Angra: "Tomo decisões pensando no sucesso e não fracasso!"

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Angra: "Tomo decisões pensando no sucesso e não fracasso!"

Press-Release postado por Eduardo Macedo | Fonte: MS Metal Press

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Segue abaixo a segunda parte da entrevista especial com a banda Angra. Desta feita, o vocalista Edu Falaschi juntamente com os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt discorrem sobre outros temas relacionados à atual turnê com o Sepultura, além de revelarem idéias e projetos para o futuro do quinteto.

Leia no link abaixo a primeira parte da entrevista.

Angra: Edu, Rafael e Kiko comentam momento atual da banda

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Voltando a falar sobre a turnê com o Sepultura, foi muito bacana ver uma declaração do guitarrista Andreas Kisser que afirmou que essa união tem sido muito positiva, mesmo as duas bandas sendo de gêneros diferentes dentro do Metal. No início da turnê, o Angra esperava esse sucesso todo?

Rafael Bittencourt: Sim. Eu sempre espero o melhor! Tomo as decisões pensando no sucesso e não no fracasso. Foi tudo exatamente como esperávamos. Levantamos a moral do Metal brasileiro e a moral das duas bandas também ficou em alta, por terem coragem em assumir um projeto tão audacioso.

Edu Falaschi: Ficamos de fato muito felizes com todo esse projeto. O Andreas e todos no Sepultura são caras muito legais, por isso não me admira declarações positivas vindas deles. Tenham certeza que a recíproca é mais que verdadeira.

Kiko Loureiro: A gente nunca tinha feito nada do gênero e, particularmente, eu não sabia muito bem o que esperar, apesar de sempre mantermos o otimismo em tudo que nos propomos a fazer. Mas a nossa dúvida era um pouco mais pelo público, se ia de fato se misturar, tanto que a gente decidiu que o Angra tocaria primeiro, pelo estilo mesmo ser mais diversificado. Já o Sepultura é sempre intenso em todo o set, os caras vêm, tocam super alto, porrada o som em tempo integral. Fora que se a gente tocasse depois, acredito que quebraria muito o clima, a gente não sabia como o público iria reagir. Mas que a união das duas bandas seria bem falada, a gente sempre achou que seria mesmo. Bem vista, principalmente, por parte daqueles que apóiam o Metal brasileiro. Por isso que a gente teve essa idéia. Se teriam fãs radicais ou se o fã do Angra iria embora no show do Sepultura eram incógnitas, mas isso felizmente não aconteceu e todos esses shows aí que fizemos foram muito legais e produtivos.

Mais um ponto que acho fundamental nessa união é que ela acabou gerando mídia espontânea pra vocês, concordam?

Kiko Loureiro: É. Porque isso aí no fundo é cultura de festival, não é verdade? Você vai em um festival na Europa e tem tudo quanto é tipo de banda. Desde o Death Metal até o Hard Rock, passando pelo Thrash e Power Metal, e a galera fica lá ouvindo, interagindo, se divertindo bastante todo o tempo. Se você não gosta, fica mais pro fundão, toma uma cerveja. Se gosta, vai lá pra frente, apoiando seus artistas preferidos sem violência alguma. Mas, na realidade, sempre estão todos reparando, gostando, curtindo. É música, é Rock, gerando toda essa união. Esse foi o grande objetivo dessa tunê: mostrar que a união faz a força e que precisamos solidificar mais ainda nosso cenário brasileiro. Não tem porque odiar esse ou aquele artista. Aqui não precisamos de rivalidades como existem no futebol. Futebol é esporte e pra ele existir a rivalidade precisa estar presente. Na música, bem como nas artes em geral, não!

Rafael lançou um grande álbum com o Bittencourt Project, Edu ganhou quase todos os prêmios que podia com o “Fragile Equality”, do Almah, Kiko Loureiro lançou recentemente dois excelentes álbuns de estilos diferentes (“Fullblast” e “Neural Code”), Ricardo mais atuante que nunca no Shaman e Felipe atuando como produtor de novos talentos. Tais constatações parecem estar deixando muito fãs apreensivos, inclusive, alguns deles temem que o Angra não seja mais a prioridade de vocês. O que os membros da banda podem nos dizer sobre essa questão?

