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O Blues de Pink & Floyd

Por Márcio Ribeiro
Em 07/07/02

Ao entrarem no escritório para assinarem o primeiro contrato, um dos executivos com um charuto na boca foi logo perguntando, "Qual de vocês é o Pink?" Mesmo depois de explicado que Pink Floyd se trata apenas do nome da banda, esta pergunta ocasionalmente voltava a ser feita. Mal sabiam alguns que existia um Pink como também um Floyd, apenas não eram da banda. Desde então, Syd Barrett já contou até que o nome foi telepaticamente transmitido para ele por um OVNI que passava certo dia. Porém a versão mais aceita durante os primeiros anos da banda e largamente divulgado era de que se tratava do nome de um disco. O disco chamava-se "The Pink Floyd Sound", o nome da banda sendo rapidamente abreviado para apenas Pink Floyd. Este disco, conta a versão, foi gravado pela dupla obscura de blues Pink Anderson e Floyd ‘Dipper Boy’ Council.

Pink Anderson

Seu nome verdadeiro é Pinkney Anderson, nascido na cidade de Lawrence, Carolina do Sul, no dia 12 de fevereiro de 1900. Sua família se mudou para Greenville e depois Spartanburg, onde ele cresceu e viveu por boa parte de sua vida. Menino ativo e desinibido, para conseguir trocados cantava e dançava nas ruas. Um vizinho lhe ensinou os princípios de como tocar o violão, porem ele so iria se desenvolver no instrumento a partir de 1916 quando conheceu Simmie Dooley. Talentoso instrumentista e cantor, Simmie tinha dificuldades para conseguir trabalho pelo fato de ser cego. Os dois se tornaram grandes amigos.

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Anderson conseguiu trabalho como dançarino e comediante no que se costuma chamar de show medicinal, ou seja, um pequeno show andarilho que atrai um pequeno publico o tempo suficiente para vender remédios ‘alternativos’, geralmente um tônico de ervas não identificadas garantidos a resolver um sem número de males. Pink Anderson se juntou ao Dr. Kerr’s Indian Remedy Company Medicine Show onde ele permaneceria pelos próximos trinta anos.

Quando não estava viajando com o Dr. Kerr, Pink Anderson e Simmie Dooley iam até a mata com violão e garrafão de whiskey caseiro e treinavam até altas horas. A exigência de Dooley que chegava a bater em Pink com uma vareta quando este insistia em errar certos acordes, somados à aplicação séria do rapaz, fez com que no espaço de pouco mais de um ano, Pink Anderson se tornasse um instrumentista bastante desenvolto. Tanto que ele passou a atrair o povo para assistir o show do Dr. Kerr, não mais contando piadas mas utilizando seu violão. As exigências deste tipo de trabalho obrigam o musico a ser extremamente eclético como também ser meio ‘repentista’, compondo letras na hora com nomes e descrições das pessoas que o assistiam naquele momento.

A dupla Simmie e Pink, tocando sempre em festas, piqueniques, ou mesmo nas ruas de Spartanburg, passa a ganhar certo reconhecimento. Durante a década de vinte, Anderson também tocou com uma variedade de músicos de rua, entre estes, ‘Fiddlin’ Frank Martin e seu filho Carl Martin. Em 1928, após um set da dupla Simmie e Pink, surgiu um convite para gravarem em Atlanta pelo selo Columbia. Foram quatro faixas que renderam dois compactos lançados no espaço de dois anos. O primeiro compacto vendeu tão bem que tiveram de imprimir uma segunda prensagem. A Columbia convida Anderson de volta, porém sem Dooley. Amigo fiel, o convite foi prontamente recusado por Anderson, que logo volta a sua rotina de viagens com o show medicinal.

Dr. Kerr se aposentou em 1945, Anderson logo se atrelando a outros shows medicinais. Sua fama de bom musico e bom cantor o manteve no circuito dos shows medicinais, entre os quais estão o Frank Curry Show, o Emmer Smith Show, o WA Blair Show e finalmente o Big Chief Thundercould's Show, este se aposentou em 1950. Durante sua passagem pelo Emmer Smith Show, fez amizade com o ainda jovem Peg Leg Sam (Arthur Jackson), a quem ensinou muito sobre musica.

Com o país rapidamente mudando após a Segunda Guerra, em parte graças ao surgimento da televisão, este tipo de show estava rapidamente se tornando extinto. Se apresentando em Charlottesville na Virginia, Pink Anderson acabou sendo gravado pela segunda vez em sua longa carreira. O material compreende em parte, canções típicas utilizados nos shows medicinais, estilo cada vez mais raro e que ele dominava tão bem. Pink acabou dividindo essas sessões com outro bluesman, o Reverendo Gary Davis. Anderson em 1954 volta para Spartanburg tocando com Charles ‘Baby’ Tate alem de montar um trio com Keg Shorty Bell na gaita e Chilly Willy Williams no esfregão de roupa.

Sua carreira sofreu uma travada em 1957 após Anderson sofrer um ataque cardíaco, parando definitivamente de viajar e se fixando em Spartanburg. Quatro anos depois, em 1961, seu grande amigo Simmie Dooley faleceu. No ano seguinte, após uma apresentação ao lado de Baby Tate, Anderson receberia um convite de Sam Charters, dono do selo Charters, para gravar uma série de discos.

