Resenha - St. Anger - Metallica

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Resenha - St. Anger - Metallica

Por Eduardo Lauer Gonçalves

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O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Suicídio Comercial

Não é todo dia em que podemos comentar um lançamento de uma das maiores bandas de heavy metal de todos os tempos, o Metallica. Afinal a banda lançou seu último trabalho de músicas inéditas em 1997, com o album “Reload”, que terminava um ciclo de muitas críticas para a banda e muita discussão em torno do visual adotado a partir de então. Após muitas experiências como um álbum somente de covers, um ao vivo com a orquestra sinfônica de São Francisco, processos judiciais e a perda do baixista Jason Newsted, a banda finalmente mostra material novo com o discutido “St. Anger”. A banda prometia uma volta ao seu antigo estilo, com músicas mais rápidas e intrincadas do que o Hard Rock mostrado na fase “Load”. Isso infelizmente não aconteceu, como era de se esperar, mas o Metallica conseguiu ao menos superar as expectativas quanto ao futuro incerto da banda, que muitos acreditavam estar fadada ao rock mainstream.

St. Anger é um álbum de difícil absorção, principalmente devido à péssima escolha da banda em conjunto com o produtor (e também baixista no álbum) Bob Rock, em gravar o disco com equipamento de garagem, contando com microfones vagabundos e o som da bateria saído diretamente de um latão de lixo. Aliado a isso, o Metallica resolveu eliminar os solos de guitarras das músicas, o que deixou os fãs extremamente preocupados com a posição do guitarrista Kirk Hammett, que outrora fora um dos guitarristas mais criativos do metal. Por essas e outras, “St. Anger” pode (mesmo) não agradar a muitos dos mais ardorosos fãs, principalmente se escutado uma ou duas vezes. Mas se você conseguir suportar a péssima produçao (o que não é pouca coisa) verá que há canções que lembram bastante o antigo som do Metallica, trazendo de volta elementos como a agressividade e o peso, tão ausentes nos ultimos trabalhos. Além disso, é um Cd longo (75:01), o que deve agradar aos fãs que aguardavam ansiosamente por material novo da banda e que traz uma série de (boas) novidades, como o preview de um game que contará com uma faixa inédita da banda, senha para acesso a um site oficial restrito contendo mp3`s de turnês da banda, além da melhor novidade: um DVD com todas as faixas sendo executadas ao vivo em estúdio.

No que diz respeito às músicas, o álbum mostra uma nova faceta da banda que conseguiu renovar seu próprio estilo, mostrando músicas criativas e realmente rápidas, juntamente com variações extremamente bruscas em todas faixas, e quer saber?? Valeu a pena. Se não foi uma volta às raízes, ao menos “St. Anger” é bem melhor que “Load” e “Reload”. Lars Ulrich, mostra que ainda tem muito a contribuir no metal, com levadas extremamente rápidas, o que deixa claro que o melhor instrumentista da banda continua muito bem, juntamente com a voz inconfundível (e desafinada propositalmente) de James Hetfield. O disco mostra toda a raiva do Metallica em uma experimentação nunca antes vista no metal que certamente influenciará as bandas seguintes!!

Faixa a Faixa:

1 – FRANTIC (05:50)

O disco começa com uma intro extremamente rápida, com as guitarras zunindo no ouvido do ouvinte (com o perdão da redundância..), mostrando que a banda não estava afim de um disco de baladas. Pesada como nunca, Frantic varia entre o rápido e o arrastado de uma maneira nem um pouco sutil, o que a deixa como uma das melhores do álbum. James Hetfield mostra que sua voz está mais rasgada do que nunca com direito a muita interpretação da letra e encaixando perfeitamente na proposta “frenética” da música. “Meu estilo de vida determina meu estilo de morte“ diz James em um dos melhores versos da faixa. Além disso, repare em seu desespero no Refrão. A banda fez uma ótima escolha para abrir o álbum.

2 – ST. ANGER (07:21)

A música que deu o nome ao novo trabalho mostra como a banda mudou em relação aos seus últimos trabalhos. Com um riff de trash marcado pelo cromatismo recortado do Metallica, ela varia entre o leve e o trash, sendo uma das mais agressivas do álbum. O único problema da faixa talvez seja o excesso de repetição, o que fez com que ela fosse uma das mais longas do álbum, um excesso de preciosismo talvez desnecessário.

3 – SOME KIND OF MONSTER (08:25)

Após um início destruidor, no melhor estilo Metallica, a banda incursa novamente em mudanças bruscas de riffs e levadas pesadas. O destaque vai novamente para Lars Ulrich, que usa e abusa das batidas trash, mostrando acima de tudo que o tom deste álbum foi ditado por ele. James urge novamente gritando “Some Kind of Monster, this monster lives...” no melhor refrão do disco. Realmente é uma pena que a banda tenha escolhido essa sonoridade para o álbum, estragando o som da bateria.