Rafael Bittencourt: Ainda estamos nos ajustando a uma nova realidade de comprometimento com o grupo. Alguns mais do que outros já entenderam que se não houver a cooperação de todos a coisa não anda. Muitos compromissos já estavam agendados e estamos respeitando isto também. Mas, para o futuro próximo a idéia é que todos tenham o Angra como prioridade total. Já estamos compondo uma agenda que permita épocas em que cada um faça o seu projeto sem interferir nas atividades do Angra.

Kiko Loureiro: É... o Angra ficou meio que de canto quando a gente estava resolvendo os problemas com o empresário. Sendo assim, não vou dizer que a banda não era prioridade, até porque a prioridade era resolvermos as pendências judiciais com nosso antigo empresário. Esses fatores, que não faziam parte do âmbito musical e que eram toda a parte ruim do negócio, eram constantes em nossas vidas, mas como nós somos músicos, precisamos estar sempre tocando. A gente queria tocar, colocar os planos em dia, então, as coisas foram mais lentas, resolvendo os problemas da marca Angra e, em paralelo, fomos tocando nossos trabalhos pessoais em todo o ano de 2008.

Edu Falaschi: É como o Kiko mesmo disse. Por sermos músicos e vivermos exclusivamente da música, tivemos a necessidade de darmos prosseguimento às nossas respectivas carreiras enquanto o Angra estava obrigatoriamente parado. Por conta disso, todos nós estamos com novos trabalhos lançados e compromissos firmados, sendo assim, estaremos cumprindo toda nossa agenda em respeito aos fãs e contratantes. Seja com o Almah, Bittencourt Project, Shaman, Neural Code, etc.

Kiko Loureiro: E foi isso mesmo que aconteceu. O Rafael gravou o seu primeiro disco solo com o Bittencourt Project e eu acho muito bom esse tipo de iniciativa. Até porque, além de compor todo o álbum ele voltou a cantar. Desde quando nos conhecemos, aos 17 anos de idade, bem antes de montarmos o Angra, ele tinha uma banda que também era vocalista. Portanto, foi muito bom mesmo voltar a vê-lo nesse posto, que ele sempre se sentiu bem à vontade como músico. Então, o sonho dele de ter um som próprio cantando sempre foi vivo desde a adolescência. Eu fico feliz por ele, por ter feito um disco super bom, cantando as músicas, isso é muito gratificante de ver acontecer! E eu estendo essa felicidade para as carreiras do Edu, do Felipe e do Ricardo. O Felipe tem um talento muito grande pra produção, ele gosta muito, então, o fã tem que entender também que a gente tem outros prazeres na vida, não é verdade? No caso do Felipe ele gosta de produzir, curtir esse lado de estar atrás de uma mesa de gravação. Não só tocar o baixo, mas tocar bem vários instrumentos. Eu gosto de Jazz, música instrumental com outros tipos de sonoridade, então, esse trabalho com o Neural Code é bem isso, quem ouvir o disco vai perceber. Eu cresci estudando guitarra e, basicamente, muito mais que o Heavy Metal por assim dizer. Eu ouvi os grandes guitarristas, então sempre tive vontade de fazer discos como os dos meus ídolos, tais como Steve Vai, Joe Satriani, dentre outros. Eu gravei o “No Gravity”, depois eu fiz o “Universo Inverso”, e aí eu fiz o “Fullblast”, sendo assim, não temos outro tipo de hobby. Ninguém vai à praia, ninguém surfa, ninguém se propõe a fazer outro tipo de coisa. A gente acaba tendo como hobby fazer essas variações musicais aí, que são encontradas em nossos discos paralelos ao Angra. Então, é basicamente isso. Porque a banda tem 20 anos, não é verdade? Eu acho super necessário você fazer outras coisas para suprir sua necessidade de criação. Se pegarmos o Iron Maiden como exemplo disso que mencionei, o vocalista Bruce Dickinson, além da carreira solo que ele mantém até hoje, pilota avião, luta esgrima, etc. Então, tem um monte de artista que faz outras coisas fora da música. E no meu caso, eu estou sempre tocando. Eu vario em cima do tema: tocar guitarra (risos). Toco com o Angra, toco violão, toco com outros artistas, etc. E é o que eu tenho vontade de fazer pro resto da minha vida. E o Angra, ali de alguma forma, realmente é diferente de quando a gente tinha 20 anos. A gente não tinha noção do que era, mas também a gente estava ali de repente fazendo faculdade, fazendo outros negócios, e aí o Angra acabou imperando como prioridade em nossas vidas.

