Rock Progressivo: Como Mike Portnoy entende o estilo?

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Por Scenes From DT, Fonte: Scenes.com.br
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(Matéria publicada originalmente no Scenes From DT)

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A entrevista abaixo foi concedida por Mike Portnoy à revista Classic Rock em 2006. Na revista esse artigo saiu como parte de uma mesa redonda discutindo sobre prog metal, e consequentemente não houve espaço para a entrevista completa de Mike Portnoy. Rich Wilson disponibilizou essa entrevista em seu blog por achar ser melhor do que ela ficar guardada em seu computador. As perguntas foram feitas por Rich antecipadamente, e respondidas depois de algum tempo por Portnoy.

O que é Progressivo?

MP: Eu acho que a música progressiva é geralmente definida pela ênfase dada ao músico, músicas longas, arranjos não tradicionais, longas partes instrumentais e também a exploração de vários estilos musicais. Acho que essas são as características gerais.

Você considera o que faz como sendo Progressivo?

MP: Oh, com certeza, Dream Theater é uma banda de Progressivo! Eu não diria que nós somos Prog Rock necessariamente. Acho que somos mais uma banda Prog Metal tanto quanto uma banda que combina as duas coisas, mas sim, nós não temos medo do rótulo Progressivo.

Por que existem tantas bandas que se sentem embaraçadas em serem chamadas assim?

MP: Acho que elas se sentiam embaraçadas principalmente durante um período nos anos 80 quando a palavra Progressivo era considerada suja. O estilo teve seu apogeu nos anos 70 e depois morreu com o surgimento da era Disco e do Punk. Então nos anos oitenta era comum se afastar da palavra Progressivo. Foi daí que bandas clássicas do genero como Genesis e Yes meio que reinventaram seu som pra fugir dos elementos progressivos e das comparações. Mas eu acho que dos anos 90 até hoje, a palavra não é mais um tabu como costumava ser. Na verdade, muitas bandas a adotam hoje em dia. Ocasionalmente você vê bandas de Progressivo como Tool, Mars Volta ou Coheed And Cambria que tem medo de ter essa palavra vinculada a elas porque isso pode “machucar” seu perfil na imprensa especializada. Mas para a maior parte, toda essa nova geração de bandas Progressivas – e existem literalmente centenas delas por aí – adotam essa descrição.

Por que bandas como Yes e Genesis mudaram tanto sua sonoridade nos anos 80?

MP: Eu acho que a palavra Progressivo se tornou tão negativa que eles tiveram que mudar se quisessem ter uma carreira. Do começo ao meio dos anos 80 essas bandas mudaram e se tornaram populares, mais do que seriam se tivessem continuado no verdadeiro estilo Progressivo. Eles precisaram mudar para sobreviver e aquele também foi um período de resfriamento. Existiam também algumas bandas que saíam pela tangente, como Marillion, IQ, Pendragon e Twelfth Night, que existiram durante aquele tempo no qual Prog era uma palavra suja. Então o estilo começou a aparecer de novo, como por exemplo no começo dos anos 90 quando nosso álbum "Images and Words" estourou, isso abriu uma grande aceitação para o gênero.

Progressivo é um tipo de som ou um estilo próprio? Ou seja, as bandas que soam como Pink Floyd, Yes, Genesis, etc, são por definição Progressivas?

MP: Eu não acho que seja apenas um som atualmente, assim como um estilo. Existem tantos sub-gêneros progressivos hoje em dia. Você tem bandas como The Flower Kings que soam como o Prog tradicional, mas também existem bandas como Mastodon ou Opeth que obviamente são bandas de Heavy Metal mas com sérios toques progressivos. Então não existe um som único progressivo e sim um estilo que se apresenta em vários formatos e tamanhos.

O Prog Eletrônico é um caminho inevitável para o Progressivo?

MP: Eu acho que certamente por um lado sim. Tangerine Dream e Ozric Tentacles são bons exemplos, mas soam mais como Progressivo Psicodélico. Isis também adota esse tipo de estilo, e de uma certa maneira, até O.S.I meio que criaram esse ambiente eletrônico progressivo. Eu não diria que é um destino inevitável, mas com certeza é um sub-gênero.

Algumas bandas do gênero são 'regressivas', ou seja, imitam sons e estilos de grupos como Pink Floyd, Yes, Genesis, Rush, etc. Elas podem ainda assim ser consideradas 'progressivas'?

MP: Bem, elas são bandas de Progressivo. É assim que a palavra Progressivo é vista em termos de som e estilo, e não necessariamente em termos de direcionamento musical. Bandas como The Flower Kings, Echolyn e Spock’s Beard (no começo) soam como Yes, Genesis, ou Gentle Giant e esses são exemplos perfeitos. Eles fazem um Prog moderno mesmo usando sons mais regressivos em termos de instrumentação e produção mas com certeza carregam a tocha dos sons dos anos 70 para dentro do novo milênio.

O que você acha da seguinte frase: “nos anos 70 o rock Progressivo se tornou indulgente, com vários solos de guitarra e músicas de 20 minutos, então veio o Punk e trouxe isso tudo de volta ao básico, acabando com o Prog e sendo fiel ao espírito do Rock’n’Roll”?

