Roger Waters: uma grande obra de arte audiovisual de nossa época

Resenha - Roger Waters (Allianz Parque, São Paulo, 09/10/2018)

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Por Diego Camara
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Falar sobre a capacidade musical de Roger Waters e do Pink Floyd é chover no molhado. A genialidade musical do Pink Floyd atravessa gerações. Mas além dela, aparece Roger Waters para colocar ainda mais insanidades no palco - que levam ele mesmo a falência, diga-se de passagem - e tornam o espetáculo ainda mais radiante. A nova turnê, inaugurada nesta perna latino americana pelo Brasil, traz não só um setlist incrível, mas também uma obra de excelência visual, não levando os fãs até a música, mas trazendo diretamente a eles a sensação de ver realmente a música do Pink Floyd ao vivo. Confiram aqui os principais detalhes do show, com as imagens de Fernando Yokota.

O Allianz Parque não estava lotado. Quer dizer, não estava lotado como em outros shows lotados. Havia espaço para andar pela pista, e o público pode ver o show com extrema comodidade. A estrutura de palco, à primeira vista, era impressionante: a técnica caprichou em montar um palco com um telão de altíssima resolução que ia de ponta a ponta da arena, além de uma estrutura de palco aberta, sem realmente um teto no palco. As luzes eram presas por uma estrutura que vinha de trás, em colunas. É um palco bonito, que melhora inclusive tanto o visual do show quanto a sua percepção pela arena como um todo, aumentando o ângulo de visão também na pista premium.

O show foi começar com uns 20 minutos de atraso. Com incrível qualidade de som, "Breathe" encheu o estádio com uma onda sonora incrível e o público cantando ela de cabo a rabo, ultrapassando os vocais. O excelente solo de baixo e "One of These Days" veio logo em seguida, encantando o público: cada instrumento parecia solto dentro das músicas, como se você pudesse por um instante apenas admirar o poderio do baixo de Waters ou a excelente linha de bateria da música, costurada com o som perfeito das guitarras em um solo fenomenal.

A expressão do show se completava com a excelente sincronização da iluminação e do supertelão ao fundo, que se encaixava perfeitamente com a música. Quando o relógio apareceu em cena, acompanhado pelo som dos alarmes, todos já sabiam que viria com isso "Time", ou quando aparece um robô rastejante - e que magnífica sincronia fizeram dos movimentos dele com as batidas da bateria - "Welcome to the Machine" dá a deixa, essa delineada por um excelente solo de teclado, que soava como em um disco. É total bobeira querer lançar comparações, mas a banda de Waters é uma elite musical impressionante de fãs do progressivo, que fazem o show estar alinhado para as apresentações da banda original.

Em seguida, sacou um pequeno set de músicas próprias do seu disco "Is This the Life We Really Want?". Primeiro veio "Deja Vu", puxada pelos violões em um som bastante leve e com pedidos ao público para que rezem por Jerusalém e o povo palestino. O ativismo de Waters, aqui, deixa apenas o solo do implícito e entra firme no explícito. "Picture That", que boa parte do público o acompanhou no vocais em seu estilo agressivo de confrontação política, fechou o pequeno set.

A sequência veio um dos melhores momentos da noite. As mãos que buscam se unir no centro do palco abrem caminho para "Wish You Were Here", música em partes criada por Waters e Gilmour como homenagem ao falecido - e na época viciado em drogas - Syd Barrett. Aqui, o som do público toma conta da plateia, invocando todos para cantarem juntos - e esmagarem - os vocais de Waters. A apresentação emociona os fãs, pois a música faz o público pensar em pessoas queridas que se foram ou não podiam estar ali.

Fechando o primeiro set, outro momento icônico se encaixou: crianças da periferia entraram no palco vestidas de presidiários e encapuzadas, fazendo uma linha de frente ao público. O telão vira um grande muro após o ensurdecedor som de helicópteros. Os momentos do filme "The Wall" se sincronizam com a apresentação da banda. Os pequenos prisioneiros então se revelam, mostrando camisetas escritas "Resist" - Resistir - e o público sendo trazido para cantar o refrão junto com elas. Waters pede aplausos ao público para as crianças, com grande parte do público aderindo contra o fascismo. Mas sobre isso, iremos retomar em outro texto.