4 – DIRTY WINDOW (05:24)

Muita improvisação e agressividade resumem Dirty Window. Com um riff beirando o Hardcore, a música segue a linha do álbum, mostrando muita “pegada” e vocais rasgados no melhor estilo Hetfield. Em uma música feita para banguear, prepare-se para bastante peso em meio a toda a troca de estilos e andamentos da música. Faltou apenas o solo de guitarra para deixá-la ainda melhor.

5 – INVISIBLE KID (08:30)

Nesta faixa vemos o lado mais experimental de “St. Anger”. Uma faixa que poderia ser melhor aproveitada não fosse o excesso de repetição, o que a torna cansativa demais. Apesar de ter um ótimo riff de guitarra como a base da música, a banda acabou deixando um pouco o lado pesado de lado. Nesta música o som da bateria (não confundir com o desempenho de Lars) realmente deixa o ouvinte indignado com o som de garagem. Por essas e outras “Invisible Kid” pode ser considerada a mais fraca do álbum. De toda a forma vale a pena atentar para a interpretação de James Hetfield para a letra, principalmente na “mid-section” da música.

6 – MY WORLD (05:45)

Uma ótima volta ao peso, “My World” traz o ouvinte muita indignação e criatividade. Repare nos riffs de guitarra, uma volta ao antigo Metallica com aqueles riffs de “down picking”, característica do velho e bom Hetfield. Muita raiva é despejada nesta música, o que denota uma total despreocupação com as críticas que a banda vinha recebendo. “É o meu mundo, seu trouxa!” grita Hetfield, seguido de um riff onde é impossível não banguear, o que mostra que a banda ainda tem muito a mostrar!! Na “mid-section” da música vemos um Hetfield extremamente indignado, lembrando até o New Metal, mas com a pegada do Metallica e muita raiva!! A música então embraca num trash que lembra bastante “Battery” (dos bons tempos de “Master Of Puppets”) até seu abrupto final. Excelente!!

7 – SHOOT ME AGAIN (07:10)

Numa sutil referência lírica às críticas que Lars recebeu na época dos processos judiciais contra o Napster, “Shoot Me Again” é a melhor faixa de “St. Anger”, mostrando muita inovação numa atuação impecável da banda, onde a falta de solos nem pôde ser percebida. Com elementos de New Metal, o Metallica dá uma aula a uma geração de bandas que acham que gritaria e riffs “mid-tempo” são suficientes para ser ter peso de qualidade. Lars nessa música prova que criatividade e simplicidade são perfeitamente compatíveis. Apesar de versos relativamente calmos, a música segue num “crescendo” até culminar num dos melhores refrões do álbum. Sugestão: acompanhe com a letra em mãos, toda a interpretação de Hetfield nessa faixa. Com riffs muito bem encaixados, a música incursa num misto de raiva e ironia, onde James despeja todo seu veneno em versos como “Eu não irei embora, ficarei aqui mesmo com uma bala em minhas costas”, numa clara alusão as pessoas que apoiaram e criticaram o Metallica ao mesmo tempo. A conclusão da faixa, no melhor estilo Metallica, é apoteótica e cantada numa oitava acima, o que deixa o refrão ainda mais empolgante. “Atire em mim novamente, eu ainda não estou morto” diz Hetfield, respondendo a quem quiser ouvir, mostra que a banda está de volta e mais viva do que nunca!!! Sensacional!!

8 – SWEET AMBER (05:27)

A música começa coma uma introdução leve, levando o ouvinte acreditar que “Sweet Amber” seria a faixa lenta, ou a balada do disco. Ledo engano...O que se vê (ou melhor, ouve) a seguir é que trata-se da faixa mais acelerada de “St. Anger”, andamento claramente influenciado por Lars Ulrich. A banda mostra muito entrosamento em uma música de canto “chiclete”, que facilmente fica na cabeça do ouvinte. Variando entre riffs de andamento cadenciado e cantos acelerados, temos uma das melhores “mid-section” do album, com ótimo canto de James Hetfield. Com certeza uma das melhores do álbum também. Destaque da faixa vai para a letra, onde James de maneira muito sutil, fala sobre o alcoolismo, o mesmo mal que o fez ser internado em uma clínica de reabilitação durante as gravações do álbum. “Usando o que eu quero, para ter o que você quer. Eu fujo mas eu volto novamente” diz Hetfield. Dizem alguns que o nome “Sweet Amber” (Doce Âmbar), seria uma referência ao uísque, de cor âmbar.

