A música do Pink Floyd que Roger Waters detestou e David Gilmour transformou num clássico
Por Bruce William
Postado em 30 de maio de 2026
"Comfortably Numb" parece hoje uma daquelas músicas inevitáveis do Pink Floyd, como se sempre tivesse existido daquele jeito. A voz grave de Roger Waters nos versos, David Gilmour abrindo o refrão, a orquestração crescendo ao redor e, claro, os solos de guitarra que viraram parte do imaginário de qualquer fã da banda. Mas o caminho até essa forma final não foi exatamente pacífico. A música nasceu de uma ideia de Gilmour, ganhou letra de Waters e acabou virando um dos melhores exemplos de como a tensão entre os dois também podia produzir algo enorme.
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A origem veio de um material que Gilmour havia guardado. Conforme relata a wikipedia, ele gravou uma demo instrumental enquanto trabalhava em seu primeiro álbum solo, lançado em 1978, mas não usou a ideia naquele disco. Quando "The Wall" começou a tomar corpo, levou a composição para o Pink Floyd. Waters então encaixou a letra no enredo de Pink, o personagem central da ópera-rock, no momento em que ele é medicado para conseguir subir ao palco.
A letra também tinha um ponto autobiográfico. Waters já contou que se inspirou em uma experiência durante a turnê In the Flesh, em 1977, quando recebeu uma injeção de tranquilizantes por causa de fortes dores de estômago antes de um show no Spectrum, na Filadélfia. Ele descreveu aquela apresentação como as duas horas mais longas de sua vida, tentando tocar sem quase conseguir levantar o braço.
Esse detalhe explica por que "Comfortably Numb" não é apenas uma música sobre anestesia emocional em sentido abstrato. Dentro de "The Wall", ela funciona como cena dramática: o artista está quebrado, isolado e praticamente apagado, mas precisa ser colocado de pé para cumprir a função diante do público. A canção alterna exatamente esses estados - o médico nos versos, a lembrança distante no refrão, a guitarra funcionando como a parte da mente que ainda consegue gritar.
O problema é que Waters e Gilmour não ouviam a mesma música. Gilmour queria refazer partes da gravação, como bateria e baixo, porque achava que o take anterior soava relaxado demais. Waters ouviu a nova versão e reagiu mal. "Dave disse que achava a faixa desleixada, ou algo assim, e queria regravar a bateria, o baixo, isso, aquilo e mais um pouco. Eu ouvi e odiei. De repente, para mim, tinha ficado muito dura, sem se mover em nada."
A solução foi quase salomônica, mas bem à moda Pink Floyd: usar pedaços dos dois caminhos, em um resultado que não apagou o conflito, mas apenas o colocou dentro da música. Waters resumiu assim, em fala publicada na Far Out: "Eu disse: 'Não, do jeito que estava era ótimo. Isso aqui está ruim'. Ele dizia: 'Não, do jeito que estava era terrível. Isso aqui está ótimo'. Então a música acabou com quatro compassos dele e quatro compassos meus… a faixa inteira é assim."
Bob Ezrin, produtor de "The Wall", foi uma peça importante nesse tipo de costura. A versão final acabou combinando a abordagem mais áspera defendida por Gilmour com elementos mais orquestrados e controlados que agradavam a Waters e Ezrin. Esse equilíbrio é parte do motivo pelo qual a faixa funciona tão bem: ela não soa totalmente como uma canção de Gilmour, nem totalmente como uma cena escrita por Waters. Soa como os dois se enfrentando dentro do mesmo quarto.
No fim, a briga em torno de "Comfortably Numb" ajuda a entender o Pink Floyd daquele período. A banda já estava longe de um funcionamento equilibrado, e The Wall era cada vez mais um projeto conduzido por Waters. Mesmo assim, quando Gilmour ainda encontrava espaço para impor uma ideia, a música ganhava outra dimensão. O incômodo de Waters com aquela gravação não impediu a faixa de virar clássica. Pelo contrário: talvez a grandeza dela esteja justamente no fato de ninguém ter conseguido deixá-la confortável demais.
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