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É sabido que os caras do Sepultura são grandes figuras. O Paulo mesmo é um dos caras mais divertidos do Metal nacional. Como tem sido o relacionamento das duas bandas na estrada, nos momentos em que não estão se apresentando?

Kiko Loureiro: É... realmente o Paulo é muito engraçado! Várias cenas hilárias! Tem que estar junto, não é verdade? Às vezes nem é piada, é o jeito dele. Só estando por perto ali pra conviver. É divertido. Aumentou, acaba sendo uma família gigante, contando com duas bandas, somando aí ambas as equipes de produção, são ao todo quase 20 pessoas. Então realmente acaba sendo bem divertido.

Rafael Bittencourt: Muito bom. Agente se respeita e se admira muito e isto é um passo grande para criar amizades. Cada um é de um jeito e a experiência dá também a noção de que temos que respeitar o humor e a individualidade de todos. Nos divertimos fazendo nosso trabalho, sem invadir o espaço ou desrespeitar ninguém.

Edu Falaschi: O Paulo é uma figuraça mesmo (risos). Tem sido sim muito engraçado a convivência com eles, nos divertimos demais! Além, é claro, de trocarmos experiências e cada um conhecer mais a fundo a história de cada um. Pra mim tem sido uma imensa honra tocar com os caras e uma grande escola. Apesar de praticamente 10 anos de Angra, é sempre bom aprender mais e mais.

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“Aurora Consurgens” foi um álbum que recebeu diversas críticas quando do seu lançamento. Acredito até que foi mais pelo fato dele ter saído após a obra prima “Temple Of Shadows”, do que propriamente por falta de qualidade musical encontrada nele. Passados alguns anos de sua concepção, como vocês enxergam e avaliam esse material? Como foi o clima existente em estúdio naquele período?

Edu Falaschi: O disco em si eu acho bem bacana, não é o meu preferido, mas eu sei que é muito bom. O clima na época não era dos melhores, talvez se tivesse tudo bem, pudéssemos compor um disco diferente, não digo melhor, mas diferente. Tudo é muito relativo.

Rafael Bittencourt: Foi bem como eu disse na primeira parte dessa entrevista, acho que ele nasceu prematuro. Precisava de mais tempo para ser concebido, ensaiado e produzido. Eu gosto muito dele. Hoje sei que se tivéssemos mudado alguns detalhes, seria outro álbum. Mas, a produção criativa é sujeita a altos e baixos. É natural. Estou com muita vontade de que o próximo trabalho seja o melhor de todos.

Kiko Loureiro: Ah, o disco tem músicas boas, eu o comparo um pouco com o “Fireworks”. As músicas em si, elas são boas, são muito parecidas com as outras músicas de qualidade que possuímos ao longo da carreira, só que alguns membros da banda, principalmente o Aquiles, que acabou saindo, não estavam nem um pouco a fim de gravar o disco. Aquiles não deu contribuição nenhuma, e aí enfraquece a banda. Os outros também não estavam dando contribuição pro disco, pra lapidar, finalizar, para que as músicas pudessem ter funcionalidade, sonoridade mais rica, etc. E toda música, seja “Temple Of Hate”, seja “Carry On”, seja qual for, ela tem períodos diferentes, não é mesmo? Algumas nascem bem compostas logo de cara, outras vão melhorando, muda-se um acorde, muda-se uma parte, melhora aqui, melhora ali, e assim nasce um disco bem feito. O “Temple Of Shadows” foi demorado porque a gente gravou, depois o Edu teve um período bastante doente, e foi gravar bem depois, então ele demorou uns seis, sete meses só para produção. E todo mundo falava: “tem que sair esse disco”! E já tinham mais seis meses de composição, então tava todo mundo focado no negócio. E não aconteceu isso no “Aurora Consurgens”, foi realmente isso. Mas as músicas em si possuem qualidades, eu acho elas super boas, faltou mesmo esse final de mais ensaio da banda, pra melhorar aqui e ali.

