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David Gilmour: Quase 70 anos, voz de sobra e solando como garoto

Resenha - David Gilmour (Allianz Parque, São Paulo, 12/12/2015)

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Por Marcello Cohen
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Por mais que eu tenha nascido tarde demais para ver certos Ramones e Pantera's em ação, posso me considerar um privilegiado em matéria de shows, já que pude assistir apresentações realmente memoráveis de muitos dos meus heróis. Dito isso, por vezes chego a um assustador empate de uns bons 5 shows na matéria "show da minha vida". Agora vai mais um para essa lista, e seguramente para a de todos que entraram em transe por quase 3h, atordoados com a guitarra/voz de uma das maiores bandas de Rock que existe em ação, ao vivo e a cores.

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Finalmente o senhor Gilmour apareceu por aqui, trazendo na bagagem o bom Rattle That Lock, 4o trabalho de estúdio de sua carreira solo. O mesmo foi bem explorado (até demais, penso eu), assim como On an Island (2006), mas é inegável que as 50 mil pessoas que lotaram o novo estádio do Palmeiras naquela noite queriam mesmo era ouvir Pink Floyd. A cada pérola sacada da vasta discografia da banda, uma hipnose coletiva era vista a cada canto do lugar. Algo mais que natural pelo brilhantismo inigualável da obra.

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O local não poderia ser melhor. Nada é perfeito quando falamos de eventos assim no Brasil, e as ruas no entorno simplesmente não fluíam, mas no geral o estádio é o melhor que já estive para shows. Um entorno para lá de agradável, boa visão da pista, som absurdo proporcionado pela acústica impecável do lugar e toda a qualidade de quem cuida do que mais importa no espetáculo, entrada simples e sem filas... Bem, poderia falar muito mais. O tempo ajudou, e muito. A forte chuva parou assim que deixei o hotel nas proximidades do estádio, e respeitou a nobre ocasião, sem se manifestar pelo restante da noite. Com a pista assustadoramente cheia de apaixonados pelo Pink Floyd prontos para se curvarem diante de um Deus do Rock, que comece o espetáculo.

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Com um insignificante atraso de 10 minutos, o senhor de quase 70 anos fincava os pés no palco, diante de 50 mil pessoas que nutrem por ele o mais legítimo e saudável fanatismo. Com a instrumental 5 A.M. apenas no som mecânico, a coisa teve inicio com a razoável Rattle That Lock, faixa-título do trabalho mais recente. Quando o homem tocou o 1o acorde com o seu timbre único, foi uma verdadeira loucura! A adoração de todos era realmente impressionante. A boa Faces of Stone, uma das melhores do trabalho, veio em seguida. As solos são boas, algumas ótimas, mas 99% do estádio estava lá para ouvir Floyd, e a 1a da banda veio na forma do hino supremo Wish You Were Here. O que aconteceu aqui foi realmente indescritível. O que essa música significa para todos os fãs da banda não cabe em palavras. Aquele dedilhado único que comanda tudo nos belos versos me proporcionaram uma das maiores emoções que já senti ao vivo. Só isso já vale todo o sacrifício financeiro. Emoção passada, a sequência vem com a nova A Boat Lies Waiting e The Blue, de On an Island. Ai é hora de voltar para o Pink Floyd, com mais um hino inconfundível do Rock N'Roll, uma tal de Money. Depois do inconfundível e magnífico riff de baixo criado por Roger Waters, chega a hora do estádio todo entoar cada verso em uníssino. Ainda em The Dark Side of the Moon, vem a icônica e maravilhosa Us and Them. Mais um caminhão de emoções derramada sem dó em cima dos presentes. In Any Tongue, que é ao meu ver de longe a melhor do novo trabalho, fica arrebatadora ao vivo. Essa é talvez a música com maior toque de Pink Floyd presente nele, se encaixando muito bem em qualquer disco da banda. Ponte perfeita para mais uma bomba Floydiana, a maravilhosa High Hopes. Essa foi a única representante do magnífico The Division Bell, o trabalho mais marcante da banda sem Waters, e um dos melhores da carreira como um todo também.