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É a partir da década de sessenta que foram gravados o grosso de sua discografia. Assim como existe a região do Delta no Mississippi, existe na Carolina a região de Piedmont, na qual o estilo é caracterizado por um blues melancólico na voz. Neste sentido, Pink Anderson é um belo exemplo e lembra muito outro filho da região, o bem mais famoso Blind Boy Fuller. Ao todo foram três LP’s, respectivamente um de blues, um de baladas e outra de canções típicas de shows medicinais. Anderson a esta altura de sua vida, aos sessenta e um anos de idade, já passara de seu auge, no entanto, ainda demonstrava grande firmeza tanto em sua palhetada quanto em sua voz. No ano seguinte, Pink Anderson ainda apareceu no filme "The Bluesman". O filme lhe permitiu cobrar um pouco mais por suas apresentações porem em 1964 ele sofreu seu segundo ataque cardíaco o que o obrigou a parar de vez com a vida artística.

Passou o resto de sua vida morando em um barraco e ensinando seu filho, hoje conhecido como Little Pink, a tocar o violão. Ganhava $75 de aposentadoria e pagava $50 de aluguel. O resto do seu orçamento vinha de jogos de cartas que ele promovia em casa e venda de whiskey de alambique caseiro (moonshine whiskey). Em total obscuridade, sem nem seus vizinhos saberem que ele era músico ou que seu nome era associada à já famosa banda inglesa, Pink Anderson morreu dia 12 de outubro de 1974.

Floyd Council

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Natural de Chapel Hill, Carolina do Norte, Floyd ‘Dipper Boy’ Council nasceu no dia 2 de setembro de 1911. Passou a década de vinte cantando nas ruas com os irmãos Leo e Thomas Strowd, este ultimo sendo sua primeira grande influencia musical. Somente aos 35 anos, em 1935, foi que Floyd acabou sendo descoberto por John Baxter Long da ACR Records, ainda cantando nas ruas de Chapel Hill. Levado para Nova York, Floyd gravou segundo violão nos discos de Blind Boy Fuller. Council gravou algumas faixas de material próprio e em dezembro de 1937, gravou faixas com Sonny Terry.

Durante as décadas de quarenta e cinqüenta Council voltou a tocar com Thomas Strowd em Chapel Hill. Lembrado por muitos como um exímio violonista, pouco se conhece realmente do seu acervo musical. Em 1969, Floyd em uma entrevista disse que havia gravado ao todo vinte e sete títulos. Todavia, até o momento, foram identificados apenas dezoito. Seis de trabalhos solos, sete tocando para Blind Boy Fuller, duas com Sonny Terry e outras três que ele gravou em agosto de 1970, antes de se aposentar definitivamente graças a problemas de saúde que afetaram seu controle motor, deixando os músculos de sua garganta paralisados.

Floyd Council se mudou para a cidade de Sanford na Carolina do Norte onde morreu em junho de 1976.


Como puderam perceber, embora os dois músicos sejam da mesma parte da America, dos estados da Carolina, não há evidência alguma de que Pink e Floyd sequer se conheciam, quanto mais teriam gravado como uma dupla. Não existe nenhum disco chamado "The Pink Floyd Sound", e hoje se sabe que a união das forcas destes dois artistas obscuros ficou por conta apenas da mente criativa de Syd Barrett. O livro "Shine On Your Crazy Diamond", biografia sobre Syd Barrett, conta que Syd havia viajado para Cambridge à procura de um vocalista para sua banda. Não encontrou o cantor mas acabou comprando dois discos, e na viagem de trem de volta, possivelmente enquanto namorava a capa, pensou na hipóteses de juntar o nome destes dois artistas, Pink Anderson e Floyd Council. O nome soava certo. Tornou-se uma homenagem que salvou estes dois excelentes músicos (segundo todos que ouviram ou tocaram tanto com Pink quanto com Floyd) de uma total obscuridade.

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Discografias:

Pink Anderson

Os primeiros três da lista são coletâneas com vários artistas.

Story of Blues - Georgia String Bands 1928-1930 (Simmie Dooley e Pink Anderson).
Bawdy Blues
Bluesville Years, Vol. 6: Blues Sweet Carolina Blues

Carolina Bluesman, Volume 1
Medicine Show Man, Vol. 2
Ballad and Folksinger, Vol. 3
Gospel, Blues and Street Blues: - Rev. Gary Davis and Pink Anderson

Floyd ‘Dipper Boy’ Council

Nunca houve por parte das gravadoras nenhuma tentativa, nem em vinil ou CD, de se reunir as gravações de Floyd Council em um só trabalho. É mais fácil encontrar suas gravações com Blind Boy Fuller.

Blind Boy Fuller Complete Recorded Works, Vol. 1 (1935-1936)
Blind Boy Fuller Complete Recorded Works, Vol. 2 (1936-1937)
Blind Boy Fuller Complete Recorded Works, Vol. 4 (1937-1938)
Blind Boy Fuller Get Your Yas Yas Out: The Essential Recordings of Blind Boy Fuller

Contudo existe uma coletânea de vários artistas chamado:

Carolina Blues (1937-1947)

Incluído neste CD estão nada menos do que seis musicas creditadas ao Floyd. São elas:

Runaway Man Blues - 2:53
I'm Grievin' and I'm Worryin' - 2:46
I Don't Want No Hungry Woman - 2:46
Working Man Blues - 3:04
Poor and Ain't Got a Dime - 3:02
Lookin' for My Baby - 2:58


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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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