Ao final de todas as apresentações vocês e o Sepultura se encontram numa jam histórica, tocando temas do Korzus, Black Sabbath e Led Zeppelin. O que esse encontro representa pra vocês e como se deu a seleção das músicas?

Rafael Bittencourt: A idéia é uma bagunça conjunta, sem muitos conceitos envolvidos. A idéia é reunir as duas maiores bandas brasileiras de Metal, compartilhando um momento e se divertindo. As homenagens aos grandes ícones do Rock e do Metal vêm para brindar este momento especial.

Kiko Loureiro: A música “Guerreiros do Metal”, do Korzus, escolhemos porque todo mundo cresceu ouvindo, todo mundo é fã desde a adolescênci, e é uma banda que está até hoje viva. E a gente queria também, de alguma forma, homenagear o Korzus. Desta forma, em São Paulo pudemos contar inclusive com a presença do Marcelo Pompeu (vocalista), foi de fato bem legal. Também queríamos tocar alguns outros covers, e optamos por canções do Led Zeppelin e Black Sabbath. Mas tiveram shows que tocamos AC/DC, Iron Maiden, e outras músicas diferentes do que estamos habituados.

Edu Falaschi: Essa parte do show é bem descontraída, é a hora de chutar o balde, de comemorar. Quanto a escolha das músicas, eu não estive presente, poranto não participei da seleção, mas são ótimas! Led Zeppelin e Black Sabbath sempre caiem como uma luva.

Muito se especulou acerca da saída de Aquiles Priester da banda. Para também darmos um ponto final sobre esse tema, quais foram os motivos que levaram à demissão do músico? Ainda existe algum clima ruim entre as partes envolvidas ou vocês mantêm algum tipo de contato pessoal?

Kiko Loureiro: Não, não tenho contato pessoal, mas não foi demissão, não é mesmo? Ele já não estava tocando pra banda fazia muito tempo, mesmo antes, ele já não estava no grupo, não estava se dedicando, não estava afim. Eu digo e afirmo isso porque até pra gravar o “Aurora Consurgens” ele já não tava afim. Fez porque pra ele ainda seria útil estar ainda no Angra. Ele passou pelo estúdio, registrou a bateria e nunca mais apareceu por lá. Não participava da banda como a gente imagina que deve ser um músico dentro de um grupo. Mas aí passou um tempo, a gente também tava com o problema do empresário e deixamos muita coisa passar, mas também, na hora de voltar com força total, a banda (eu, o Edu, o Rafael e o Felipe) decidiu que tinha que ter outro baterista. Porque a gente já tinha muita dificuldade por causa do empresário, do nome, etc., e aí não seria bom ter mais um remando contra a maré. Então foi mais por isso.

Edu Falaschi: Prefiro não comentar nada sobre esse assunto.

Rafael Bittencourt: Não existe mais contato entre nós porque antes ainda dele sair, e apenas reiterando o que o Kiko falou, não foi por demissão, ele já estava tremendamente afastado e se dedicando inteiramente à sua banda.

Aquiles Priester declarou algumas vezes que não davam espaço para as suas composições no Angra. Esse foi um dos motivos de sua saída?

Rafael Bittencourt: Os talentos dos músicos sempre foram valorizados na banda, inclusive os dele, este é o maior diferencial do grupo. Não haveria porque não utilizar as suas músicas. Mas não me lembro de nenhuma música que ele tivesse apresentado.

Edu Falaschi: Imagina, se isso fosse verdade não existiriam “Nova Era”, “Spread Your Fire”, “Angels And Demons”, “Bleeding Heart”, “Course Of Nature”, “Heroes Of Sand”, “Whishing Well”, etc. Todas elas são composições de minha autoria, algumas com parcerias outras não. Claro que existem muitos outros problemas no Angra, mas com relação a isso ninguém pode reclamar de nada.

