Sete anos se passaram desde que o Symphony X veio ao Brasil pela primeira vez. Naquela ocasião, na época do lançamento do álbum “V – The New Mythology Suite”, eles ainda não gozavam de um prestígio tão grande e estavam em franca ascensão. O álbum citado, longe de ser ruim, fica, no entanto, aquém do responsável por os colocarem na linha de frente do prog mundial – “Divine Wings Of Tragedy” – e longe do primor dos dois últimos. Sem contar que Mike LePond, no baixo, e Jason Rullo, na bateria, haviam acabado de entrar no grupo. Portanto, a oportunidade, em 2000, não se fazia assim tão interessante.
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O principal problema de “V” eram suas orquestrações em demasia, gerando uma pompa desproporcional, perdendo-se ao longo da experiência. Ênfase essa que complicava a execução ao vivo e a tornava sem dúvida mais plástica e sonolenta. O recém saído “Paradise Lost”, ao contrário, deixa ainda mais explícito algo que o próprio Michael Romeo afirmou: o Symphony X é uma banda de metal. Progressivo, sim, mas essencialmente metal.
E, dado o peso cada vez mais evidente que o grupo tem empregado, esse sem dúvida foi o show da afirmação. Não só para fortalecer sua base de fãs como para conquistar de vez os curiosos que se arriscaram a vê-los. Ao passo que, quando Romeo, Allen, Pinella, Le Pond e Rullo entraram num Lapa Multishow com um público até satisfatório, não demorou para que a ansiedade desse lugar à reverência. “Of Sins And Shadows”, perfeita para abrir a apresentação, exemplifica outra característica peculiar do grupo: todas as faixas de abertura de seus CDS são destaques inquestionáveis, trazendo forte impacto ao ouvinte e peso acima do comum. Tanto é que todas as músicas iniciais de seus cinco últimos álbuns tornaram-se clássicas e, claro, foram executadas no show.
“Domination” confirmou a importância da internet em tempos atuais: todo o público cantando junto, sendo que o CD mal foi lançado. Uma das melhores da nova safra, impressiona o trabalho de Romeo, alternando riffs bem baixos na escola death/thrash com uma virtuose perspicaz e equilibrada, culminando no melhor nível da quebradeira prog que temos lá pela sua metade. Ideal também para verificarmos o quanto os sete anos de convivência desta formação azeitou a sua performance. As paradinhas e retomadas, indo do puro progressivo ao mais seco metal em segundos, mais preponderante na sonoridade da banda, foram executadas com impressionante precisão em todo o show.
Romeo, embora basicamente parado no canto esquerdo do palco, poucas vezes permitindo-se uma interação maior com o restante do grupo, dita o ritmo com competência e segurança, encontrando o complemento perfeito no extremo oposto do stage em Le Pond, pequeno em estatura e um monstro na técnica. Pinella e Rullo fecham a retaguarda com equilíbrio. Enquanto o primeiro contribui em momentos cruciais para tornar o som do Symphony X o mais orgânico e fluído possível, em intervenções exatas, longe de ser aquele típico tecladista megalomaníaco e exagerado, Rullo emprega um punch notável, funcionando como uma engrenagem que dosa e traz de volta ao eixo a virtuose de Romeo.
“Inferno (Unleash The Fire)” possui umas das introduções mais memoráveis em anos, coisa que poucos conseguem conceber. E a sensação de vê-la, ao vivo, é a mesma da que se tivéssemos acabado de colocar “The Odyssey” pra rodar – só que melhor. Russel Allen, por sua vez, confirma não só que é, de fato, um dos melhores vocalistas em atividade, como um frontman de intensa presença, agindo como maestro do público: não há modo de ficar inerte ante os constantes coros e gritos que puxa, fazendo com que todos participem, além de agir até nos momentos onde o show é todo dos instrumentistas atrás dele: mexendo os braços, dando socos no ar, chamando atenção para seus companheiros nas horas de destaque, e guiando a platéia em cada interação que a música sugere. Frente a uma banda desse porte, um vocalista tem mesmo que saber como se portar, e Allen cumpre essa função indo além do que se espera.
