De Zero a NX Zero: O que aconteceu com o rock nacional?

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Por Paulo Faria, Fonte: Portal Espera Feliz
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Navegando pelo site de vídeos Youtube, fui surpreendido pela seguinte frase: "Um NX na frente do Zero ferrou com o rock nacional". A frase em questão, num misto de sarcasmo e decepção, foi discorrida por um usuário daquele site referindo-se à clássica canção Quimeras da banda dos anos 80 Zero, contrapondo-se à banda dos anos 2000, Nx Zero.

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A comparação feita por esse usuário não apenas sintetizou em seu comentário seu descontentamento pelos descaminhos da música brasileira, como também refletiu de forma irônica a insatisfação de muitos a respeito do rock produzido no Brasil ultimamente.

Há quem diga que nos últimos 30 anos o rock brasileiro vem se deteriorando, fragmentando; que hoje em dia não se produz mais o "verdadeiro" rock, e que tudo feito atualmente é sem "atitude". Não será apenas saudosismo? Não será apenas nostalgia de pessoas que viveram os áureos tempos em que no país despontava dezenas e mais dezenas de bandas de rock do qual cada uma tinha seu espaço na mídia porque à época o mercado assim funcionava? Não será o caso dessas mesmas pessoas hoje terem dificuldade de assimilar o "novo"? Qual a diferença do rock produzido no Brasil lá nos idos dos anos 80 para o que é produzido hoje?

Primeiramente, se faz necessário analisar a concepção de clássico e averiguar brevemente a história do rock no Brasil. Clássico, segundo o Aurélio, é um adjetivo que entre outras coisas, quer dizer "de melhor qualidade"; "exemplar". Sendo assim, pode-se afirmar com certeza de que a maioria do que se produziu de rock no Brasil até 1990 se encaixa dentro da concepção de "clássico".

O rock brasileiro não nasceu nos anos 80, mas teve seu grande "boom" naquela década. Nos anos 60 já havia certa ousadia, e muita coisa que se produzia até então flertava com o rock que se produzia lá fora. Celly Campelo, Roberto Carlos e Erasmo Carlos exibiam em suas canções nuances do rock n' roll, porém, com características tropicais. O rock brasileiro dava seus primeiros passos.

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Nos anos 70 a cena fica mais endiabrada e grupos e artistas como Raul Seixas, Casa das Máquinas, Mutantes, O Terço, dão uma cara "mais rock" às composições, e o Brasil, enfim, começa a ser representado pelo seu próprio rock. Porém, ainda não existia uma "unidade coletiva", um "movimento organizado"; tudo ainda era muito isolado, e o mercado musical insistia em não reconhecer o rock como grande produto a ser investido comercialmente. O Brasil vivia ainda no auge da ditadura militar, o que evidentemente inibiu o nascimento de algo mais coeso.

No final dos anos 70 o mundo foi arrebatado pelo "movimento punk" da Inglaterra, o que encorajou jovens de todas as classes sociais a assumir uma postura ideológica, e por que não, montar uma banda. No Brasil não foi diferente.

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A dificuldade econômica não impedia que discos importados chegassem às lojas brasileiras e que bandas estrangeiras dessem o ar da graça por aqui. Van Halen, Alice Cooper e Queen, foram algumas das primeiras bandas de rock a tocarem no Brasil. O mercado começava a se expandir, e a luta de todos os setores da sociedade pelo fim do regime antidemocrático deu o combustível necessário para a grande explosão do rock brasileiro. A Blitz, de Evandro Mesquita, foi a que abriu as cortinas para todo o movimento que seria conhecido como o "rock oitentista".

O mercado fonográfico, com o sucesso da Blitz, mais do que rápido arregalou os olhos para a galinha dos ovos de ouro que seria a música rock. Com isso, investiu-se maciçamente no estilo e o que se viu foi uma enxurrada de bandas de todos os seguimentos dentro do rock 'n' roll inundando a cena: pop, punk, pós-punk, heavy metal, new wave... Enfim, o rock brasileiro amadurecera e então criava-se um conceito de rock brasileiro do qual todas as bandas procuravam ser melhores do que podiam ser, fossem nos arranjos, fossem nas letras. Existia até uma rivalidade entre elas, muita das vezes, não velada.

A cena roqueira dos anos 80, ao contrário do que existe hoje, não era apenas um monte de bandas tocando. Era sim, como já foi dito, um conceito musical onde cada grupo exibia sua estética peculiar, sua identidade, e às suas maneiras, levantavam suas bandeiras políticas, sociais e amorafetivas. O movimento não era estéril e banalizado, mas sim, consistente e profundo.