Kiko Loureiro: É como o Edu falou, a nossa resposta caso ele fale realmente isso, está estampada em nossos discos, basta você olhar o nosso primeiro álbum, o “Rebirth”, a primeira música que abre é do Edu, “Spread Your Fire” também é do Edu e abre o “Temple Of Shadows” que os fãs tanto gostam. Em todos os discos tem músicas do Edu, no “Aurora Consurgens” tem música do Felipe, que começou a compor mais pra frente, porque até então ele não compunha. Se nunca teve músicas do Aquiles nos discos é porque ele não compôs e ele não compõe. Então porque a gente daria espaço pro Felipe, pro Edu e não daria pro Aquiles? Então eu não preciso nem responder. É só olhar os créditos das músicas nos discos e ver que todos têm seu espaço.

Muito se especulou sobre o Angra ter em seus planos a gravação e lançamento de um DVD/CD acústico, nos moldes da série levada a cabo pela MTV. O que há de concreto nessa afirmativa?

Kiko Loureiro: Essas idéias no mercado todo mundo faz, todo mundo fala. Então, gravar um DVD de um show, gravar um acústico, dentre outros, são idéias que passam pela cabeça da banda, dos fãs, de todo mundo. Qualquer pessoa que você perguntar fala: “ah, vocês tem acústico?”. Até o carinha do restaurante, do barzinho, vai perguntar isso. São idéias óbvias. E o Angra acho que soa muito bem em versão acústica. E a gente não fez porque estava fazendo outras coisas, porque acho que não era hora, porque também a gente queria fazer alguma coisa bem legal, tendo também que lançar discos com músicas novas. Mas são idéias que estão aí pra gente fazer, a gente pode vir a fazer num futuro próximo sim.

Rafael Bittencourt: Nós mesmos estávamos com a idéia de fazer algo neste sentido, mas toda a parada nos forçou a reverter um pouco os planos. Agora, este plano está na gaveta aguardando ser reativado mesmo.

Outro projeto que seria interessante vê-los envolvidos: a gravação de um material áudio visual com uma orquestra completa em cena. Já pensaram a respeito? Quais as chances de acontecer no futuro?

Kiko Loureiro: Essa é a mesma coisa do que respondemos com relação ao DVD/CD acústico. Pensar a gente já pensou em tudo, mas pra fazer acontecer já tentamos buscar formas viáveis, mas é complicado. Não achamos as pessoas certas pra fazer ainda, que viabilizassem esse projeto de forma adequada.

Edu Falaschi: Quem sabe um dia seria bacana ver canções como “Nova Era”, “Carry On”, “The Shadow Hunter” e “Heroes Of Sand” no formato orquestra e banda.

Rafael Bittencourt: É como os caras falaram, temos muita vontade de por projetos como esse em prática. Aliás, planos e idéias não faltam agora que estamos de volta à ativa.

Mas de forma concreta, o que falta para essas idéias saírem de uma vez do papel?

Kiko Loureiro: Cara, todas as idéias passam pela cabeça. Uma orquestra completa tem uns 60 a 80 músicos. Você pode fazer também com um quarteto, fazer uma coisa menor. Em um show grande, os fãs imaginam coisas mirabolantes, porque vêem no show da Ivete Sangalo, e ficam achando que o Angra, que é a banda que eles gostam, pode fazer igual. Agora, na hora de comprar o CD ninguém compra. Então, existe uma defasagem aí, que pra você pagar 80 músicos e técnicos, o dinheiro tem que sair de algum lugar.

Kiko Loureiro: No caso da Ivete Sangalo, assim como outras bandas Pop, por terem maior público que uma banda de Heavy Metal, conseguem patrocínio de alguma marca grande, que faz via lei Rouanet. Então o Heavy Metal, além de outros estilos de música, infelizmente, não tem esse acesso. Às vezes esses outros estilos são ´´derrotados´´ por estilos de músicas mais populares. Porque hoje, quem manda na cultura do Brasil são as grandes empresas, que são as que dão verba para não pagarem impostos feitos por essa lei Rouanet. Porque, quem é o maluco que vai dar 300 ou 400 mil reais pra uma determinada banda gravar um DVD acústico sabendo que não vai vender nenhum DVD? Se alguém quiser dar o dinheiro pra gente gravar, a gente grava, mas ninguém vai fazer isso. As únicas que podem fazer são as grandes empresas, não que elas sejam boazinhas, mas é que elas não vão pagar impostos. Então quem está pagando, no fundo, é o próprio governo. E de onde vem o dinheiro do governo? No frigir dos ovos quem está custeando mesmo são todos os brasileiros que pagam os impostos, que são aqueles que estão pagando pra Ivete Sangalo e pra tantos outros DVDs aí de multishow. É aquele negócio, eu não gosto de ficar falando muito disso, mas essa é a realidade.

