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Pouco antes do terrível acidente que vitimou a banda Mamonas Assassinas ocorrer, o grupo conseguiu o mérito da onipresença. Era aceito em todos os canais, para divulgar seu único disco auto-intitulado de Mamonas Assassinas. Sucesso em todo Brasil, tendo conquistado principalmente o público infantil, o grupo paulista viveu uma das últimas grandes épocas da venda de CD.
As letras, que primavam por duplo sentido e pobreza estética, caiu como uma luva no gosto popular. Vez por outra, a sociedade brasileira escolhe o seu "quanto pior melhor" para cantar junto, chorar junto, brincar junto e sofrer junto. Imagino que em tempos de twitter, Dinho (vocalista) seria um daqueles que teria mais de 1 milhão de seguidores, 'brincando'.
Infelizmente a banda teve sua carreira interrompida por um acidente de avião, que vitimou todos os tripulantes e por conseguinte os integrantes. Uma comoção pouco vista no País tomou conta das cidades; manifestações de carinho do Oiapoque ao Chuí, homenagens, especiais. Os programas 'normais' e os sensacionalistas sugaram o máximo que poderiam da tragédia que fez "o Brasil parar de rir".
Musicalmente, o Mamonas era uma espécie de Ultraje à Rigor sem pedigree. Tinha músicos competentes e um vocalista pra lá de carismático, mas duvido muito, que passado dois, três anos da explosão de sucesso, continuariam fazendo piadas, paródias, imitações e fazendo o Brasil todo gargalhar. Quando o foco de um artista de música é além da música, possivelmente sua história será curta. Existe um fato curioso que envolve a banda de rock: após 15 anos do acidente não se ouve música dos Mamonas, em rádios, em festas, em shows. O boom nefasto e póstumo durou pouco mais de dois anos.
A relevância dita por alguns entendidos musicais só pode ser mensurada (por estes mesmos) mediante a tragédia. Tivesse a banda continuado sua carreira - o que é bastante improvável - talvez teria caído no esquecimento como um monte de outras bandas que fizeram discos de estreia maravilhosos e depois sumiram mediante o desafio de fazerem um trabalho de qualidade no segundo lançamento.
Mais uma vez: musicalmente os MM não fizeram nada que acentuasse o tal estado da música brasileira. Não acrescentou uma vírgula na história da MPB e do rock nacional, senão ter conseguido o 'mérito' de fazer crianças de 3,4,5 anos cantarem músicas com a seguinte pérola: "Roda, roda e vira, solta a roda e vem/Neste raio de suruba, já me passaram a mão na bunda/E ainda não comi ninguém!". Nesta hora, as letras deixam de ser classificadas como de pleno 'mal gosto' para trazerem 'alegria aos lares brasileiros'.
Adendo: em tempos puristas, o Ministério Público no presente século, já teria feito alguma concessão ao tipo de música feita pelos MM.
Infelizmente o que torna as pessoas inesquecíveis é assinatura do jazido e não vida pré-sepultura. Se alguém com discurso politicamente correto disser que MM foi importante ou melhor, influente para história da MPB onde poderemos encaixá-los? Mais relevantes que os Raimundos, que fizeram uma mistura inusitada e pesada, entre forró e metal? Mais interessantes que Los Hermanos, que amaciaram os versos do hardcore melódico e juntaram-no numa espécie de twist e rockabilly? Mais envolventes que o próprio Ultraje, que soube utilizar com a inteligência a famosa rivalidade entre cariocas e paulistas?
Sinceramente, não fosse o fim lamentável (que eu, por razões humanas, me solidarizo), MM passaria desapercebido e não teria feito nenhuma diferença no cenário. E mesmo que alguém os "acuse" de serem transgressores, teremos que re-definir, sob a pena de ficarmos muito tempo sem entender, o que é transgressão na cultura popular e principalmente, quais são os frutos de uma mensagem transgressora que encontra na crítica e na anarquia estética a melhor forma de dizer suas inquietações e visões do mundo.
No dia 17 deste mês teve estreia do doc/filme "Mamonas Pra Sempre" que tenta imortalizar a figura da banda como seres mitológicos, de um fenômeno que é mais midiático do que musical. Fizeram um gol e pelo poder catalizador e sombrio da morte, tornaram-se quase Pelés. Me poupem...
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Daniel Junior é administrador do site Aliterasom e do site sobre futebol Pensando Futebol. Estudante de Língua Portuguesa, embora já tenha estudado Jornalismo e História. Tem 36 anos é músico e líder operacional em uma multinacional americana; fascinado por tecnologia, comunicação e séries de TV. Acredita que Lost foi a melhor criação do homem depois do Youtube e até hoje não acredita que 24 horas acabou.
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