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PRB

Piá de bosta - Garotos imberbes que se atrevem a tocar Blues

Por Carlos Augusto de Oliveira
Em 07/10/05

Piá de bosta é uma expressão bastante utilizada aqui em Curitiba e Região. Não sei se atinge outras partes da Região Sul ou do resto do país, por isso dou uma pequena explicação. É aquele guri recém saído das fraldas e que já se arvora a fazer coisa de gente grande. Vale para o bem e para o mal, ou seja: quando eu falo "seu piá de bosta" eu posso estar desmerecendo o camarada, pedindo pra ele calar a boca por que a conversa é de gente grande. Ou eu posso estar elogiando, reconhecendo que apesar da pouca idade ali já tem conteúdo.

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O Blues também tem seus piás de bosta. É verdade que o início precoce da carreira não garante nem sua continuidade e muito menos seu sucesso. Vamos ver alguns casos que deram certo, outros que não foram adiante e uma nova promessa.

Nathan Cavaleri nasceu na Austrália em 1982. Seu pai era guitarrista amador e tentou incentivar a musicalidade do filho bem cedo: aos três anos de idade Nathan ganhou um ukulelê. Logo veio um violão e em seguida uma guitarra elétrica com o braço lixado pra que pudesse alcançar todas as cordas. Aos seis já tocava todo sábado em frente ao café da mãe, descolando uma graninha dos passantes. Veio então um diagnóstico de leucemia, uma longa batalha contra a doença e muito tempo pra estudar sua guitarra. Aos nove estava curado e pronto pra uma bela carreira musical.

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O primeiro disco, "Jammin' with the Cats" veio em 1993. Superexposição na mídia australiana; aparições em shows de todas as feras do blues que tocaram na Austrália; convites para shows na América; um contrato com MMJ, o selo do Michael Jackson, que sempre apoiou as criancinhas; um contrato com a Disney; um segundo disco, "Nathan", que saiu até no Brasil em 94; uma faixa deste disco, "Lou's Blues" na trilha do "Free Willy 2", turnê com B. B. King, aparições em seriados e filmes australianos até 1997 e... Nathan Cavaleri some do mundo. Atualmente ele está praticando karatê, é faixa-preta no terceiro dan. E parece que tem uma banda chamada Dirty Skanks.

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O disco "Nathan" é um daqueles que eu fico mudando de estante a cada audição - sai do blues vai pro rock volta pro blues e assim por diante. Não é um disco muito consistente, principalmente por não ter uma banda. São músicos de estúdio acompanhando a guitarra do cara. Dentre estes músicos, o baixista Jeff Berlin, os cantores Sweet Pea Atkinson (Was (Not Was)) e Andrew Strong (Commitments). Tem algumas composições do Nathan em parceria com seu pai e algumas versões, sendo a melhor "Summertime Blues", do Eddie Cochrane. E tem ótimos momentos nas instrumentais "Lou's Blues" e "Bluzchanan". E no encarte uma pista de porque não deu certo a carreira desse bom guitarrista: a quantidade de patrocínios que tinha esse piá de bosta.

Como consegui viver de Rock e Heavy Metal

Little John Chrisley começou um pouco mais tarde, mas também foi levado pelas mãos do pai. Foi o pai quem lhe deu a harmônica, o pai que lhe emprestava fitas de blues pra ele tirar as músicas, o pai que arranjou os primeiros palcos pra ele tocar, o pai que escrevia suas músicas, o pai que conseguiu um contrato com uma major. Little John Chrisley foi o caso típico de estar no lugar certo na horta errada. Alguns dias depois dele assinar com a CBS esta foi comprada pela Sony. Mudou o pessoal e a nova turma não sabia o que fazer com aquele piá branco que tocava harmônica e queria tocar blues. E quando o pai mudou pro Oregon, Joãozinho ficou na Califórnia. Foi auxiliar de cozinha, jardineiro num clube de nudismo, dormia no sofá dos amigos. Continuou soprando sua harmônica, mas sem causar tanta sensação como antigamente - já não era mais um piá de bosta.

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Foi quando surgiu uma nova chance e ele assinou com o Mike Varney, o cara que criou a Shrapnel Records, paraíso dos fritadores de guitarra. Participou de alguns discos da série L. A. Blues Authority, gravou com Pat Travers, com Mr. Big e em 1994 lançou o primeiro disco com o nome Howling Iguanas.

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Em 95 saiu o único disco em nome de Little John Chrisley. Ele tem um site não muito informativo: http://littlejohnblues.com/index.htm. Mas neste site tem um link de uma página que conta melhor esta história:

http://www.metroactive.com/papers/metro/01.22.98/cover/chrisley-9803.html

Parece que hoje ele mora num trailer, dá aulas de harmônica e continua tocando seus blues. Com a mesma freqüência com que sai esta coluna, ou seja, de vez em quando.

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Os discos do Little John Chrisley podem ser classificados como hard-blues. Essa classificação arrepia os puristas: 'o que esse piá de bosta sabe de blues? Isso é heavy-metal', diriam eles. Condescen- dentemente concedo - é mais hard do que blues. Mas dá pra sentir ali o cheiro de lama das margens do Mississippi. Ou o vento das ruas de Chicago. A produção Shrapnel adiciona peso, sujeira e velocidade ao som, a guitarra do Michael Lee Firkins tem uma presença muito forte, mas a gaita e a voz do Little John mostram que ele merece uma nova chance.

Os caras que deram certo, os piás de bosta que se tornaram conhecidos e continuam na ativa serão o assunto de nossa próxima coluna. Assim como a mais nova revelação do blues, Erick Steckel. Será que esse vai dar certo? Como diria um ex-presidente de bosta, "o tempo é o senhor da razão" ou qualquer bobagem. Então, até a próxima.

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Sobre Carlos Augusto de Oliveira

Carlos Augusto de Oliveira é musicômano, rockólatra e blues-maníaco. Esta loucura o levou a ser dono de loja de discos durante a última década do século passado. E na tentativa de arrastar mais seres humanos para este abismo de insanidades, produziu e apresentou programas sobre blues e heavy-metal entre 1989 e 2004 nas FMs Estação Primeira, Alternativa e Paraná Educativa, todas em Curitiba.

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