Kiko Loureiro: A gente pode imaginar mil coisas, um super show na praia de Copacabana com 2 milhões de pessoas... eu posso imaginar isso com o Angra. Se a prefeitura do Rio quisesse contratar a gente e não o Rolling Stones, não é mesmo? Ou faz com uma banda popular porque sabe que realmente vai ter público ou uma banda que cante em português, estilo brasileiro, pra ter maior segurança em termos de vendas. Mas o Angra não compõe em português e não está no gosto popular e da grande mídia, por fazer Heavy Metal. Então, tem uma série de coisas... por que o governo brasileiro ou uma empresa não daria dinheiro ? Porque não são populares. No entanto ninguém reclama, deixa rolar.

Kiko Loureiro: A lei Rouanet é um erro. Ela está na mão de alguns caras da área marketing de grandes empresas, que definem qual é a cultura brasileira, ditando o que é pra ser consumido. Porque na realidade a lei foi criada pra ajudar quem não tem possibilidade em termos monetários de mostrar o seu valor, o seu trabalho. Então, de repente tem aquele grupo de capoeira, que não tem verba pra fazer um espetáculo bonito, aí com a lei Rouanet eles conseguem esse dinheiro, uma empresa ajuda. Mas por que uma empresa vai ajudar um grupo de capoeira que vai ter 100 pessoas pra assistir? Essa verba vai direto pra produção do DVD de Ivete Sangalo, que terá 1 milhão de pessoas pra vê-la.

Kiko Loureiro: Elas (as empresas) querem marketing. Quer dizer, elas vão deixar de pagar imposto e ainda vão ganhar um puta marketing. Por que elas vão ajudar uma banda de Heavy Metal, que tem um público mais seleto? Compreende o que eu quero dizer? A dificuldade é muito grande. O fã não vê, porque o fã também não compra o CD. Então não vem mais dinheiro nem dos CDs para nós músicos que vivemos de nossa arte. A realidade é, pra você ter uma orquestra é muito caro. Se muitas vezes o fã não tem nem dinheiro pra comprar ingresso pra ver um show que tem 5 caras no palco, imagina pra pagar um show que tem 80 músicos. Porque poder contar com 80 caras significa ter uma equipe gigantesca por trás das câmeras. Não são só os 80, tem mais umas 20 pessoas atrás pra ligar, montar, carregar, etc. Quer dizer, tem que ter subsídio de coisa privada ou do governo. O governo prefere fazer algo tipo “O ano do Brasil” e “O ano da França”, uma coisa mais diplomática, ou vai jogar para as grandes empresas escolherem quem elas acham que é a cultura do Brasil! E essas grandes empresas têm escolhido essa gente popular aí que não reflete 100% do que é cultura no Brasil. E isso já acontece há muitos anos. Então, essa é a resposta para todas essas perguntas sobre acústico, disco de quinhentos mil convidados com orquestra, etc. E ainda tem as gravadoras... as grandes já faliram, imagine as pequenas. Imagina então as de Heavy Metal. A nossa realidade é mesmo triste!

Uma enorme parcela de fãs ama os materiais raros e não oficiais (bootlegs) que o Angra possui no decorrer de sua trajetória. Existe alguma possibilidade de vocês abrirem a caixa de pandora e, finalmente, vermos lançado um CD repleto de raridades?

Kiko Loureiro: Ah... não sei se a gente tem tantas raridades assim. Tem algumas coisas mal gravadas. Temos vídeos mais caseiros, etc.

Rafael Bittencourt: Quem sabe? Tudo em seu tempo.