Na primeira fila destacavam Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, RPM, Engenheiros do Hawaii e Ultraje à Rigor. Na segunda e terceira filas estavam aquelas que embora não fossem campeãs de vendas ou de exposição, foram responsáveis por enriquecer ainda mais a cena: Rádio Táxi, Capital Inicial, Ira!, Plebe Rude, Kid Abelha, Lulu Santos, Biquíni Cavadão, Camisa de Vênus, Heróis da Resistência, Uns e Outros, Nenhum de Nós, Hojerizah, Varsóvia, Finis Africae, Léo Jayme, Arte no Escuro, Cabine C, Salário Mínimo, Magazine, Harppia, Golpe de Estado, Metrô, Os Replicantes, Inocentes, Garotos Podres, A Chave do Sol, Inimigos do Rei, Azul Limão, Patrulha do Espaço, Kiko Zambianch, Picassos Falsos, Voluntários da Pátria, Richie, Egotrip, Vzyadoq Moe, Violeta de Outono, Muzak, Escola de Escândalos, Sempre Livre, Sexo Explícito, Ratos de Porão, Zero (já citada nesse artigo) e muitas, muitas mais...

É claro que no mesmo período também surgiram algumas coisas de gosto duvidoso, mas, num contexto geral, com tantos grupos disputando a tapa o tão concorrido espaço, ainda prevaleciam a originalidade, a identidade própria, pois cada banda soava de forma individual, mesmo que as referências musicais de cada uma fossem as mesmas (o rock britânico, por exemplo).

Os anos 90 foram a ressaca. Com a explosão de criatividade, qualidade e quantidade de grupos surgidos na década anterior, era evidente que o mercado estagnaria. Muitas bandas que brilharam nos anos 80 participando até de programas do Faustão, Angélica, Gugu, Xuxa (sim meus caros, essa galera já tinha seus programas há 30 anos...), saíram de campo.

Mas o fogo não havia se apagado completamente. De uma pequena centelha surgiriam ainda grupos com traços de originalidade nos anos 90: Raimundos, Chico Science e Nação Zumbi, Skank, Los Hermanos são algumas.

Com a chegada do século XXI, parece que a criatividade e a inteligência hibernaram ou entraram de férias. Ao longo de 10 anos, nenhuma banda nascida nos anos 2000 foi capaz de produzir um disquinho sequer relevante. Algumas bandas até se esforçaram, mas no geral, o que foi feito ao longo de uma década foi medíocre, ordinário, inútil e pueril. Não por acaso, os álbuns que mais se destacaram naquela década foram lançados pelos veteranos dos anos 80. Eis alguns: Surfando Karmas e DNA (2001), Engenheiros do Hawaii; Longo Caminho (2002), Paralamas do Sucesso; Rosas e Vinho Tinto (2002), Capital Inicial; Só quem Sonha Acordado vê o Sol Nascer (2007), Biquíni Cavadão; e os excelentes O Quinto Elemento (2007), Zero; e Canções de Amor e Morte (2007), Uns e Outros. Ou seja, teve que a velha guarda do rock brasileiro entrar em campo pra salvar a década da mediocridade musical.

Mas tamanha infertilidade tem lá sua explicação. Com a democracia mais fortalecida, com a economia ajustada e com melhor distribuição de renda, toda a criação dos anos 2000 fora apenas um reflexo das pretensões e aspirações artísticas de seus criadores. Se não existe mais repressão política e o amor e sexo estão banalizados, contestar e romantizar pra quê? Além do mais, não é preconceituoso dizer que num país iletrado como o Brasil, num país onde Educação não é prioridade, não dá pra esperar nada de relevante em relação à arte. O que temos produzido em todas as esferas musicais do mainstream no Brasil é puro lixo; produto da nossa deseducação e o apreço pela mediocridade.

No livro "A Era do Vazio", Gilles Lipowetsky faz uma análise profunda da pós-modernidade e o que ele expõe é como a arte em geral está se fragmentando indo cada vez rumo ao vazio. O traço de substância estética e "concreta" que tínhamos ontem, cada vez mais vai se tornando artificial e estéril. Nada dura, nada se retém. Sua consideração faz sentido, afinal, quantas Legião Urbana e quantos Drummond de Andrade se veem surgindo hoje em dia? Ele ainda afirma que o pós-modernismo não passa de um outro nome para designar o declínio moral e estético da nossa era; que os produtos culturais são industrializados, subordinados aos critérios de eficácia e de rentabilidade, ou seja, são feitos unicamente com a finalidade de serem comercializados.

Outro escritor, Simon Reynolds, autor do livro "Retromania" (ainda não lançado no Brasil), esclarece que de tempo em tempo têm-se um "revival" na música, mas que os anos 2000 foram marcados pelo "fiasco" e que chegamos ao "fim da linha" da criação artística.

Já Karl Max disse que tudo é feito para ser desfeito amanhã, despedaçado ou esfarrapado, pulverizado ou dissolvido, a fim de que possa ser reciclado ou substituído na semana seguinte e todo o processo possa seguir adiante, sempre adiante, talvez para sempre, sob formas cada vez mais lucrativas.

É o triste fim do Rock Brasil.




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Sobre Paulo Faria

Paulo Faria tem um montão de anos; é um amante do cinema de horror, literatura e rock 'n' roll. É professor por formação, humorista por conveniência, músico por obsessão e escritor por aspiração.

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