O álbum que John Lennon se arrependeu de lançar com Yoko Ono; "Quase arruinou tudo"
Por Bruce William
Postado em 08 de junho de 2026
John Lennon saiu dos Beatles disposto a cantar de um jeito cada vez menos protegido. Plastic Ono Band expôs traumas familiares, dor, raiva e desilusão com uma crueza que ainda incomoda. Imagine suavizou parte do som, mas manteve a combinação de ataque político, idealismo e confissão pessoal. Em 1972, porém, ele e Yoko Ono deram um passo mais direto - e também mais problemático - com "Some Time in New York City."
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O disco nasceu do período em que Lennon e Yoko estavam vivendo em Nova York e se aproximando de militâncias políticas, protestos, movimentos radicais e debates públicos nos Estados Unidos. As músicas falavam de Angela Davis, John Sinclair, Attica, Irlanda do Norte, feminismo, prisão e conflitos sociais. A própria página oficial de Lennon descreve o álbum como um trabalho cercado por "frenesi de mídia", em uma fase em que o casal parecia transformar quase tudo ao redor em assunto de canção.
O problema é que Lennon começou a sentir que a proposta havia ficado literal demais. Em vez de poesia, o disco passou a soar para ele como comentário de jornal. "Quase arruinou tudo. Virou jornalismo, não poesia. E basicamente eu me sinto um poeta", disse o músico, ao refletir sobre aquele momento, em uma frase que explica boa parte do incômodo: Lennon queria reagir ao mundo, mas percebeu que havia perdido algo no caminho entre a urgência política e a força artística.
A recepção não ajudou. "Some Time in New York City" foi lançado em junho de 1972 nos Estados Unidos e trouxe, além do álbum de estúdio com a banda Elephant's Memory, um segundo disco ao vivo com registros de apresentações anteriores. A crítica recebeu o trabalho de forma dura, especialmente pela sensação de que as letras estavam presas demais ao noticiário imediato. Uma reportagem da New Yorker daquele mesmo período já observava que os Lennons haviam escrito cerca de uma dúzia de canções políticas nos primeiros meses em Nova York, mas apontava nelas um tom "desajeitado e obrigatório" em sua topicalidade.
Não era falta de coragem, ressalta a Far Out. Lennon estava se colocando em temas difíceis, em um momento politicamente carregado. O ponto é que coragem nem sempre vira boa música. Muitas canções de Some Time in New York City dependiam tanto do contexto imediato que envelheceram como panfletos sonoros. Para quem conhecia o Lennon de "Working Class Hero", "God" ou "Jealous Guy", o disco parecia mais preocupado em declarar posição do que em criar imagens capazes de sobreviver fora da manchete.
Também havia o desgaste da própria parceria pública entre Lennon e Yoko. O álbum saiu creditado aos dois e misturava suas vozes, causas e provocações, mas a reação do público e da imprensa acabou reforçando a sensação de que tudo estava sendo lido antes como gesto político do casal do que como obra musical. A capa em formato de jornal, com letras e imagens espalhadas como uma publicação militante, deixava isso ainda mais evidente.
Visto hoje, o disco continua sendo uma peça estranha dentro da carreira solo de Lennon. Não é irrelevante, porque mostra um artista tentando transformar o mundo ao redor em música sem recuar diante da impopularidade. Mas também não é um daqueles trabalhos que sua reputação consegue defender sozinha. Em alguns momentos, o compositor que sabia transformar dor pessoal em canção universal ficou preso demais ao acontecimento da semana.
Talvez por isso o arrependimento de Lennon tenha um peso diferente. Ele não estava pedindo desculpa por ter se envolvido politicamente, nem por ter tomado partido. O incômodo parecia ser outro: a percepção de que havia deixado a notícia atropelar a poesia. Para um artista que se via antes de tudo como compositor, esse talvez fosse o verdadeiro fracasso de "Some Time in New York City."
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