Edu Falaschi: Essa idéia é legal, mas precisamos garimpar pra ver se existe algo realmente que valha a pena ser lançado. Existe uma idéia bacana de criarmos um “Angra Convention”, onde diversos fãs juntamente com a banda trocassem materiais, houvessem shows, exposições de materiais raros e inéditos, dentre outras surpresas.

Rafael Bittencourt sempre foi um dos compositores mais ativos nos álbuns do grupo. Todavia, em “Aurora Consurgens”, Felipe, Edu e Kiko assinaram mais créditos nas músicas do que outrora era constatado. Podemos esperar esse mesmo perfil nas composições para o próximo álbum da banda?

Rafael Bittencourt: Cada álbum é um caso diferente, e nossos álbuns têm sonoridades bem variadas. Espero que o nosso próximo CD seja o mais lembrado de todos.

Edu Falaschi: Na verdade acho que foi mantida a média de duas ou três músicas minhas e as demais divididas entre o Kiko e o Rafael. Eu tive duas músicas assinadas em “Aurora Consurgens”, assim como foi em quase todos os outros. A ótima novidade veio com uma música do Felipe.

Kiko Loureiro: Ah, é o que eu falei, todo mundo compõe. No “Temple Of Shadows” era bem dividido, acho que no “Rebirth” também... o Felipe sim, assim como o Edu bem lembrou, foi a grande novidade, já que ele não tinha nenhuma música antes assinada conosco e, dessa vez, trouxe uma música inteira, pronta. Legal mesmo isso! Abraçamos a música e ficamos todos muito animados e felizes de ver o Felipe trazendo uma composição inteira. Ele tinha algumas idéias soltas, mas trazer uma música inteira pronta foi bastante animador para todos. Acredito que agora ele está com a manha e deve trazer mais músicas. Que seja cada vez mais igual, porque a questão é que a banda está aberta pra todo mundo trazer música. Tem períodos em que um está mais profícuo e outro menos, depende de cada um.

O álbum “Mentalize” de Andre Matos em que ele regravou “Don’t Despair” do Angra vazou recentemente e a gravadora veio a público pedir que os fãs não fizessem o download. O Angra já pensou no formato para o lançamento do próximo CD? Existe a possibilidade de disponibilizar gratuitamente no site?

Rafael Bittencourt: Sim. Hoje já estamos pensando em uma situação em que não dependamos tanto do CD. Queremos que o máximo de pessoas ouçam e é quase impossível impedir que a curiosidade dos fãs os impila a baixar as músicas antes de comprarem. Não que eu concorde, mas temos que nos adaptar à nova realidade.

Edu Falaschi: Isso é uma incógnita. Mas eu na verdade acho um absurdo dar as músicas de graça! A banda gasta vários milhares de dólares na produção de um álbum bem feito, cheio de cuidados e zelo, daí as pessoas vão e baixam as músicas gratuitamente. É a mesma coisa de eu passar num supermercado e levar pra casa um monte de mercadorias sem pagar nada por elas. As pessoas querem ter prazer em ouvir música, seja pra relaxar, pra agitar, pra se apaixonar, por amar tal artista, nada mais natural que paguem por isso. Afinal de contas, o artista e profissional da música têm muitos gastos para por no mercado sua obra. Imagina só se começarem a querer ver os shows de graça também?

Kiko Loureiro: Ah, não sei. É um pouco do que eu falei anteriormente. Só que com certeza, se a gente colocar um CD de graça no site, e isso atualmente é o que acontece com várias bandas, com certeza não vai ser nem com uma orquestra, nem acústico e nem nada. Como um cara que quer baixar algo de graça vai ter um produto que custa caro? Não tem nem como, não é mesmo? Então a gente acha um meio termo disso aí. Não digo que vai ser uma coisa ruim, mas digo que vai ser uma coisa trivial como tem acontecido nos últimos CDs que estão circulando no mercado em geral. É isso.

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Acho que até o brasileiro tem que aprender a valorizar mais o trabalho dos músicos.