MP: Bem, eu concordo com tudo isso, até chegar na parte sobre se manter fiel ao espírito do Rock’n’Roll. Isso eu não concordo. Rock’n’Roll representa coisas diferentes para pessoas diferentes. Eu poderia dizer como fã que eu gostava muito de Sex Pistols, Ramones e The Clash assim como eu gostava de Pink Floyd, Yes e Genesis. Eram coisas diferentes que me encantavam de diferentes maneiras como um ouvinte e fã de música. Um é cru e simples, o outro mais complexo e elaborado, mas o que é o verdadeiro Rock’n’Roll? Quem pode definir isso?

O Progressivo poderia ter existido se não houvessem as escolas públicas? Era (ainda é) música feita por “garotos bem vestidos”? (Nota: a pergunta faz alusão ao fato de geralmente os músicos do gênero serem oriundos de famílias com boa situação financeira, e por tabela estudaram e se conhecerem em escolas particulares)

MP: Sim, era e ainda é. Mesmo no caso do Dream Theater, éramos formados em uma escola de música. Parece que todos os músicos do gênero, e também os fãs, são aqueles estudiosos que querem ser intelectuais. Então bem ou mau, esse parece ser o caso, começando de Pink Floyd até os dias de hoje.

O Progressivo era originalmente algo britânico? Ainda é?

MP: Era com certeza. Se você observar bem, os cinco maiores, Pink Floyd, King Crimson, Genesis, Yes e ELP, todos são britânicos. Rush era uma banda progressiva essencial nos anos 70 e eles são canadenses. Daí bandas americanas começaram a adotar o estilo e surgiu o Kansas e Styx. Durante os anos 80 e 90 o gênero foi adotado por bandas americanas como Metallica, Fates Warning, Queensryche e Dream Theater. E agora existe uma grande cena Prog européia vindo da Escandinávia, Alemanha e Itália onde incontáveis bandas estão se espalhando. Mas sim, tudo começou na Inglaterra.

Por que as garotas não gostam de Progressivo?

MP: Boa pergunta! Viemos nos perguntando isso por vinte anos (risos). Quero dizer, se você olhar em um show do Dream Theater, você vê 95% de homens e os outros 5 % são suas esposas e namoradas. Eu não sei por qual motivo. Talvez seja o fato da música Progressiva encantar os músicos e devem existir mais músicos homens do que mulheres. E isso não tem nada com ser um cara bonito, com a imagem. Sempre tem sido sobre música. Então talvez essa seja a razão.

Quando o Progressivo começou a se mesclar com o Jazz e originou o Fusion?

MP: Não sei como responder. Existe outro lado no Progressivo que é toda essa fusão, o lado instrumental. Prá mim começou com Frank Zappa. Ele foi o primeiro a combinar Jazz, músicos instrumentais com elementos progressivos. Depois disso teve a Mahavishnu Orchestra, Return to Forever e Dixie Dregs. Essas bandas são geralmente instrumentais, com os músicos considerados os melhores em seu instrumento. E essa tradição continua até hoje, com bandas como Niacin ou Planet X que fazem esse tipo de música.

Existe mais de um tipo de Progr Rock? Tool é parte do mesmo gênero que o Dream Theater?

MP: Não existe apenas um tipo de Prog Rock, existem literalmente dúzias. Sim, eu consideraria Tool uma banda Progressiva e Dream Theater uma banda Progressiva, mas nós com certeza somos dois lados diferentes do estilo. Nós adotamos alguns dos mais tradicionais elementos de Rock Progressivo, enquanto o Tool está misturando tudo e conduzindo para uma direção mais Gótica. Você vê uma banda como Coheed And Cambria que são considerados Progressivo, mas soam mais como uma banda de Pop Punk. Mastodon e Opeth estão indo para uma direção mais Prog Death Metal, e Mars Volta para um lado mais Ambiente, Psicodélico.

Quando foi a primeira vez que você ouviu o termo “Progressivo” relacionado à música?

MP: Eu acho que começou com "Sgt. Peppers". Os Beatles não eram uma banda progressiva mas de alguma maneira esse pode ser considerado o primeiro álbum do gênero por ter sido o primeiro disco conceitual, e não apenas um apanhado de músicas. Era um grande álbum experimental em relação a técnicas de produção e gravação, e eles quebraram todas as regras com aquele trablaho. Logo depois veio o primeiro álbum do Pink Floyd, embora na época do Syd Barrett a banda soasse mais Psicodélica e experimental. Pouco depois, o álbum do King Crimson “In the Court of The Crimson King” foi lançado, e esse pode ser considerado precisamente o começo de tudo.

Muitas músicas dance/eletrônica são experimentais/ viajantes/ conceituais (The Orb, Aphex Twin etc, etc). Por quê elas são consideradas mais acessíveis enquanto o Progressivo não é?

