Opeth: revelando os discos que inspiraram "Heritage"

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Por Ricardo Seelig, Fonte: Collector´s Room, Tradução
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Tradução de Ricardo Seelig (matéria publicada originalmente na revista Classic Rock 164, de novembro de 2011)

A revista inglesa Classic Rock bateu um papo com o vocalista e guitarrista Mikael Akerfeldt, líder do Opeth, e com o guitarrista Fredrik Akesson, sobre quais discos influenciaram a banda durante o processo de composição de "Heritage". Confira as revelações da dupla, e descubra novos e ótimos sons.

Cressida – Cressida (1970)

Mikael - Quem me mostrou este disco foi Russ Smith, jornalista da Terrorizer. Ele me deu uma fita k7 – sim, um k7, há bastante tempo atrás, lá por 1993 – com Forest de um lado e Cressida em outro. Nós nos correspondíamos e recomendávamos bandas um ao outro. Ele era muito fã de doom metal, então eu não esperava que ele me indicasse algo assim. E eu adorei! A gravação foi feita de um vinil e o som era suingado, com uns toques de jazz, um prog com muito – muito mesmo – órgão. Eu nunca tinha ouvido algo parecido, e fiquei obcecado por aquilo. Encontrei o segundo álbum em CD em uma loja de Estocolmo, com uma ótima capa de Keith 'Keef' MacMillan. Passei um tempão procurando este disco em vinil, me correpondendo com diversas pessoas, ainda sem internet. Eu vinha da cena do metal extremo, então não tinha amigos que pudessem me ajudar nessa busca.

Gracious – Gracious! (1970)

Mikael - Depois que conheci o Cressida fui atrás de outras coisas da Vertigo. Este é o debut do Gracious. A capa não chamava muita atenção, mas ao abrir o gatefold dei de cara com uma belíssima pintura psicodélica. E a música era super cool! O vocalista, Paul Davis, havia participado de uma montagem de Jesus Christ Superstar um ano antes. O som do Gracious tinha muito mellotron. Era como o Moody Blues e o Spring, eles construíam o seu som ao redor do instrumento. Os antigos teclados, especialmente o mellotron, soavam de maneira bem demoníaca. A faixa “Hell” tinha uns sons que pareciam samplers de filmes de terror para mim.

Tudor Lodge – Tudor Lodge (1971)

Mikael - O lado folk da Vertigo, e também muito bom. Por volta de 2004 eu fui fotografado para uma revista segurando este disco, e John Stannard, integrante da banda, entrou em contato com a nossa gravadora perguntando se poderia se encontrar com a gente. Pensei “pô, que legal”, e o convidei para um de nossos shows na Inglaterra. Então nos encontramos antes do show, conversamos e ele me contou que ainda estava envolvido com música. John me deu um CD com uma nova cantora que soava exatamente como ele – era uma garota, talvez sua filha. Porém, nós não nos encontramos depois do show. Acho que ele ficou surpreso por sermos uma banda de death metal e não de folk rock.

Scott Walker – The Drift (2006)

Mikael – Na época que Walker gravou este álbum ele estava bastante introvertido e fazendo um som bem anti-comercial. Seu trabalho anterior foi vendido como um disco pop, e foi um dos menos vendidos da história da Virgin. "The Drift" influenciou muito o Opeth. Eu tentava cantar como Walker, mas soava mais como David Bowie. Fiz uma música para o OSI (projeto de Jim Matheos, do Fates Warning, e Kevin Moore, ex-Dream Theater) onde tentava cantar de maneira profunda e lenta, mas só consegui soar como um Bowie ruim.

Cornelis Vreeswijk – Cornelis Sjunger Taube (1969)

Fredrik – Esse disco lembra a minha infância. Meu pai gostava muito dele. Cornelis era um holandês maluco que fez a sua carreira na Suécia tocando folk jazz. Eu lembro do meu pai me mostrando essa capa.

Mikael – Um barbudo pelado?

Fredrik – Sim, um choque para os olhos. Meu pai tocava violão e cantava. Acho que ele queria ser como Cornelis, ou uma espécie de folk hero. Esse cara era tipo um ícone boêmio, e era muito controverso.

Mikael – Ele era um rock star também, bebia um monte, vivia cercado de mulheres, tomava drogas

Fredrik – Ver a coleção de discos dos meus pais espalhada pela casa me fez começar a minha própria coleção. Não com Cornelis, é claro, mas com "For Those About to Rock" e "Piece of Mind".

Jan Johansson – Jazz Pa Svenska (1964)

Mikael – Este disco é muito famoso na Suécia. É música sueca tocada em forma de jazz, apenas com piano.

