Sobre Joelhos, Metallica e o 1º Princípio da Filosofia

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Sobre Joelhos, Metallica e o 1º Princípio da Filosofia

Postado por Daniel Dystyler | Fonte: Arena Heavy

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Rompimento total do ligamento cruzado anterior; rompimento do menisco medial com fragmento instável; contusões ósseas fêmoro-tibiais; sinais de estiramento (lesão de grau I) do ligamento colateral lateral; condropatia patelar focal (lesão de grau III); e derrame articular. Esse foi o resultado da ressonância magnética do meu joelho direito. Como eu consegui essa destruição total do meu joelho ? Ora, simples: Tocando guitarra!!!

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

No meio do show, com o joelho já arrebentado e camiseta do Metallica
Toda essa proeza aconteceu no 1º acorde (um “mizão”) da 1ª música (Tom Sawyer do RUSH) tocando com uns amigos num show em Outubro deste ano. E continuar tocando pelo resto do show foi uma espécie de tortura medieval (aproveito pra agradecer ao pessoal do Pal-G Studio por me deixar gravar uns overdubs em cima das primeiras músicas quando a dor estava realmente alucinante, assim o áudio não ficará tão vergonhoso... Só o suficiente...).

Dois meses depois, eu estou rascunhando este texto no quarto de um hospital. Acabei de fazer a cirurgia de reconstrução do joelho e o efeito da anestesia peridural ainda está a todo vapor e por conta disso ainda não consigo mexer as pernas.

Acho que é por isso, que não consigo parar de pensar na música "One" do METALLICA.

Pra quem não sabe, a música foi inspirada no livro de 1970 de Dalton Trumbo intitulado "Johnny Got His Gun". Um ano depois, o próprio Trumbo dirigiu a adaptação para o cinema (no Brasil, Johnny Vai À Guerra) que o METALLICA usou diversas cenas na construção do famoso vídeoclip de "One". As cenas do filme aparecem com mais detalhes, obviamente na versão completa do vídeoclip (não na versão editada que normalmente era exibida pela MTV).

"Johnny Got His Gun" conta a história do soldado Joe Bonham (imagino que o nome seja apenas coincidência em relação ao gênio dos tambores do LED ZEPPELIN) que teve o corpo dilacerado por uma explosão durante a 1ª Guerra Mundial. Sem pernas, braços, nem a maior parte do rosto, Joe não consegue se comunicar com o mundo exterior embora seu cérebro esteja intacto e, portanto consiga pensar e raciocinar com clareza.

No VHS de lançamento do videoclip de "One" (“Metallica: 2 of One”, 1989), além de incluir as 2 versões do clip, o METALLICA também colocou uma entrevista de 5 minutos com Lars Ulrich que diz que o objetivo de James Hetfield ao escrever "One", era mostrar um ser humano em TOTAL isolamento. Uma mente sadia aprisionada dentro de seu corpo sem possibilidade de comunicação com o mundo exterior. Nas palavras de Lars:

“James conversava comigo sobre como seria estar em uma situação na qual você fosse basicamente um tipo de consciência viva, uma situação terrível, em que você não poderia alcançar os outros nem se comunicar com ninguém ao seu redor; na qual você não teria braços, nem pernas; e, com certeza, não conseguiria enxergar, falar, nem fazer nada parecido com isso.”

James quebrando o “status quo” dos vídeos da época
Este tema, tão brilhantemente mostrado pelo METALLICA no clip de "One", foi há quase 400 anos, a base para a criação da mais famosa frase da História da Filosofia (já falo qual é a frase, mas tenho certeza, você já a ouviu e muito possivelmente até já recitou essa frase).

Era uma vez uma cara muito radical chamado René Descartes que escreveu um texto chamado “Discurso sobre o Método” aonde ele questiona algo totalmente “Matrix” (o filme). Ele questiona o seguinte:

Como podemos saber se o mundo que percebemos através dos nossos sentidos realmente existe? Como diferenciar “coisas reais” de coisas que são sonhos ou pensamentos? Como confiar nos nossos sentidos (e por tabela, como saber que não estamos aprisionados a uma máquina como no filme)?

Para responder a essas perguntas, Descartes imaginou o exercício de se desapegar de todos os seus sentidos. Não confiar mais neles. Como ele mesmo disse:

“Considerando que todos os pensamentos que temos quando estamos acordados também podem nos ocorrer quando dormimos, sem que nenhum deles, naquele momento, seja verdadeiro, eu resolvi fingir que todas as coisas que já entraram em minha mente não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos” (Descartes no “Discurso sobre o Método”).

E ao fazer isso, ele se transformou em alguém exatamente igual ao personagem de One do METALLICA, ou seja: Alguém que não tem mais os sentidos sensoriais para interagir com o mundo exterior. Alguém que tem apenas a sua mente.

E sem nenhuma informação que vem de fora, sem nenhum pensamento que possa ser construído em cima de algo percebido pelos sentidos, o que sobra ? Descartes percebeu que não sobra quase nada... Sobra apenas 1 certeza.

