seu nome para Fang e lá pela metade do ano estavam encerrando as atividades de vez. Bon e mais alguns ex-integrantes fundaram o Mount Lofty Rangers que teve vida curta, pois o vocalista sofreu um grave acidente de moto no início de 1974, que o deixou em três dias de coma e o impossibilitou de continuar na estrada por algum tempo. No lugar de Bon, escalaram Jimmy Barnes, figura lendária na Austrália, que depois integraria as bandas Cold Chisel e Living Loud.
Bon continuava trabalhando como motorista em Adelaide. Cantava e tocava bateria nas horas vagas. Costumava também dirigir a Van de uma nova banda, o AC/DC, que contavam então com os ofícios do vocalista Dave Evans.
Os irmãos Young não estavam nada contentes com o direcionamento Glam que Evans estava dando para o AC/DC. Nessa mesma altura, Bon se ofereceu para ser baterista do grupo, no entanto, o que os irmãos Young precisavam era de um frontman que encarnasse todo o pique daquela banda. Bon topou o desafio e o resto é história.
Depois de vários álbuns de estúdio e um ao vivo fenomenal, o AC/DC perdeu seu eterno vocalista num verdadeiro golpe de má sorte.
A tragédia teve início numa tradicional noite de bebedeira, coisa que Bon estava realmente acostumado. Bon e um amigo seu, chamado Alistar Kinnear, foram tomar alguns drinks no Music Machine, um clube noturno localizado em Camden Town. Depois de muitas rodadas, a dupla se mandou para Ashby Court, onde Bon vivia naquela época. No caminho, Bon literalmente apagou no banco de trás do veículo. Kinnear não deu muita bola e seguiu adiante. Quando chegou na casa do vocalista do AC/DC, Kinnear tentou acordar Bon e levá-lo para a cama, porém não conseguiu acordar seu companheiro, que estava num avançado estado de embriaguez.

Kinnear desistiu da idéia e seguiu dirigindo para seu próprio apartamento. Chegando lá, nova tentativa frustrada de tirar o amigo bêbado do veículo. O jeito foi deixar Bon ‘dormindo’ no banco de trás do automóvel, um Renault 5.
Quando Kinnear voltou na manhã seguinte para ver seu amigo, já era tarde demais. Bon estava morto, praticamente congelado dentro do pequeno automóvel. O sujeito ainda levou o amigo às pressas para o Kings College Hospital, de Londres, que declarou que o músico já chegou sem vida nas dependências do pronto socorro.
O atestado de óbito informou que Bon Scott havia falecido em decorrência de envenenamento alcoólico agudo e ‘death by misadventure’ (morte por desventura, ou por desgraça).
Nos jornais da época foi também noticiado que o músico teria se sufocado com o próprio vômito e que a baixa temperatura da madrugada e suas constantes crises de asma colaboraram para a tragédia daquela fria manhã de 19 de fevereiro de 1980, um dos dias mais tristes do rock n’ roll.

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Bento Araújo nasceu em 1976. É jornalista profissional e adora a música dos anos 60 e 70. É o editor chefe da Poeira Zine, a única publicação do país dedicada à música dos bons tempos. Lá ele escreve os textos, faz a diagramação, cuida da arte, do visual, faz 'a social' com os anunciantes, distribui, faz correio, banco, responde os e-mails e as cartas e também limpa o banheiro da redação... Além de tudo isso, o cara ainda tira uma onda tocando contra-baixo pela noite paulistana, além de vez ou outra fazer um 'bico' em alguma loja de discos em troca de raridades vinílicas... O Editor também oferece seus serviços jornalísticos e musicais a quem se interessar... (nada que uns bons dólares não possam resolver...)
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