MP: Eu diria que porque pessoas que escutam dance music estão extasiadas (risos). Mas eu imagino o motivo: se você pegar uma pessoa comum nas ruas de Londres, ela com certeza dirá que acha o Tool muito legal e o Dream Theater não. Sabe, nós estamos produzindo músicas como "I Walk Beside You" ou mesmo algo como "Never Enough", que são muito mais acessíveis do que qualquer coisa que o Tool jamais escreveu, e eles ainda são considerados muito mais dentro do padrão do que a gente. Então essa é uma questão interessante e eu não sei responder. Talvez seja a imagem deles contra a nossa, porque a gente nunca pensou sobre isso, ao contrário deles, que tem uma imagem muito moderna.

É possível fazer Progressivo acessível novamente?

MP: Bem, Tool e Mars Volta fazem. Eu acho que eles são os dois melhores exemplos de bandas de Progressivo consideradas acessíveis.

Sempre foi acessível?

MP: Nos anos 70 sim. Se você observar o período entre 1971 e 1973, Yes lançou "Close to the Edge" e "Fragile", Genesis lançou "Selling England by the Pound", "Foxtrot" e "The lamb Lies Down on Broadway". ELP tinha "Brain Salad Surgery" e cada uma dessas bandas estava lançando álbuns clássicos que foram totalmente bem aceitos. Eles tocavam em estádios e tinham grande exposição em rádios para essas músicas de 8 ou 10 minutos. Então acredite ou não, houve um tempo no qual o Progressivo era acessível. Mas não podemos esquecer que naquela época o que mais tocava naquela época era coisas como Mungo Jerry ou algo assim. Mesmo na metade dos anos 70 você tinha Linda Ronstadt e The Eagles, então ver Keith Emerson no ELP destruindo um teclado com facas era infinitamente mais legal do que ver The Eagles.

Existe uma ligação entre fazer (ou ouvir) música Progressiva e usar drogas?

MP: Com certeza no começo, acho que no álbum "Sgt. Peppers" e nos trabalhos do Pink Floyd, que espalharam a música Progressiva. Essas bandas estavam muito ligadas ao cenário das drogas. Eu acho que muitas coisas dos anos 70 estão enraizadas na mentalidade hippie do The Greatful Dead e mais tarde em bandas como Phish. Elas eram bandas Progressivas também. Então sim, existia um grande lado das drogas nisso tudo.

Agora que o rock já foi explorado por todos os seus extremos, ainda existe necessidade de fazer Progressivo?

MP: Mais do que nunca. Se você olhar o lixo quando abre a Rolling Stone Magazine ou liga na MTV, onde tudo consiste em Reality Shows, uma merda de Dance Music ou Boy Bands. Incorporar o rock é envelhecido, trabalhado e chato. Então se você é um músico e quer tocar sua guitarra, não existem muitos caminhos que você pode tomar que vão ser empolgantes. Então mesmo que o Prog tenha morrido nos anos 80 e renascido nos 90, eu acho que agora está bem maior, mais forte e mais variado do que nunca.

Qual o álbum conceitual mais louco?

MP: Eu diria "The Lamb Lies Down on Brodway", do Genesis, um dos meus álbuns favoritos, já o ouvi centenas de vezes e até hoje não tenho a mínima idéia do que ele se trata.

Qual a melhor música épica?

MP: Eu teria que citar algumas, mas é difícil pegar uma. "Close to the Edge" do Yes e "Supper’s Ready" do Genesis. Modéstia a parte, mas eu acho que existem muitas músicas do Transatlantic como "All of the Above", "Stranger in Your Soul" ou "Duel With The Devil", que são verdadeiras obras de arte modernas da música Progressiva. O que a gente fez no Transatlantic foi pegar elementos do Prog clássico de todas as nossas bandas Progressivas favoritas. Nós mantivemos aquele estilo e aquele som, mas trouxemos para a sonoridade do novo milênio.

Quais músicos ou bandas se mantiveram mais próximas do espírito do Progressivo?

MP: Eu e Neal Morse (risadas). Não, em termos de velha guarda eu diria King Crimson. Robert Fripp ainda é tão audacioso e aventureiro quanto era na época que começou o King Crimson há 40 anos atrás. Talvez seja porque ele não obteve um verdadeiro sucesso comercial assim como os outros quatro dos chamados “Os cinco grandes” (Genesis, Yes, Pink Floyd e ELP) obtiveram. Em todo caso ele tem constantemente reinventado o Crimson a cada dez anos mais ou menos e criado grandes álbuns Progressivos a cada década com uma banda e um som completamente diferentes a cada vez. Nos anos 60 foi "In The Court of The Crimson King", "Red" nos anos 70, "Discipline" nos anos 80, nos anos 90 "Thrak" e "The Power to Believe" em 2003.

As bandas de Progressivo devem lançar singles?

MP: Sim, mas eu acho que os melhores singles que foram hits de bandas Progressivas eram aqueles que originalmente não estavam previstos para serem lançados neste formato, coisas como "Roundabout" do Yes ou "Carry On Wayward Son" do Kansas. Essas foram músicas que se tornaram sucessos nas rádios, mas não foram escritas para entrar nas paradas. Eu também posso falar a mesma coisa sobre "Pull Me Under" do Dream Theater, que se encaixava neste contexto, mas se tornou um sucesso nas rádios.

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