Somente 1 coisa que qualquer pessoa (René Descartes, Joe Bonham, você, eu, qualquer um, anyOne) pode ter absoluta certeza, mesmo sem confiar nos sentidos:

Essa certeza, é que a pessoa que está fazendo todas essas perguntas, existe. Afinal, pra duvidar de todas essas coisas, deve haver alguma “coisa” (uma entidade existente) que duvida de tudo. Ou nas palavras de Descartes “logo depois, percebi que, ao mesmo tempo que desejava pensar que todas as coisas eram falsas, era necessário que eu, que estava pensando, fosse alguma coisa”.

“Penso, logo existo”. O 1º Princípio da Filosofia.

Descartes tinha cabelo comprido e só se vestia de preto. Totalmente Metal.
Depois disso, muitos filósofos concordaram e discordaram com Descartes, e outros tantos usaram o “Discurso sobre o Método” para postular novas teorias, mas o objetivo deste post, se é que tem algum (todo esse papo de “doido” deveria ter algum objetivo) não tem nada a ver com Filosofia. Tem a ver com o grande mal do mundo, em minha opinião: Preconceito.

Quanto maior for o nosso conhecimento ou convívio com alguma coisa, menor será a chance de sermos preconceituosos em relação a essa coisa.

Isso é verdade para raças, crenças, doenças, preferências musicais, times de futebol, pessoas altas, baixas, gordas, magras, opiniões políticas, e por aí afora.

Quanto mais “ignorantes” as pessoas forem (“ignorar” no sentido de “desconhecer” ou “não conviver”), maior a chance de preconceito e todos os problemas decorrentes disso.

O que tem a ver com o Metallica e Descartes ? Pra mim, tudo...

Ou não é ignorância e preconceito aqueles que acham que Heavy Metal “é tudo barulho e as músicas não falam nada com nada”??? (algum dia vou escrever sobre Operation: Mindcrime do Queensryche, a melhor história já escrita até hoje para ser usada como tema de um álbum).

Ou não é ignorância e preconceito um “verdadeiro From Hell” (arrrghh...) falar que Filosofia é um saco, sem nem saber do que se trata??? (vale ressaltar que eu não sou especialista em Filosofia, muito pelo contrário, mas acho o tema interessante e às vezes leio sobre o assunto. A idéia para este post, saiu de um texto sobre Descartes escrito por Joanna Corwin, Mestre de Filosofia pela Catholic University Of America).

Ou não é ignorância e preconceito dos inúmeros críticos que na época falavam que o METALLICA incluiu One só pra vender na MTV ??? (desprezando o fato que numa época de vídeos “Glamour-Hair-Metal”, One foi feito em preto e branco, e que do meio pro fim do vídeo, a música se transforma em algo visceral, totalmente “And Justice For All”, um verdadeiro chute na boca do estômago de quem está assistindo).

Quem quiser testar o seu próprio preconceito, eu recomendo uma visita ao site www.implicit.harvard.edu. É um estudo feito na Universidade de Harvard através do método de associação implícita. Você pode se testar online e gratuitamente. E o melhor, sobre diversos assuntos.

Pra terminar o post (que reconheço, literalmente “viajou” por vários itens) e voltar ao tema original:

O final apoteótico de "One" (quem viu ao vivo, não esquece as explosões cada vez que o James chama “Darkness” ou “Landmine”) termina com a sequência mais brutal do álbum quando diz “has taken my sight, taken my speech, taken my hearing, taken my arms, taken my legs, taken my soul, left me with life in hell”.

Essa sequência é de arrepiar em qualquer lugar, a qualquer hora, ao vivo, no vinil, de estúdio, no iPod, em casa, mas principalmente ao assistir o vídeo pois é exatamente nessa hora que o Metallica coloca a cena dos médicos percebendo que Joe Bonham ainda pensa (e portanto, sim, ele existe).

Pra terminar, só que de um jeito mais “light” e que tem a ver com o assunto (estou bem mais otimista hoje, 2 dias depois, sem o efeito da peridural e já andando com auxílio de muletas), John Lennon falava de um mundo sem preconceito faz tempo:

I hope someday you'll join us, And the world will live as One.

Matéria: Daniel Dystyler - Arena Heavy

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Sobre Daniel Dystyler

Daniel Dystyler começou sua paixão por música ainda criança ao conhecer os Beatles. Mas a vida mudou completamente quando escutou pela 1ª vez os acordes do Iron Maiden. A partir daí, e por mais de 25 anos, o gosto por Heavy Metal foi só aumentando. Daniel foi roadie do Viper de 1986 a 1991, período que incluiu o lançamento dos álbuns "Soldiers of Sunrise" e "Theater of Fate". Atualmente se diverte tocando guitarra com seus amigos na banda "Number One" e é o coordenador do Festival "Kaizen Rock" que acontece em Outubro e que entre outros benefícios, gera receita para 2 entidades que auxiliam crianças e adolescentes carentes.

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