Roger Waters conta como "Hey You" entrou em "The Wall" na última hora e mudou o lado 3
Por Bruce William
Postado em 22 de fevereiro de 2026
Entre as muitas histórias de bastidor de "The Wall", uma das mais curiosas envolve justamente uma das faixas mais conhecidas do disco. Em entrevista a Tommy Vance, Roger Waters explicou que "Hey You" não estava originalmente no lugar em que aparece no álbum e que a mudança foi feita muito tarde, quando parte do material gráfico já estava pronta.
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A conversa ajuda a entender por que algumas edições saíram com a impressão de faixa/letra em posição que não batia com a sequência final. Waters contou que Bob Ezrin ligou para ele com um diagnóstico direto sobre o começo do terceiro lado. "Bob Ezrin me ligou e disse: 'Acabei de ouvir o lado três e ele não funciona'", relatou. Waters disse que já vinha se sentindo desconfortável com aquilo e que, depois de pensar por pouco tempo, percebeu uma saída.
Segundo ele, "Hey You" poderia ser movida sem quebrar o conceito e ainda melhoraria a narrativa daquele trecho. "Pensei nisso e, em alguns minutos, percebi que 'Hey You' podia, conceitualmente, ir para qualquer lugar, e que ficaria um lado muito melhor se a colocássemos no começo", explicou. A ideia, nas palavras dele, era "sanduichar" a cena teatral do meio - o personagem isolado no quarto de hotel - entre uma tentativa de reconexão com o mundo exterior e o que viria depois.
Foi essa mudança tardia que deixou as letras impressas no lugar "errado" em algumas versões. Waters explicou: "É por isso que aquelas letras foram impressas no lugar errado, porque essa decisão foi tomada muito tarde". Ele também acrescentou que várias decisões no disco acabaram sendo empurradas para o limite porque a banda já tinha prometido entregar o álbum no começo de novembro e queria cumprir esse prazo.
Na mesma entrevista, Waters também detalha o papel de "Hey You" dentro da história do personagem. Quando Tommy Vance comenta que o sujeito agora está "atrás do muro", Waters responde que sim - "a) simbolicamente e b) trancado num quarto de hotel, com uma janela quebrada que dá para a freeway [rodovia]". A faixa, então, aparece como um pedido de contato com o lado de fora, mas já marcado por uma derrota.
Ele descreve isso ao comentar a estrutura da música e a alternância de vozes. Waters lembra que David Gilmour canta os dois primeiros versos e, depois da parte instrumental, entra o trecho narrativo cantado por ele: "mas era só fantasia... o muro era alto demais, como você pode ver; por mais que ele tentasse, não conseguia se libertar, e os vermes entraram em seu cérebro". Ali, segundo Waters, surgia a primeira referência aos "worms", que antes tinham um peso ainda maior no conceito.
Waters disse que esses "vermes" eram, em um estágio anterior da obra, uma representação simbólica da decadência. E resumiu a ideia central de forma bem clara: "A ideia básica de tudo isso, na verdade, é que se você se isola, você apodrece". Essa chave ajuda a entender por que "Hey You", mesmo sendo um grito de socorro, já carrega um sentimento de atraso e impotência.
Ele fecha o sentido dramático da faixa de um jeito bem amargo. "No fim de 'Hey You' ele faz esse grito por ajuda, mas é tarde demais">/o:, disse Waters. E completou: "De qualquer forma, ele está cantando só para si mesmo... não adianta pedir ajuda se você está sentado sozinho no quarto, dizendo isso apenas para você mesmo." Foi um daqueles casos em que uma mudança de última hora não mexe só na ordem das faixas, mas altera a força narrativa de uma parte inteira de "The Wall."
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