A alteração que Marina propôs em hit de Cazuza que o deixou "profundamente irritado"
Por Gustavo Maiato
Postado em 18 de agosto de 2025
Lançada em 1987 e transformada em um dos grandes clássicos da música brasileira dos anos 1980, "Eu Preciso Dizer Que Te Amo" tem uma história de bastidores marcada por uma divergência criativa entre Cazuza e Marina Lima. A composição nasceu de forma espontânea, em clima de amizade e colaboração, mas a parceria que deveria se estender à gravação conjunta acabou naufragando por causa de pequenas — e persistentes — alterações feitas por Marina durante os ensaios.
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A canção foi escrita a seis mãos por Cazuza, Dé Palmeira e Bebel Gilberto, que na época eram muito próximos e, no caso de Dé e Bebel, namorados. O cenário da criação foi a casa da família de Cazuza, em Fazenda Inglesa, Petrópolis (RJ). "Era como se o Cazuza estivesse sentado aqui e, por acaso, o violão estivesse ali. A gente começou a cantar, e o canto virou música… saiu como um filho em 40 minutos", relembrou Bebel no livro "Eu Preciso Dizer Que Te Amo – Todas as Letras do Poeta", de Lucinha Araújo, com depoimentos a Regina Echeverria. A transcrição é do Pitadas do Sal.
O primeiro esboço trazia um verso mais forte, inspirado pelas leituras bíblicas de Cazuza na época: "desentalar esse osso da minha garganta". Bebel achou a frase muito pesada para o tom romântico da canção e sugeriu que ele pensasse em outra solução. Dé conta que Cazuza reagiu com naturalidade, subiu para o quarto e, em cinco minutos, desceu com o novo refrão pronto: "eu preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano, eu preciso dizer que te amo tanto".
Cazuza, Bebel Gilberto e Marina
O primeiro registro foi feito logo após a conclusão da música, em uma fita cassete com Dé no violão, Bebel cantando e Cazuza nos contracantos. Essa versão caseira circulou entre amigos e chegou aos ouvidos de Marina Lima, que imediatamente se interessou em incluí-la no álbum "Virgem" (1987). A ideia inicial era que Marina e Cazuza gravassem juntos, mas, nos ensaios, um detalhe começou a incomodar o poeta.
Segundo o livro "Vozes do Brasil – Cazuza", de Carlos Rennó, Eduardo Duó e J.C. Bruno, tudo corria bem até o verso "me dá um medo". Foi então que Marina, "inconscientemente", como ela mesma contou, acrescentava um "que medo". Para Cazuza, essa mudança soava desnecessária e atrapalhava a fluidez da letra. O cantor chegou a ficar "profundamente irritado" com a insistência dela, segundo os autores.
Mas não foi só isso. Após o verso "ser teu amigo", Marina também incluía um "que amigo". Para Cazuza, já era demais. Os dois tiveram discussões acaloradas — descritas como "paus homéricos" — mas não chegaram a um consenso. Marina disse que não conseguia deixar de fazer essas inserções, enquanto Cazuza se recusava a aceitá-las. Sem acordo, desistiram da gravação conjunta.
Marina seguiu em frente e gravou sua própria versão, omitindo ainda a última estrofe original ("eu já nem sei se eu tô misturando… fechando e abrindo a geladeira a noite inteira"), por considerar que ela não acrescentava nada à canção. Mesmo assim, a faixa se tornou um dos destaques de Virgem, álbum de grande sucesso comercial, e ajudou a popularizar a obra.
Em 1988, a música na versão de Marina venceu o Prêmio Sharp na categoria "melhor música pop-rock" — prêmio entregue a Cazuza, Dé e Bebel Gilberto. Ainda assim, Cazuza nunca deixou de considerar que sua versão original era melhor.
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