Por que não havia cultura de "feat" no rock nacional anos 1980, segundo Paulo Ricardo
Por Gustavo Maiato
Postado em 29 de março de 2025
Hoje, nas plataformas digitais como o Spotify, é comum ver a expressão feat. ao lado dos títulos das músicas. A abreviação de featuring indica a presença de um artista convidado em determinada faixa — um costume que se tornou prática recorrente no mercado musical contemporâneo, especialmente com a lógica dos singles.
Mas nem sempre foi assim. Em entrevista à Rádio Rock Goiânia, o cantor e compositor Paulo Ricardo, ex-RPM, explicou por que essa cultura de colaborações entre artistas, tão popular hoje, praticamente não existia no cenário do rock brasileiro dos anos 1980.

"A nossa geração não tem muita tradição de feats. Talvez pelo fato de termos começado já em grupos, em bandas. Éramos coletivos. E esses coletivos não se interagiam muito", afirmou o ex-vocalista do RPM. Ele lembra que, fora a histórica turnê conjunta de Titãs e Paralamas, são raras as colaborações marcantes entre bandas da época.
Segundo ele, a lógica era diferente. O foco era consolidar o som de cada grupo, com identidade própria. "A gente via muito isso na MPB: Caetano e Chico, Gil e Jorge, Gil e Milton, Bethânia e Chico… projetos interessantíssimos que rendiam coisas ricas. Mas no nosso meio, não era comum."
Paulo Ricardo e a cultura dos singles
Em meio à divulgação de um novo projeto solo, Paulo Ricardo comentou a diferença do modelo atual, baseado em lançamentos contínuos de singles — algo facilitado pelas plataformas digitais.
"Se por um lado o digital nos permite lançar uma faixa de forma imediata, sem passar meses trancado no estúdio pra lançar um álbum, por outro, isso fragmenta um pouco as coisas", refletiu.
O artista, que recentemente lançou a música "Verso", conta que chegou a pensar em ter uma participação na faixa. "Hoje se chama feat., antes era simplesmente ‘participação’. Mas é uma coisa boa dessas novidades que enriquece e constrói pontes."
Memórias do Chacrinha
Paulo também relembrou o convívio entre os artistas daquela geração, que se cruzavam nos bastidores da televisão: "Nos anos 1980, a gente se encontrava quase todo sábado no Teatro Fênix, nas gravações do Chacrinha. Aquilo era um grande clube do pop rock que nascia. E também uma chance de encontrar Simone, Alcione, Wando, Magal. Era uma loucura."
Para ele, o espírito do rock ainda está vivo na busca por novidade e liberdade criativa. "O rock é generoso, abrangente, inclusivo. Ele pressupõe mistura. Paul Simon com Milton Nascimento, David Byrne com Caetano... sempre fomos movidos por esse desejo de desbravar novas sonoridades."
Confira a entrevista completa abaixo.
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