O álbum que fez Paulo Ricardo perceber que RPM estava obsoleto: "Foi traumático"
Por Gustavo Maiato
Postado em 22 de maio de 2025
Durante entrevista para a Rádio Rock de Goiânia, o cantor Paulo Ricardo comentou sobre o álbum lançado em 1993 sob o nome "Paulo Ricardo & RPM", que marcou uma ruptura definitiva com o som clássico da banda RPM dos anos 1980.
"Foi justamente uma ruptura com o próprio RPM", explicou o cantor. "Nos anos 90, a gente assistiu ao crescimento do grunge, aquela cena de Seattle chegando muito forte, com bandas incríveis como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Smashing Pumpkins... Muita gente trazendo de volta o protagonismo da guitarra."
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Segundo ele, o som mais cru e pesado dessas bandas deixou obsoleta a linguagem dominada por sintetizadores, que marcou os anos 1980. "Aquela estética dos sintetizadores, que vinha desde Simple Minds, estava ficando obsoleta. E fazer essa transição foi traumático."
Paulo relembra que o RPM se desfez em meio a divergências musicais. "A banda acabou. Houve um racha de opiniões. Em 1993, depois de dois álbuns solo, fizemos uma nova formação e focamos no rock — assumimos um som mais pesado."
Mas o cenário musical brasileiro já era outro. "1993 marca o início de uma queda vertiginosa do rock como fenômeno de massa. Você tinha o especial de Leandro & Leonardo na Globo, Daniela Mercury com Canto da Cidade, Beto Barbosa com a lambada, o axé ganhando força. O rock já não era mais a bola da vez."
Enquanto a MTV ganhava espaço, as bandas de rock começaram a sumir da TV aberta. "Nós saímos da TV aberta e deixamos aquele espaço todo vago, que foi ocupado vorazmente pelo É o Tchan, pelas duplas sertanejas e os Amigos. O rock encolheu."
O disco de 1993, embora querido por ele, não teve o sucesso esperado: "É um álbum pelo qual tenho maior carinho, mas não foi um grande sucesso. Ele representa uma fase muito específica. Quando toco algo desse repertório nos shows, geralmente é Pérola, que teve um videoclipe bacana e volta e meia aparece na turnê dos 40 anos, e Ninfa, que é um pop-folk e depois regravei no Electra, de forma mais eletrônica."
Paulo destaca que o álbum ocupa um lugar único em sua trajetória: "É curioso porque ele não é Paulo Ricardo e não é o RPM. A gente decidiu lançar como Paulo Ricardo & RPM porque, apesar de ser uma banda, não era aquele RPM original. Mas também não era um trabalho solo."
Ele lembra que o disco chegou a ser lançado em espanhol e teve bom desempenho fora do Brasil: "Teve versão em espanhol, e Veneno foi bem na Argentina, por exemplo." O artista reflete ainda sobre a perda de espaço do rock nas paradas. "Hoje, o rock ficou muito nichado. Se a gente for falar de relevância, ou de alguma métrica como a da Billboard, faz uns 20 anos que não vemos uma banda de rock no Top 10."
Mesmo os gigantes do passado, como o U2, enfrentam dificuldades em se manter nas paradas. "Desde No Line on the Horizon e Songs of Innocence, sumiram um pouco. Fizeram aquele show em Las Vegas, um grande sucesso, mas baseado nos hits dos anos 80 e 90."
Segundo ele, o Coldplay talvez seja a única banda que ainda sustenta algum debate sobre sua identidade dentro do rock, embora com sonoridade cada vez mais pop. "A única banda que ficou ali mais ou menos, que as pessoas ainda discutem se é ou não é rock, é o Coldplay."
Confira a entrevista completa abaixo.
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