Fredrik – É lindo!

Mikael – É o mais belo disco já gravado!

Fredrik – A primeira faixa de "Heritage" foi baseada nele.

Mikael – Eu pedi para Joakim (Svalberg, tecladista do Opeth) escrever uma introdução para o álbum, e quando ele me mostrou soava como este disco. Perfeito! Não dei nenhum direcionamento para ele, mas estava em nosso subconsciente. Este é um álbum que ouvimos durante todas as nossas vidas. Todos amam este disco, mesmo as pessoas não interessadas em música, porque ele é sobre a Suécia. Eu não sou um desses caras patrióticos, mas ele faz parte das nossas raízes.

Fredrik – Jan é o pai do jazz sueco, e seus filhos Anders e Jens também estão na música, envolvidos com o Stratovarius e com Malmsteen.

Bobak, Jons, Malone – Motherlight (1970)

Mikael – Li sobre este disco no brilhante livro "Tapestry of Delights", de Vernon Joynson, sobre obscuridades do rock inglês lançadas entre 1963 e 1976. Ele foi gravado por três caras de estúdio – engenheiros, produtores e arranjadores -, e é um dos discos mais psicodélicos que eu ouvi em toda a minha vida. O LP foi lançado por um selo criado pelo lendário Morgan Studios, em Londres, que tinha clientes como Pink Floyd, Led Zeppelin e Yes. O cantor, Wil Malone, depois gravou também um álbum solo, e se alguém que estiver lendo isso o tiver na edição lançada pela Fontana em vinil, entre em contato comigo, pois eu quero. É impossível de encontrar! É um grande disco de rock psicodélico. As músicas são realmente estranhas, há algumas partes onde os guitarristas tocam muito alto. Você se sente como se estivesse bêbado ao ouvir isto, ou prestes a vomitar.

Cromagnon – Cave Rock (1969)

Mikael - Um grupo americano que lançou apenas um LP, não sei muito sobre eles. A primeira faixa tem vocais como os de death e black metal – isso em 1969! É super estranho, muito bom e demoníaco. A foto dos caras na contracapa mostra eles como pessoas normais, mas a banda produzia música que pode matar as pessoas. O som é psicótico! Se você vai passar uma noite com a sua garota, essa, definitivamente, não deve ser a trilha sonora. Isso é o que um esquadrão de fuzilamento ouviria antes de fazer o seu trabalho. Eu não sei se isso é bom, mas ao ouvir o disco pela primeira vez meu queixo caiu e eu pensei: “Que diabos é isso?”.

White Noise – An Electric Storm (1968)

Mikael – Um dos primeiros álbuns prog lançados pela Island Records, com um line-up formado pelo compositor David Vorhans, Delia Derbyshire e Brian Hodgson. Esta é a estreia da banda e é experimentação pura, com os caras descobrindo novas sonoridades com os primeiros sintetizadores. Mas é também um disco divertido. Delia canta a minha música favorita, “Here Come the Fleas”, que é hilária. Eles tem uma faixa chamada “Black Mass”, muito sacana, e “The Sound of Loving” tem uns sons incríveis ao fundo. Eu nunca ouvi nada parecido como este disco. O fato de eles terem feito experimentos eletrônicos tornou este álbum lendário. O grupo certamente me impressionou. Este é um álbum de uma época onde havia senso de humor na música experimental.

Culpeper's Orchard – Culpeper's Orchard (1971)

Mikael - Esta é uma das minhas 10 bandas favoritas de todos os tempos. Eles são dinamarqueses, contavam com um cantor inglês chamado Cy Nicklin e com o baterista Rodger Barker, que eu já conhecia das minhas pesquisas sobre o Cressida. Quando encontrei este primeiro disco, descobri uma banda de hard rock fantástica lançada apenas na Dinamarca e na Alemanha, e que havia vendido só umas 10 cópias de seus álbuns (risos). Mas as canções … há um lance meio Led Zeppelin nas baladas, meio Purple, meio Jethro Tull, e músicas absolutamente fantásticas. Estas canções são tão clássicas para mim quanto qualquer disco do Black Sabbath. Eu fiquei obcecado pela banda, e tentei encontrar Cy. Um amigo meu encontrou a sua irmã em uma feira de discos, pegou o seu número, mas ele estava sempre desligado. Não sei se este cara ainda faz algo na música, mas ele significa o mesmo para mim que Tony Iommi. Se eu tivesse que escolher apenas um disco para ouvir o resto da vida, seria este.

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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