Edu Falaschi: As pessoas deveriam se conscientizar sobre o quanto um músico investe num CD, na produção de um show, dentre outros. São milhares de profissionais envolvidos até o álbum realmente existir. Hoje em dia parece que ser fã e comprar um CD é fazer caridade pra banda. Me parece que as pessoas acham que os artistas tem a obrigação de dar sua música de graça, apenas para vê-la sendo divulgada. O que existe mesmo nos dias de hoje é uma grande inversão de valores.

Kiko Loureiro: Na verdade eu acho que o caminho tende a ser esse mesmo, o de disponibilizar na intenet de graça, mas o cara não pode vir e falar “Pô, por que vocês não gravam com uma orquestra de 80 músicos?”. Como falei anteriormente quando citei a lei Rouanet, quem dita isso aí são os marketeiros que querem visibilidade. Então, é mais fácil darem dinheiro pro Calcinha Preta, que vai ter 100000 pessoas no público do que pra um grupo que pratica Heavy Metal no Brasil. A sensação é de estarmos presos dentro de uma bola de neve descendo um despenhadeiro, ficando cada dia pior o panorama para todos. Eu também não estou fazendo discurso pro cara comprar o CD, nem nada do tipo. Compra quem quer! Só que o cara não pode exigir um negócio milionário. O fã quer sempre um produto melhor vindo do seu artista. Daí é fácil nos depararmos com perguntas do tipo: “Kiko, por que vocês não lançam um DVD filmado nas pirâmides do Egito (risos)?” Daí vem outro e diz: “Mas o Pink Floyd fez Kiko”. Mas cara, pro Pink Floyd qualquer empresa do mundo vai querer botar uma grana num projeto deles. Agora quem está no topo mesmo? U2, Ivete Sangalo e afins, e por conseguinte, chega uma empresa como a Chevrolle ou a Philips e paga o preço dos caras. Quem não tiver isso aí, esse apelo popular de massa, não vai ter essa grana das empresas . Também não vai ter o disco porque as gravadoras estão falidas. Então, alguém que esteja lendo, nos mande uma solução, que ninguém achou até agora no mundo inteiro.

Kiko Loureiro: A SPV, que é uma das maiores gravadoras da Europa e que contava em seu cast com nomes do valor artístico de Motörhead, Whitesnake, dentre outros, está falindo, abriu concordata. Isso aí já faz meses. Então, está tipo ‘’no olho da rua’’ os artistas que citei acima, mais o Helloween e outros grandes ícones da música pesada mundial. “Olho na rua” em termos, pois ficaram sem chão, sem gravadora que os financie. Isso em breve vai acontecer com todo mundo, por conta dessa atual conjuntura do mercado musical atual.

Obrigado pelo tempo cedido para essa entrevista. Toda a equipe do site deseja a todos um futuro promissor nessa nova etapa da carreira. Se algo não foi mencionado, é chegado o momento para as considerações finais...

Kiko Loureiro: A gente está super feliz com a turnê, e por todas as cidades que a gente ainda não passou, espero que a gente vá passar, lógico. A gente espera poder visitar todos os fãs. Vamos dar tempo ao tempo. Se não for agora, a gente grava outro disco e volta com mais força para encontrarmos todos os fãs das cidades que a gente já passou e as que a gente ainda não passou. Um grande abraço a todos. É isso aí.

Rafael Bittencourt: Obrigado pelo espaço. Valeu!

Edu Falaschi: Agradeço aos queridos fãs que me apóiam nesses quase 20 anos de carreira.

Colaboraram com a entrevista:
Mônica Fontes, tradutora da MS Metal Press
Ellen Garabini

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Sobre Eduardo Macedo

Teve a felicidade de descobrir o Metal com um álbum de um grupo nacional, Theatre Of Fate dos paulistanos do Viper. Atuante no cenário nacional, Eduardo Macedo administra a empresa de assessoria de imprensa MS Metal Press, juntamente com seu trabalho de redator para o site Portal Novo Metal e para a revista Lucifer Rising, esta última voltada ao que existe de melhor no Metal extremo mundial. Amante de todas as vertentes do Metal, Eduardo tem como foco o cenário brasileiro, onde já contribuiu como vocalista das bandas Tharsis e Veuliah, além de ser um colecionador incondicional de todo material lançado por bandas tupiniquins.

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