“Evolution (The Grand Design)”, a melhor de “V”, já deixava certo que estávamos diante de uma banda única, que emendava suas composições praticamente sem intervalo. Recurso sempre interessante quando se sabe fazê-lo e têm-se as composições certas para suprir. “Communion And The Oracle” foi a mais tipicamente prog do show – excluindo a suíte final, óbvio – deixando que os presentes, agora sim, pudessem descansar. Esta é uma faixa que dá mais espaço para a atuação de Pinella e é representante, da forma como encaro, da primeira fase do Symphony X.
Dentro das várias épocas em que uma banda com anos de estrada pode passar – os exemplos são inúmeros e nítidos - é natural que sua sonoridade, atitudes e buscas enfrentem mudanças e transformações, por todos os fatores possíveis. Isso acontece em maior ou menor grau, em períodos de tempo variáveis (pode ser num prazo de dois anos ou durar uma década) e pode sofrer infindas reviravoltas e influências. A partir de 2002, o Symphony X entrou definitivamente numa nova fase. Tanto que o atual lançamento teve 5 anos de gestação.
Isso fica flagrante na suculenta “Set The World On Fire” e seu refrão marcante, que veio após a boa “Smoke And Mirrors” mas fundamentalmente em “Serpent’s Kiss”: uma das coisas mais embasbacantes que já vi uma banda de metal fazer ao vivo. Muito, mas muito pesada, recheada de retomadas e quebradeiras de um grupo absolutamente possesso, sendo desumano o que Allen e Romeo fazem nela. Sem tempo para se recuperar, veio um breve e interessante “duelo” entre o guitarrista e Le Pond, servindo de base para que o último entregasse o início de “Sea Of Lies”, clássico absoluto que encerrou a primeira parte do concerto.
Aqui é necessário protestar a ausência de “King Of Terrors”, tocada em outras cidades e que Belo Horizonte não presenciou. Num set já enxuto, não entendo o porquê dela ter sido limada. Após o intervalo tivemos algo de coragem e que poucos imaginavam ver: a suíte “The Odyssey”, de 24 minutos. Composições do gênero são típicas no progressivo, que possui um público capaz de recebê-las, diga-se, mas poucos se arriscam a incluí-las no set list. Em especial bandas mais novas e de forte ligação com o metal. Simplesmente inesquecível, não caindo jamais na caceteação, é a síntese perfeita de tudo que compõe o grupo, dando espaço para cada destaque individual assim como reforça o que eles, juntos, são capazes de fazer.
Ao curvar-se perante o público no tradicional gesto de agradecimento, a sensação era de que os fãs gostariam de fazer o mesmo. A lamentar somente a duração mediana, de uma hora e meia. Investigando a história do Symphony X, vê-se que poucos nomes têm músicas tão consistentes para compor um repertório desse grau de respeito. Fora as tocadas aqui, imagine se acrescentassem “Through The Looking Glass”, “The Accolade”, “Damnation Game”, “Edge Of Forever”, “Incantations Of The Apprentice”, “Seven”, “Fallen”, “The Divine Wings Of Tragedy” e “Church Of The Machine”. Aí teríamos uma experiência progressiva formidável de 3 (ótimas) horas.
Paciência, porém. Resta esperar que Allen cumpra a promessa feita de voltar ao Brasil não em sete mas em um ano, e aí, quem sabe, tendo mais tempo para ensaiar outras faixas de “Paradise Lost” – um possível motivo para a ausência de algumas – apresentarem um show maior.
Por hora, dada a solidez e o talento demonstrado e aperfeiçoado nos últimos anos, tenho a certeza de que muita gente estará salivando até lá.
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Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.
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