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Chega a hora do intervalo, algo muito comum em shows progressivos. Momento para tomar um ar de tanta emoção vista na primeira parte de um show espetacular. De defeito até então, apenas a "imagem". Vi tudo da pista comum, setor já relativamente distante do palco. A iniciativa de repetir o tradicionalismo telão circular imortalizado em Pulse foi genial. O problema é que ele era o único. O mesmo intercalava imagens de clipes e ilustrações com tomadas da banda - leia-se 90 % do tempo focada no dono da festa. Com isso, quem viu de longe não conseguia enxergar a performance da banda como um todo, sendo isso um detalhe a ser pensado em shows de arena. Mesmo assim, o estádio permitia que Gilmour fosse visto mesmo de uma distância considerável, mas algo longe do ideal. O show de luzes que era a base do show também dificultava, mas a qualidade irretocável do som fazia isso tudo passar quase despercebido. Dito isso, vamos ao retorno.

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Gilmour surpreende com a fantástica lembrança de Astronomy Domine, maior clássico de The Piper At The Gates Of Dawn, o 1o disco da banda. A faixa serve como tributo a Syd Barrett, o gênio criativo que dava voz a banda em seus primórdios, até entrar numa viagem sem fim com base no ácido. Gilmour não gravou o disco, o que faz da escolha ainda mais diferente. A música é aquela chapação maravilhosa, e cai como um enorme estrondo em cima de um som alto e nítido. As luzes acompanham o ritmo alucinante que a música pede, fazendo até o mais sóbrio ali se sentir numa viagem by LSD daquelas. Depois vem ao meu ver o grande momento. Shine On You Crazy Diamond (Parts I-V) faz todos entrarem em transe, um efeito que só ela pode proporcionar. Se quer ver isso na prática, basta dar uma olhada no breve vídeo postado na página oficial do homem. A emoção nos mais de 10 minutos de uma das maiores performances de guitarristas que eu consigo me lembrar, misturadas a versos prontos para arrebatarem sua alma, fez com que quem viu isso leve a experiência para o túmulo. Como se só isso já não bastasse, Gilmour manda simplesmente a lindíssima Fat Old Sun em seguida. Numa tendência de lembrar hits consagrados do Floyd em meio a canções por vezes escondida na discografia da banda, ele saca essa pérola de Atom Heart Mother. Depois da sequência Floydiana, Gilmour volta as atenções para a carreira solo, na boa On an Island, e as novas The Girl in the Yellow Dress e Today. A última principalmente é muito boa, mas é inegável que a emoção proporcionada pelos clássicos do Pink Floyd não se compara com as músicas da carreira solo. Daqui para frente, só vem porrada. Sorrow foi mais uma sábia escolha em meio ao por vezes esquecido A Momentary Lapse Of Reason, primeiro disco da banda sem Waters. A música é magnífica, uma escolha e tanto. Em seguida, é hora de The Wall dar as caras, no clássico Run Like Hell. Esse foi um dos momentos que o perfeito poderia ser ainda mais perfeito com Waters ali do lado, com a linha de baixo magnífica da música, mas a emoção já era garantida com o Mr Gilmour, nessa ai em especial trajando um sensacional óculos de sol. A multidão simplesmente enlouquece. Vem o falso encerramento, e uma dupla de hinos infalíveis para o verdadeiro final. O que falar de Time e Comfortably Numb? Não existem palavras para traduzir a emoção proporcionada na audição de maravilhas assim. Obviamente, o solo de Gilmour na última é obrigatório em qualquer top 10 da história do Rock, a o que qualquer um ali sente ao ouvir isso ao vivo é algo para realmente testar os corações floydianos.

Não tenho palavras para expressar a emoção de ver um cara como David Gilmour em ação. Com quase 70 anos, esse senhor ainda tem voz de sobra, e sola como garoto os hinos que definem uma das mais brilhantes carreiras que se tem noticia. Esse é aquele tipo de show para parar o mundo durante alguns minutos, um acontecimento verdadeiro para fazer qualquer um ir às lágrimas. Um dos shows da minha vida indiscutivelmente, e tenho certeza, esse é daqueles para contar para os meus netos, num triste dia futurista onde Pink Floyd só existirá em forma dos Dark Side of the Moon's, The Wall's e Animals arquivados pela sua legião de fãs. Me sinto um privilegiado podendo ver enquanto ainda era tempo uma lenda em ação.


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Flavio Maranhao
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Sobre Marcello Cohen

Carioca de nascimento, Marcello é apaixonado por Rock desde seus 12 anos, quando aprendeu a gostar de Beatles, Rolling Stones, Queen, AC/DC, Metallica, Iron Maiden e Black Sabbath, bandas que até hoje são as suas preferidas. Amante de bandas de variados estilos de Heavy Metal, Hard Rock e Classic Rock, escreve no blog Coração de Metal, nome que rende homenagem ao pioneiro Stress.

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