9 – THE UNNAMED FEELING (07:08)

Mais uma ótima pedida do álbum, “The Unnamed Feeling” mostra uma faceta mais arrastada da banda, num peso muito bem cadenciado, aliado as linhas de vocais mais criativas de “St. Anger”. O destaque vai novamente para a interpretação de James (note como sua voz varia entre as diversas passagens da música). Além disso, é uma daquelas músicas na qual você se pega cantando sem nem perceber. Falando sobre uma espécie de inquietaçao que o consome (o sentimento sem nome), a letra segue uma temática similar a algumas das faixas da fase Load, de muita introspecção. Candidata a hit, a canção embarca rumo a um final de muito “feeling” literalmente, com espaço até para uma jam de riffs, o que mostra que a banda estava realmente muito entrosada, faltando (novamente) apenas um solo para deixá-la ainda melhor.

10 – PURIFY (05:13)

Seguindo a escola Hetfield de riffs, “Purify” começa como todo Headbanger quer, sem enrolação detonando muito metal na cara do ouvinte. Apesar do interessante trocadilho de inglês Purify/Pure If I, a letra é deveras nonsense, a não ser pela obviedade temática de seu nome. Interessante notar algumas experimentaçoes da banda como um canto bem quebrado, daqueles difíceis de acompanhar (ou entender) nas primeiras audições. Seu refrão mostra um Hetfield indignado (como em quase todo o álbum), com Lars mandando ver numa batida bem trash, mas que após algumas “escutadas” pode enjoar. Purify também conta com um curto (e bom) trecho instrumental, onde Kirk Hammet quase esboça um solo, deixando aquele gosto de “que pena..”. Apesar de tudo, Purify consegue segurar o ritmo do álbum seguindo a cartilha Metallica de composições. Essa é daquelas para escutar no volume 11!

11 – ALL WITHIN MY HANDS (08:48)

Num misto entre o épico e o trash, a derradeira música de “St. Anger” lembra em vários momentos aquele velho Metallica unânime. Mas essa música é uma das mais surpreendentes do álbum. Lars conseguiu levadas muito interessantes, principalmente nos versos e pré-versos da canção, ambos muito bem acompanhados do baixo (certeiro, nesta faixa) de Bob Rock. Liricamente, “Tudo em Minhas Mãos” trata de um amor obsessivo, sufocante, e usado como forma de controlar alguém, algo não tão incomum nos dias de hoje. A faixa tem diversas passagens, riffs de peso, levadas trash, guitarras limpas, muita agressividade e até alguns grooves. É uma daquelas músicas que devem agradar ao pessoal da velha guarda do metal. Apesar disso, seu refrão torna-se um pouco repetitivo demais, mas nada que comprometa o andamento da música. O surpreendente desfecho de um dos últimos álbuns da carreira do Metallica, é a volta aos seus dias mais antigos, numa “inocente” (em termos de complexidade) passagem trash, daquelas para quebrar tudo mesmo, o que não é de se duvidar que tenha efetivamente sido feito, tamanha desafinação de todos os instrumentos!! O que deixa a certeza de que a banda não mentiu ao menos em uma declaração, a de que “St. Anger” seria um suicídio comercial...

“St Anger Rehearsals” – O Dvd

O Dvd que acompanha o Cd é um ótimo presente aos fãs, pois mostra a banda ensaiando as músicas de “St. Anger” na sua íntegra, um material muito interessante até para os fãs mais novos. O Dvd não só vale pelas músicas mas principalmente para se conferir a atuação do pessoal “quarentão” do Metallica, que não decepcionou. Lars parece ser o mais motivado de todos, mostrando muito vigor físico em todas faixas. Kirk Hammet também demonstrou muita desenvoltura durante todo o Dvd. James Hetfield manda ver seu vozeirão ao vivo, e toda sua presença como líder da banda. Robert Trujillo (ou Rob) merece destaque para seu “andar de caranguejo”, principalmente em “Shoot Me Again”. Uma das melhores coisas deste Dvd é com certeza a equalização da bateria de Lars, bem melhor que no álbum propriamente dito, assim como as guitarras. Em sua maioria, as faixas ficaram bem boas, mesmo ao vivo e algumas até melhoraram como “Frantic” e “Sweet Amber”. Por fim, um belo presente, vale a pena até para quem não é fã.

METALLICA – ST. ANGER (75:01)
James Hetfield – Guitarras e Vocais
Lars Ulrich – Bateria
Kirk Hammett – Guitarras
Bob Rock – Baixo (no álbum)
Robert Trujillo – Baixo

(Todas as músicas por Hetfield/Ulrich/Hammett/Rock)

R$ 35,00 (em média)

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