A segunda parte do show começou com sirenes anunciando. Do solo se ergue Battersea, com suas colunas imponentes que saem pelo telão até o telo do Allianz. Com direito a fumaça e tudo, a construção impressiona pela imponência, e o porco inflável finaliza a capa do disco ao vivo para os fãs. Primeiro veio "Dogs", com som mais alto e forte que na primeira parte do show. A construção imperiosa da música com o palco fez as pessoas se sentirem dentro do disco: a indústria, fria e enigmática, que vai até os confins do espaço e vira uma nave, se contrapõe aos porcos mascarados que tomam Champagne no palco, servidos por um ovelha. "Os porcos comandam o mundo", levanta um deles a placa, para Waters contrapor em um instante com "Fodam-se os porcos". "Pigs" vem então, com uma série de imagens insanas do nosso presidente favorito do mundo, Donald Trump, o ligando a infantilidade, excessos e mentiras. O público aplaudiu com vontade, concordando com as cenas e a música.

Em seguida, "Money" veio como uma crítica aos poderosos, com imagens de políticos sendo apresentadas no telão no decorrer da música: muitos contentes, rindo ou esbanjando o poder e a riqueza. O solo de saxofone é anunciado com a explosão de uma bomba atômica, que iluminou todo o público. Encaixada a ela veio "Us and Them". Seu tom calmo porém não esconde o desafio, com as críticas políticas que apresenta no telão. O solo de saxofone é mágico, e a música incrivelmente cadenciada.

Após "Smell the Roses", com direito a Roger Waters se acorrentando em uma das laterais do palco, em clara crítica as práticas de tortura, veio o final com "Brain Damage" e "Eclipe". Neste momento, o público ficou louco mais pela postura política do que pela música, alguns até se esquecendo do lindíssimo desenho da pirâmide 3D que foi formado por luz na pista premium. Utilizando a hashtag #elenao, Roger Waters mostrou sua posição, causando espanto em boa parte do público presente, seguiram-se as vaias e o conflito do público durante a pausa para o bis.

Roger Waters foi vaiado no retorno ao palco, tendo que diversas vezes pausar sua apresentação da banda. Ele respeitou bastante as opiniões contrárias do público, que se concentravam fortemente na pista premium da Arena - o que era de se esperar, dado o elitismo da prática. Se colocando contra ditaduras, ele já parecia esperar por tal reação do público. Porém, para seus fãs, Roger saiu mais que vencedor, dado que a maioria do público o apoiou e o aplaudiu.

O bis veio com a surpresa de "Mother". Inteligente, muito bem sacada sua presença aqui: a música incorpora com perfeição a ideia do discurso autoritário, e novamente o #elenão pintou no telão, para delírio dos presentes, que gritaram em apoio de Waters quando do verso sobre se tornar presidente. O show é finalizado com "Comfortably Numb", que acabou sofrendo de esvaziamento pelos revoltados e pelos que precisavam pegar o metrô, já que a meia noite se aproximava.

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Setlist:
Set 1:
Intro: Speak to Me (música do Pink Floyd)
1. Breathe (música do Pink Floyd)
2. One of These Days (música do Pink Floyd)
3. Time (música do Pink Floyd)
4. Breathe (Reprise) (música do Pink Floyd)
5. The Great Gig in the Sky (música do Pink Floyd)
6. Welcome to the Machine (música do Pink Floyd)
7. Déjà Vu
8. The Last Refugee
9. Picture That
10. Wish You Were Here (música do Pink Floyd)
11. The Happiest Days of Our Lives (música do Pink Floyd)
12. Another Brick in the Wall Part 2 (música do Pink Floyd)
13. Another Brick in the Wall Part 3 (música do Pink Floyd)
Set 2:
14. Dogs (música do Pink Floyd)
15. Pigs (Three Different Ones) (música do Pink Floyd)
16. Money (música do Pink Floyd)
17. Us and Them (música do Pink Floyd)
18. Smell the Roses
19. Brain Damage (música do Pink Floyd)
20. Eclipse (música do Pink Floyd)
Bis:
21. Mother (música do Pink Floyd)
22. Comfortably Numb (música do Pink Floyd)


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Sobre Diego Camara

Nascido em São Paulo em 1987, Diego Camara é jornalista, radialista e blogueiro. Seu amor pelo metal e rock começou há 6 anos. Um amante da nova geração, é um grande fã de Arjen Lucassen, Andre Matos e bandas como Nightwish, Hammerfall, Sonata Arctica, Edguy e Kamelot. Também não deixa de ter amor pelos clássicos, como Helloween, Gamma Ray e Iron Maiden e do Rock de bandas como Oasis, Queen e Kings of Leon. Atualmente seus textos podem ser lidos no blog OCrepusculo.com sobre assuntos diversos, além de planos para criação de um projeto totalmente voltado aos blogs de Rock e Metal.

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